Eduardo Riedel ganhou nas urnas. Agora precisa enfrentar a conta
Reeleição dá força política para rever despesas, cortar privilégios e preparar os ajustes necessários

Reeleito no primeiro turno com mais de 67% dos votos válidos, Eduardo Riedel recebeu uma expressiva demonstração de confiança dos eleitores de Mato Grosso do Sul. Encerrada a disputa, essa força política precisa se transformar em capacidade de enfrentar decisões difíceis. A comemoração tem seu tempo. O planejamento do próximo mandato deve começar agora.
RESUMO
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O governo tem pela frente uma tarefa que exige disposição para contrariar interesses: revisar o custo da máquina pública, ajustar despesas e recuperar espaço no orçamento para atender à população. Folha de pagamento, benefícios adicionais, cargos comissionados, contratos e estruturas administrativas precisam passar por uma avaliação rigorosa. Cada gasto deve ser justificado pela necessidade, pelo resultado e pela capacidade de o Estado sustentá-lo.
Medidas dessa natureza costumam ser empurradas para depois. Perto da eleição, governantes evitam desagradar categorias organizadas, aliados e grupos com influência. O problema é que o adiamento também tem custo. A despesa continua crescendo, compromete receitas futuras e estreita as possibilidades de investimento. Quem paga essa conta é o cidadão, inclusive aquele que depende exclusivamente dos serviços públicos.
O início de um novo ciclo político oferece a oportunidade de enfrentar essas questões. Riedel já está no governo, conhece a estrutura que administra e pode usar os meses restantes do atual mandato para preparar diagnósticos, definir prioridades e organizar os projetos que precisarão passar pela Assembleia Legislativa. Não há razão para chegar ao próximo mandato ainda discutindo por onde começar.
A revisão da folha deve fazer parte desse trabalho. É preciso examinar gratificações, adicionais e os chamados penduricalhos, identificar distorções e propor mudanças com critérios claros e respeito aos direitos assegurados. Valorizar o servidor que trabalha e entrega resultados também exige impedir que vantagens sem justificativa consumam recursos que poderiam melhorar as condições de atendimento à população.
O ajuste precisa começar pelo próprio comando do governo. Secretarias, cargos de confiança, assessorias e despesas de gabinete devem entrar na mesma análise. Cobrar contenção de quem está na ponta enquanto se preservam acomodações políticas no alto da estrutura enfraquece qualquer proposta de reforma.
Também é necessário revisar contratos, compras e programas. Há despesas que se repetem por hábito, estruturas que perderam a função e iniciativas cuja continuidade nunca é confrontada com seus resultados. Cortar gastos exige saber onde há desperdício. Uma redução feita às cegas pode comprometer serviços e manter intactos os privilégios.
Na economia, o governo deve preparar uma agenda que combine equilíbrio das contas com condições para produzir, investir e gerar empregos. Isso inclui avaliar os resultados dos incentivos concedidos, reduzir entraves administrativos e estabelecer prioridades para os investimentos públicos. Benefícios fiscais precisam ser acompanhados de contrapartidas verificáveis. O Estado deve conseguir demonstrar o que a população recebe em troca da receita de que abre mão.
A Assembleia Legislativa terá responsabilidade nesse processo. Projetos relevantes precisam chegar acompanhados de números, estimativas de economia e explicações sobre seus efeitos. Cabe aos deputados discutir, fiscalizar e aperfeiçoar as propostas. A pressa necessária para enfrentar problemas não dispensa transparência nem debate.
Medidas duras precisam ter propósito. Preservar saúde, educação, segurança e infraestrutura deve orientar o ajuste. A população precisa compreender quanto será economizado, quais despesas serão revistas e como essa economia poderá melhorar os serviços. Sem essa explicação, o governo apenas pede sacrifícios e deixa dúvidas sobre quem será beneficiado.
A votação expressiva aumenta a responsabilidade de Riedel. Ele recebeu força política para governar e terá de decidir como usá-la. O momento de enfrentar excessos, rever privilégios e preparar mudanças é agora, enquanto a eleição terminou e a próxima ainda está distante. Quando o calendário eleitoral voltar a pesar, as justificativas para adiar também voltarão. Mato Grosso do Sul não deve esperar mais quatro anos por decisões que já podem começar a ser tomadas.

