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Editorial

Rede social: o eleitor conhece o padrinho. Mas quem vai exercer o mandato?

Estrelas políticas transferem prestígio a candidatos cuja trajetória e compromissos permanecem pouco conhecido

Por José Cândido | 10/10/2026 07:02
Rede social: o eleitor conhece o padrinho. Mas quem vai exercer o mandato?
A imagem construída nas redes precisa ser confrontada com a conduta, o preparo e o trabalho de quem recebe voto. (Foto Osmar Viega)

Encerrada a votação, o Brasil precisa olhar além dos vencedores e dos derrotados. Há uma questão que atravessa fronteiras estaduais e merece atenção: o que acontece com a representação política quando a fama na internet ocupa o lugar das propostas, da experiência e do compromisso com a população?

RESUMO

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O texto avalia como a fama nas redes sociais tem sido convertida em poder político, com candidatos escolhidos mais pela popularidade e pela recomendação de influenciadores do que por propostas, experiência e trajetória. Reconhece que a insatisfação do eleitorado tem raízes reais, mas alerta que indignação não equivale a capacidade de governar. Aponta o risco de mandatos guiados pela busca de audiência e atribui responsabilidade a partidos, à imprensa e aos padrinhos políticos. Defende que a cobrança continue após a eleição, com atenção a votos, despesas fiscalizadas e promessas cumpridas.

As redes sociais se tornaram um caminho para chegar ao poder. Ampliaram o debate, abriram espaço para novas lideranças e permitiram que pessoas sem acesso às estruturas tradicionais fossem ouvidas. Mas também oferecem condições para transformar personagens em autoridades públicas antes que sua capacidade de exercer um mandato seja devidamente examinada.

A pessoa aparece, provoca, ofende, promete uma solução simples para um problema difícil. O vídeo circula. O nome se espalha. A audiência cresce. Aos poucos, a popularidade passa a ser apresentada como prova de preparo.

Só que são coisas diferentes.

Saber conquistar seguidores é uma habilidade de comunicação. Representar a população exige responsabilidade, conhecimento, disposição para trabalhar e capacidade de responder pelas próprias decisões. Uma competência não assegura a outra.

O problema se agrava quando o conteúdo que produz fama é justamente aquele que empobrece a discussão pública. A agressividade ganha aparência de coragem. A fala categórica passa por conhecimento. A promessa impossível é recebida como determinação. Quem reconhece limites pode parecer fraco diante de quem anuncia que resolverá tudo.

Nesse ambiente, a explicação perde espaço para a frase de efeito. Pouco se pergunta quanto uma proposta custa, de onde virão os recursos, quais obstáculos existem ou se o cargo disputado permite executar o que está sendo prometido.

O candidato oferece uma sensação: a de que alguém finalmente vai colocar ordem nas coisas. E essa sensação pode dispensar o exame do que ele realmente pretende fazer.

A política sempre teve personagens carismáticos, discursos inflamados e promessas vazias. As redes deram a essas práticas velocidade, alcance e uma presença cotidiana na vida do eleitor. A personalidade política acompanha o cidadão no celular, aparece entre conversas de família e vídeos de entretenimento, fala diretamente à câmera e cria uma impressão de intimidade.

O seguidor sente que conhece aquela pessoa. Mas conhece, principalmente, aquilo que ela escolhe mostrar.

Um vídeo permite selecionar a melhor fala, eliminar a pergunta incômoda e cortar a contradição. O exercício do poder expõe o que a edição consegue esconder: limites, interesses, despreparo e dificuldade de transformar discurso em resultado.

A força dessa fama também pode ser transferida. A estrela política apresenta um aliado, pede votos e empresta seu prestígio a alguém cuja trajetória o público desconhece. O candidato pode não ter visitado uma cidade, não ter participado de suas discussões e não ter demonstrado conhecimento de seus problemas. Ainda assim, encontra eleitores dispostos a apoiá-lo porque veio acompanhado de uma recomendação famosa.

Deputados representam todo o Estado e não precisam ter uma relação pessoal com cada eleitor. A ausência física, portanto, não é o ponto central. O que precisa ser questionado é uma escolha sustentada apenas pela confiança em quem fez a indicação.

O eleitor conhece o padrinho, mas o mandato será exercido pelo indicado.

Quem é essa pessoa? O que já fez? Quais interesses representa? Como se comporta diante de uma cobrança? Que propostas apresenta? São perguntas que uma recomendação não responde.

Quando deixam de ser feitas, a política se aproxima da lógica da publicidade: alguém conhecido apresenta um nome e sua credibilidade funciona como garantia. Mas um cargo público envolve decisões sobre dinheiro, direitos e serviços essenciais. A confiança emprestada não substitui a avaliação de quem receberá essa autoridade.

É assim que a fama pode abrir caminho para políticos com pouca trajetória pública, compromissos vagos e uma relação com a sociedade sustentada mais pela exposição do que pelo trabalho.

Não cabe tratar o eleitor como incapaz de compreender a política. A insatisfação que alimenta essas escolhas tem raízes reais. Há quem espere meses por atendimento médico, tema sair de casa, trabalhe muito e não consiga pagar as contas. Há quem veja políticos acumularem privilégios enquanto os serviços pioram.

Diante desse desgaste, uma figura que fala com indignação pode parecer uma alternativa. A revolta aproxima. A promessa de ruptura seduz.

Mas expressar o sofrimento de uma população não significa saber enfrentá-lo. Apontar culpados exige menos do que construir soluções. Humilhar um adversário não reduz uma fila de saúde. Produzir um vídeo sobre violência não equivale a formular uma política de segurança.

A pergunta precisa ser sobre a capacidade de agir depois que a indignação rende votos.

Há ainda um risco para o próprio mandato: ele passar a ser conduzido pelas necessidades da audiência. Uma briga oferece material para vários vídeos. Uma provocação mantém o nome em circulação. Um ataque mobiliza seguidores. Já estudar um projeto, fiscalizar uma despesa ou acompanhar a execução de uma política pública exige tempo e pode render pouca repercussão.

Quando a visibilidade vira prioridade permanente, a população corre o risco de eleger alguém que continuará fazendo campanha durante todo o mandato.

O plenário vira cenário. O adversário vira conteúdo. O eleitor vira plateia.

Essa distorção pode atingir qualquer campo político. Nenhuma corrente tem exclusividade sobre a exploração do medo, da raiva, do preconceito ou da esperança. A cobrança precisa alcançar todos que transformam popularidade em poder.

Os partidos também têm responsabilidade. Quando escolhem candidaturas principalmente pelo potencial de atrair votos, precisam responder pela qualidade da representação que ajudam a construir. A capacidade de ampliar uma bancada não deveria dispensar o exame da capacidade de seus integrantes.

O jornalismo, por sua vez, precisa evitar que a cobertura seja comandada pelas provocações dos próprios personagens. Reproduzir cada ofensa pode ampliar a estratégia de quem depende dela para permanecer em evidência. É necessário confrontar discursos com fatos, examinar trajetórias e cobrar explicações sobre propostas e decisões.

Ser famoso não torna ninguém despreparado. Mas a fama tampouco serve como certificado de competência ou honestidade. Quem vem das redes deve passar pelo mesmo exame exigido de qualquer pessoa que pede autoridade para representar a sociedade.

Agora, a cobrança deve acompanhar o exercício dos mandatos. Como esses representantes votam? Quais despesas fiscalizam? A quem atendem? Comparecem ao trabalho? Explicam suas decisões? Mantêm as promessas quando elas contrariam os interesses de seus aliados?

As mesmas perguntas precisam chegar às estrelas que pediram votos para seus indicados. A responsabilidade política pela recomendação não termina com o encerramento da apuração.

O que as redes estão parindo na política é uma questão nacional porque suas consequências chegam à vida de quem sequer acompanha esses personagens. Uma escolha feita pela força de um vídeo pode influenciar leis, despesas e serviços para toda a população.

Milhões de seguidores demonstram alcance. Milhares de votos entregam poder. O compromisso com o país precisa ser comprovado no trabalho.

A fama pode conquistar a cadeira. Não pode substituir a responsabilidade de ocupá-la.