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Editorial

Quem paga impostos e sustenta o Estado precisa exigir resultados de quem governa

Reclamar nas redes e votar a cada eleição não basta: é preciso organizar as comunidades e cobrar resultados

Por José Cândido | 14/10/2026 05:02
Quem paga impostos e sustenta o Estado precisa exigir resultados de quem governa
Manifestação popular: a indignação ganha força quando ocupa as ruas de forma pacífica e se transforma em cobrança por mudanças. (Foto Campo Grande News)

Há uma indignação que termina quando a tela do celular se apaga. Escreve-se contra a corrupção, compartilha-se a imagem de alguém passando fome, reclama-se dos impostos, dos hospitais, da violência. Depois, a vida segue. Os responsáveis permanecem confortáveis em seus cargos, e os problemas continuam castigando quem tem menos condições de se defender.

RESUMO

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Editorial defende que a indignação dos brasileiros com corrupção, fome e serviços públicos precisa se converter em participação contínua. Segundo o texto, votar não basta: o eleitor deve cobrar prestação de contas, metas e prazos de quem recebe um mandato, por meio de manifestações pacíficas, audiências públicas e entidades organizadas, que também devem ser transparentes. As redes sociais ajudam, mas não substituem a fiscalização. Os impostos devem retornar em serviços, com atenção às desigualdades.

O Brasil precisa transformar essa indignação em participação. Reclamar é legítimo. Cobrar, organizar-se e acompanhar as decisões públicas é o que pode dar consequência à reclamação.

Não basta condenar a corrupção e, na eleição seguinte, devolver poder a quem fez do cargo um negócio particular. Não basta deixar de votar e esperar que os outros escolham representantes comprometidos com o interesse coletivo. Também não basta comparecer à urna e entregar um cheque em branco para os anos seguintes. A responsabilidade do eleitor continua depois da apuração.

Quem recebe um mandato assume uma obrigação com a sociedade. O cargo não é propriedade pessoal, prêmio de campanha ou licença para enriquecer. O representante deve prestar contas, explicar suas decisões e trabalhar pelo interesse público. Não está acima de quem o elegeu.

Essa cobrança precisa ganhar corpo. Nas ruas, nas praças, nas audiências públicas, nas câmaras municipais e nas assembleias. Uma manifestação pacífica, com reivindicações claras e acompanhamento dos resultados, faz a insatisfação aparecer onde ela precisa ser ouvida. A democracia exige cidadãos presentes.

É preciso cobrar respostas sobre o dinheiro gasto, o serviço que não funciona e a promessa abandonada. Exigir metas, prazos e explicações. Pressionar pela aprovação de leis que enfrentem privilégios e melhorem a vida da população. Pedir a renúncia de quem perdeu as condições de exercer o cargo. Cobrar julgamentos em tempo razoável, com transparência e respeito ao direito de defesa. A pressão popular deve exigir que a Justiça funcione, preservando sua independência para decidir.

Essa participação não pode depender apenas de explosões ocasionais de revolta. Precisa de continuidade. Comunidades organizadas conseguem reunir demandas, documentar problemas, apresentar propostas e acompanhar compromissos. Associações de moradores, sindicatos e outras entidades representativas podem transformar queixas individuais em força coletiva.

Mas também precisam prestar contas. Uma entidade criada para defender a comunidade não pode virar meio de vida de dirigentes que se perpetuam no comando. Alternância de direção, eleições transparentes, participação dos associados e fiscalização das contas são necessárias para impedir que a representação se transforme em benefício particular. Quem cobra democracia do poder público deve praticá-la dentro da própria organização.

As redes sociais podem ajudar a mobilizar, divulgar denúncias e reunir pessoas. O problema começa quando a publicação substitui toda forma de participação. Uma frase de revolta não acompanha uma licitação. Um compartilhamento não fiscaliza uma obra. A exposição de um problema precisa abrir caminho para a cobrança de uma solução.

Há uma tarefa nacional que deve orientar essa mobilização: produzir riqueza e fazer com que ela melhore a vida de toda a população. O desenvolvimento perde seu sentido quando convive com famílias sem comida, trabalhadores sem moradia digna e crianças privadas de oportunidades.

Os impostos pagos pela sociedade precisam retornar em serviços, infraestrutura e proteção para quem necessita. Cada verba exige uma pergunta: quem será beneficiado? O orçamento deve atender às necessidades coletivas, com atenção às desigualdades, em vez de servir à manutenção de privilégios. Saúde, educação, segurança, saneamento e moradia precisam aparecer nas decisões e nos resultados.

Seria injusto atribuir ao povo toda a responsabilidade pelos problemas do País. Quem governa tem poder, recursos e deveres que não podem ser transferidos aos governados. Mas a ausência de cobrança facilita o abuso. Quando a sociedade se afasta, abre espaço para que interesses particulares ocupem o lugar do interesse público.

O Brasil precisa de uma população que se indigne também com a fome do vizinho, com a escola abandonada e com o dinheiro desperdiçado. Que cobre o político em quem votou com o mesmo rigor dedicado ao adversário. Que recuse a ideia de que um benefício pessoal compensa o prejuízo imposto à coletividade.

Descruzar os braços é transformar revolta em compromisso. É ocupar os espaços de participação, organizar a comunidade e persistir na cobrança. O poder público deve sentir, todos os dias, a presença de uma sociedade que sabe o que exige e acompanha o que recebe.