Eleições 2026: a promessa cabe no palanque. E no orçamento?
Atribuições dos cargos somem nos discursos de campanha e dificultam a cobrança depois da eleição

A campanha eleitoral está cheia de verbos no futuro: construir, ampliar, reformar, resolver. O que falta, muitas vezes, é completar a frase. Construir com qual dinheiro? Reformar por meio de qual lei? Resolver com uma decisão própria ou com o voto de outros eleitos? Sem essas respostas, uma proposta pode soar convincente no palanque e desaparecer no primeiro encontro com a realidade.
RESUMO
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Um candidato à Presidência pode defender mudanças tributárias ou administrativas. Pode apresentar projetos e negociar apoio. Mas não pode prometer uma reforma como se bastasse assinar um documento depois da posse. Mudanças que exigem lei passam pelo Congresso; quando exigem alteração da Constituição, precisam ser aprovadas pela Câmara e pelo Senado, em dois turnos, com o voto de três quintos dos integrantes de cada Casa. www2.camara.leg.br
A honestidade, nesse caso, está em dizer o que se pretende mudar, quem será afetado e como se buscará apoio para aprovar a proposta. O presidente governa, mas não legisla sozinho. O eleitor também escolherá deputados e senadores que poderão apoiar, alterar ou barrar aquilo que ouviu na campanha presidencial.
Na disputa pelo governo de Mato Grosso do Sul, a promessa costuma vir em números vistosos: milhares de casas, quilômetros de asfalto, novos hospitais. São compromissos que merecem perguntas igualmente objetivas. Qual é o custo estimado? O recurso já existe ou depende de financiamento? A obra começa quando? Depois de pronta, quem pagará pela manutenção e pelos profissionais necessários para fazê-la funcionar?
Uma estrada anunciada sem fonte de recursos pode continuar no cartaz. Um hospital prometido sem previsão de equipe e custeio pode virar um prédio à espera de atendimento. Planejamento não tira a força de uma proposta. Dá ao eleitor condições de saber se ela tem chance de sair do papel.
A confusão fica ainda maior nas campanhas para deputado. Há candidatos ao Legislativo que se apresentam como futuros executores de obras e serviços. Deputados federais e estaduais podem propor e votar leis, participar das decisões sobre o orçamento, apresentar emendas e fiscalizar o governo. Também podem cobrar providências e buscar recursos para uma região. Isso lhes dá influência, mas não o poder de construir pessoalmente uma escola, comandar uma secretaria ou garantir, por conta própria, que uma obra será entregue. Tribunal Superior Eleitoral
Um candidato a deputado estadual que queira melhorar a saúde pública, por exemplo, tem muito a explicar sem tomar emprestadas as atribuições do governador. Pode dizer quais problemas pretende investigar, que mudanças defenderá no orçamento, como acompanhará a aplicação dos recursos e que medidas cobrará do Executivo. É uma atuação relevante. Merece ser apresentada com clareza, em vez de ser escondida atrás da promessa de “entregar” aquilo que outro poder terá de executar.
O eleitor não precisa aceitar um curso de administração pública a cada comício. Mas tem o direito de exigir três respostas de quem pede seu voto: o que você pode fazer nesse cargo, de onde virá o dinheiro e de quem mais depende a proposta? Quando o candidato evita essas perguntas, transfere ao eleitor o custo da confusão. E, depois da eleição, encontra sempre uma explicação para a promessa não cumprida.
A cobrança vale para todos os cargos. Presidente e governador devem mostrar como pretendem financiar e executar seus planos. Deputados e senadores devem explicar como vão legislar, votar e fiscalizar. No dia 4 de outubro, a escolha será mais consciente se cada candidato trocar a promessa sem limites por um compromisso que o eleitor possa entender, acompanhar e cobrar.

