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Editorial

Desistir de votar não muda a política: entrega a decisão aos outros

Maior abstenção do Brasil, registrada em MS, expõe o custo de abrir mão da escolha de quem vai governar

Por José Cândido | 08/10/2026 05:03
Desistir de votar não muda a política: entrega a decisão aos outros
Eleitor votando: participar da escolha é exercer o direito de influenciar o futuro do Estado e do país. (Foto Campo Grande News)

Mato Grosso do Sul saiu da eleição de domingo com uma liderança que deveria provocar preocupação: a maior taxa de abstenção do Brasil. Segundo dados do TSE apresentados pelo Campo Grande News, 483.210 eleitores não compareceram às urnas, o equivalente a 23,87% dos aptos a votar. Quase uma em cada quatro pessoas deixou de participar da escolha de seus representantes.

RESUMO

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Mato Grosso do Sul registrou a maior taxa de abstenção do país na eleição de domingo: 483.210 eleitores, ou 23,87% dos aptos, não compareceram às urnas, segundo o TSE. O texto afirma que doenças, dificuldades de deslocamento e chuva podem explicar parte das ausências, mas defende que o voto é instrumento de mudança. Também cobra de partidos e candidatos propostas viáveis, transparência e prestação de contas.

É uma ausência que precisa ser compreendida, mas não pode ser tratada como um detalhe da apuração. Quando tanta gente fica fora de uma decisão coletiva, perdem o Estado, o país e, principalmente, o cidadão que abre mão de escolher quem considera mais preparado para governar e representá-lo.

Seria injusto atribuir todas as ausências ao desinteresse. Doença, dificuldades de deslocamento e outros impedimentos podem afastar o eleitor. A reportagem registra que a chuva preocupou a Justiça Eleitoral no domingo. Os números, por si só, não explicam o motivo de cada ausência. Cabe investigar essas razões, inclusive para identificar obstáculos que o poder público precisa remover.

Há, porém, uma reflexão indispensável sobre quem poderia votar e decidiu não participar. A decepção com a política é compreensível. Promessas descumpridas, escândalos e candidatos que só aparecem para pedir votos desgastam a confiança. Mas desistir da escolha não corrige esses problemas. Apenas deixa a decisão nas mãos de quem comparece.

O poder continua sendo distribuído. Os cargos são preenchidos. Os orçamentos serão administrados, as prioridades serão estabelecidas e as leis serão votadas. A ausência de um eleitor não deixa uma cadeira vazia à espera de sua opinião.

Quem não vota continua precisando de atendimento médico, segurança, educação e oportunidades de trabalho. Continua pagando impostos e vivendo sob decisões tomadas pelos governantes. Pode abrir mão de participar da escolha, mas não consegue abrir mão das consequências.

O voto não garante, sozinho, um bom governo. É, contudo, uma oportunidade concreta de comparar trajetórias, avaliar propostas, reconhecer competência e rejeitar quem trata o dinheiro público como patrimônio particular. Renunciar a essa oportunidade por acreditar que nada muda significa abandonar um dos instrumentos disponíveis para promover a mudança.

A responsabilidade também alcança partidos, candidatos e instituições. É preciso oferecer razões para que o eleitor participe: propostas possíveis, prestação de contas, transparência e respeito à inteligência da população. Recuperar a confiança exige mais do que campanhas pedindo comparecimento às urnas.

A maior abstenção do país deve ser encarada como um alerta, não como uma estatística a ser esquecida até a próxima eleição. Uma democracia precisa ouvir seus cidadãos e criar condições para que participem. E o cidadão precisa reconhecer o valor da decisão que tem nas mãos.

Deixar de votar não suspende o futuro. O futuro será decidido de qualquer maneira — e alcançará também quem preferiu deixar a escolha para os outros.