Mato Grosso do Sul faz 49 anos; as desigualdades não podem envelhecer junto
Forte no agro e rico em natureza, MS precisa superar problemas sociais que atravessam gerações

RESUMO
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Mato Grosso do Sul completa 49 anos com economia forte, mas desafios sociais persistentes. Em 2025, as exportações somaram US$ 10,7 bilhões, recorde histórico, puxadas por celulose, soja e carne bovina. O texto defende agregar valor à produção, explorar minérios com responsabilidade, proteger o Pantanal e Bonito e superar gargalos logísticos, como a Malha Oeste. Apesar de 40 mil pessoas terem saído da pobreza entre 2023 e 2024, 17,5% da população segue abaixo da linha de pobreza. Cobra-se prioridade em educação, saúde e emprego.Com força no agronegócio, na indústria e na mineração, além de um patrimônio ambiental extraordinário, Estado tem condições de enfrentar as desigualdades que ainda limitam seu desenvolvimento
Mato Grosso do Sul chega aos 49 anos, neste domingo, 11 de outubro, com motivos para celebrar e responsabilidades que não podem ficar escondidas atrás das homenagens. O Estado produz alimentos, exporta celulose, guarda riquezas minerais e abriga paisagens que atraem visitantes de diferentes partes do mundo. Mas o aniversário também exige uma pergunta: quanto dessa riqueza se transforma em vida melhor para quem mora aqui?
Criado em 11 de outubro de 1977, pela Lei Complementar nº 31, e instalado em janeiro de 1979, Mato Grosso do Sul construiu, em menos de meio século, uma trajetória econômica expressiva. Sua história, porém, começa muito antes da divisão territorial. Foi formada pelos povos indígenas, pelas comunidades tradicionais e por gerações de trabalhadores que fizeram deste chão seu lugar de vida.
Há muito a saudar nessa construção. A força do campo, a capacidade de empreender, a diversidade cultural e o trabalho de quem planta, cria, ensina, cuida, pesquisa e movimenta o comércio sustentam o Estado todos os dias. O desenvolvimento tem muitas mãos, inclusive aquelas que raramente aparecem nas solenidades.
A dimensão econômica alcançada pode ser medida pelas vendas ao exterior. Em 2025, Mato Grosso do Sul registrou US$ 10,7 bilhões em exportações, o maior valor de sua história, segundo a Semadesc, com base nos dados do ComexStat. Celulose, soja e carne bovina ajudam a projetar a produção sul-mato-grossense no mercado internacional.
O agronegócio oferece uma base sólida para avançar. O desafio é ampliar o processamento da produção dentro do próprio território, fortalecer fornecedores locais e abrir espaço para pequenos produtores. Agregar valor significa criar condições para que uma parcela maior da renda permaneça nos municípios, sustente negócios e gere empregos com melhores salários.
Na mineração, as reservas de ferro e manganês ampliam as possibilidades econômicas. Esse patrimônio exige exploração responsável, fiscalização e planejamento. Uma riqueza que se esgota precisa deixar benefícios duradouros: trabalhadores qualificados, infraestrutura, recuperação ambiental e oportunidades para além da atividade extrativa.
Existe ainda um patrimônio que não pode ser tratado como paisagem de aniversário. Pantanal, Bonito e Serra da Bodoquena dão ao Estado uma posição privilegiada no turismo de natureza. Preservar rios, nascentes, vegetação e biodiversidade é proteger uma fonte de trabalho e renda e a qualidade de vida das próximas gerações.
Essa proteção precisa entrar nas decisões econômicas desde o início. Prevenir incêndios, recuperar áreas degradadas e cuidar das bacias hidrográficas requer continuidade, conhecimento técnico e recursos. A conta da degradação chega à produção rural, ao turismo, ao abastecimento e à saúde.
Para aproveitar melhor seus potenciais, Mato Grosso do Sul precisa enfrentar um obstáculo antigo: a logística. Produzir com eficiência perde parte do sentido quando o transporte encarece a mercadoria e reduz sua competitividade. Rodovias seguras, ferrovias operacionais e hidrovias bem planejadas devem integrar uma mesma estratégia.
A Malha Oeste sintetiza essa dívida. A própria Agência Nacional de Transportes Terrestres reconhece que anos de investimentos insuficientes depreciaram a infraestrutura e comprometeram sua capacidade de transporte. Recuperar a ferrovia exige decisões e execução, com resultados que possam ser acompanhados pela sociedade.
A Rota Bioceânica, por sua vez, abre uma perspectiva de integração com Paraguai, Argentina e os portos do norte chileno. Para aproveitar essa conexão, os municípios precisam se preparar com serviços, qualificação profissional e apoio aos negócios locais. O corredor deve gerar oportunidades ao longo do caminho.
Mas a medida mais importante do desenvolvimento continua sendo a condição de vida da população.
Os indicadores sociais mostram avanços e revelam o tamanho da tarefa. Segundo dados da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE divulgados pela Semadesc, 40 mil pessoas saíram da pobreza entre 2023 e 2024. Ainda assim, em 2024, 17,5% da população estava abaixo da linha de pobreza adotada pelo estudo, e 1,6% vivia em extrema pobreza.
São resultados que merecem reconhecimento, mas não autorizam acomodação. Por trás dos percentuais existem famílias com necessidades concretas. Em um Estado com tamanha capacidade produtiva, a persistência da miséria exige prioridade política, orçamento e metas públicas.
A assistência social precisa proteger quem passa necessidade agora. Ao mesmo tempo, o combate à pobreza deve reunir emprego, moradia, saneamento, creche, transporte e formação profissional. A oferta de uma vaga pouco resolve para quem não tem como chegar ao trabalho ou onde deixar os filhos.
Na educação, o compromisso deve ser com a aprendizagem. Garantir que uma criança leia, escreva e compreenda o que estuda é tão decisivo para o futuro quanto atrair uma indústria. Valorizar professores, enfrentar a evasão e ampliar o acesso à formação técnica são investimentos cujos resultados atravessam gerações.
Na saúde, a cobrança precisa se traduzir em atendimento: prevenção, diagnóstico, tratamento e acesso a especialistas. A qualidade do serviço deve ser medida pela resposta dada ao paciente, inclusive àquele que vive longe dos grandes centros.
Ser um Estado jovem não pode servir de justificativa permanente para problemas antigos. Quase meio século oferece tempo suficiente para cobrar que privações básicas deixem de atravessar gerações. A riqueza disponível torna essa cobrança ainda mais necessária.
Saudar Mato Grosso do Sul é reconhecer o que seu povo construiu e exigir que essa construção alcance mais pessoas. O melhor presente pelos 49 anos será um compromisso verificável com menos pobreza, mais oportunidades e serviços públicos melhores.
O Estado tem potencial para crescer muito mais. Sua maior conquista será fazer com que ninguém precise assistir a esse crescimento do lado de fora.

