Desistir de votar não muda a política: entrega a decisão aos outros
Maior abstenção do Brasil, registrada em MS, expõe o custo de abrir mão da escolha de quem vai governar

Mato Grosso do Sul saiu da eleição de domingo com uma liderança que deveria provocar preocupação: a maior taxa de abstenção do Brasil. Segundo dados do TSE apresentados pelo Campo Grande News, 483.210 eleitores não compareceram às urnas, o equivalente a 23,87% dos aptos a votar. Quase uma em cada quatro pessoas deixou de participar da escolha de seus representantes.
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É uma ausência que precisa ser compreendida, mas não pode ser tratada como um detalhe da apuração. Quando tanta gente fica fora de uma decisão coletiva, perdem o Estado, o país e, principalmente, o cidadão que abre mão de escolher quem considera mais preparado para governar e representá-lo.
Seria injusto atribuir todas as ausências ao desinteresse. Doença, dificuldades de deslocamento e outros impedimentos podem afastar o eleitor. A reportagem registra que a chuva preocupou a Justiça Eleitoral no domingo. Os números, por si só, não explicam o motivo de cada ausência. Cabe investigar essas razões, inclusive para identificar obstáculos que o poder público precisa remover.
Há, porém, uma reflexão indispensável sobre quem poderia votar e decidiu não participar. A decepção com a política é compreensível. Promessas descumpridas, escândalos e candidatos que só aparecem para pedir votos desgastam a confiança. Mas desistir da escolha não corrige esses problemas. Apenas deixa a decisão nas mãos de quem comparece.
O poder continua sendo distribuído. Os cargos são preenchidos. Os orçamentos serão administrados, as prioridades serão estabelecidas e as leis serão votadas. A ausência de um eleitor não deixa uma cadeira vazia à espera de sua opinião.
Quem não vota continua precisando de atendimento médico, segurança, educação e oportunidades de trabalho. Continua pagando impostos e vivendo sob decisões tomadas pelos governantes. Pode abrir mão de participar da escolha, mas não consegue abrir mão das consequências.
O voto não garante, sozinho, um bom governo. É, contudo, uma oportunidade concreta de comparar trajetórias, avaliar propostas, reconhecer competência e rejeitar quem trata o dinheiro público como patrimônio particular. Renunciar a essa oportunidade por acreditar que nada muda significa abandonar um dos instrumentos disponíveis para promover a mudança.
A responsabilidade também alcança partidos, candidatos e instituições. É preciso oferecer razões para que o eleitor participe: propostas possíveis, prestação de contas, transparência e respeito à inteligência da população. Recuperar a confiança exige mais do que campanhas pedindo comparecimento às urnas.
A maior abstenção do país deve ser encarada como um alerta, não como uma estatística a ser esquecida até a próxima eleição. Uma democracia precisa ouvir seus cidadãos e criar condições para que participem. E o cidadão precisa reconhecer o valor da decisão que tem nas mãos.
Deixar de votar não suspende o futuro. O futuro será decidido de qualquer maneira — e alcançará também quem preferiu deixar a escolha para os outros.

