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Editorial

A fronteira muda de mercadoria. O crime continua passando

De cigarros a canetas emagrecedoras, o contrabando muda. MS precisa de atuação federal a altura

Por José Cândido | 27/09/2026 07:02
A fronteira muda de mercadoria. O crime continua passando
Canetas emagrecedoras apreendidas após entrar no Brasil pelo Paraguai: novo produto nas rotas do contrabando em MS. (Foto Campo Grande News)

O contrabando acompanha o mercado. Se há procura por cigarros, chegam cigarros. Se o lucro está nas canetas emagrecedoras, elas passam a ocupar os carros, as encomendas e os esconderijos. Em Mato Grosso do Sul, a fiscalização estadual apreendeu mais de 6 mil canetas e ampolas irregulares em operações divulgadas neste ano. A novidade é o produto. A capacidade de encontrar uma rota para levá-lo ao consumidor brasileiro é antiga.

RESUMO

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Em Mato Grosso do Sul, mais de 6 mil canetas e ampolas emagrecedoras irregulares foram apreendidas em operações neste ano, revelando a adaptação do contrabando às demandas do mercado. Em agosto, a Polícia Rodoviária Federal interceptou mais de meio milhão de maços de cigarros, e a Polícia Federal sequestrou R$ 75 milhões ligados a uma organização criminosa. Especialistas defendem vigilância contínua e maior cooperação entre União, Estado e Paraguai para combater o crime organizado na fronteira.

As apreensões mostram trabalho policial. Também expõem o tamanho do desafio. Em agosto, a Polícia Rodoviária Federal interceptou mais de meio milhão de maços de cigarros contrabandeados no Estado.

No mês seguinte, a Polícia Federal investigou uma organização suspeita de levar mercadorias da fronteira com o Paraguai para São Paulo, Minas Gerais e Goiás e determinou o sequestro de R$ 75 milhões em bens e valores. O dinheiro apreendido não mede todo o comércio ilegal, mas ajuda a entender a estrutura que existe por trás das cargas.

Quando essas redes prosperam, o prejuízo vai além dos impostos que deixam de ser pagos. O comércio legal enfrenta uma concorrência que não obedece às mesmas regras. Medicamentos de origem irregular chegam às mãos de pessoas sem garantia de procedência. E grupos criminosos ganham dinheiro para financiar novas operações.

É preciso cobrar do governo federal mais do que uma sequência de operações anunciadas após cada apreensão. A fronteira exige vigilância contínua, inteligência para identificar quem financia as cargas, investigação do caminho do dinheiro e cooperação efetiva entre União, Estado e Paraguai. Prender o motorista é necessário. Alcançar quem organiza e lucra com a rota é decisivo.

As Forças Armadas também têm um papel previsto em lei. A Lei Complementar 97 autoriza sua atuação contra delitos transfronteiriços na faixa de fronteira, inclusive com patrulhamento e revistas, preservadas as competências das polícias. A pergunta, portanto, é por que essa estrutura não é empregada de forma mais constante e coordenada onde pode fazer diferença. Cabe ao governo federal explicar sua estratégia, os recursos destinados a ela e os resultados obtidos.

Não se vence o crime apenas com poder bélico. Uma carga parada na estrada pode ser substituída; uma organização desarticulada perde veículos, dinheiro, contatos e capacidade de operar. Mato Grosso do Sul não pode continuar sendo tratado como um ponto de passagem cujo problema só ganha atenção quando uma grande apreensão rende manchete. A fronteira é parte do país todos os dias. A presença do Estado precisa ser também.