ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
OUTUBRO, QUARTA  14    CAMPO GRANDE 21º

Arquitetura

Bar da cerveja a R$ 4,50 morreu, mas placa na esquina mantém memória

Com árvores plantadas para aliviar o calor, souvenirs e shows na calçada, antigo bar guarda histórias

Por Amanda Ferreira | 14/10/2026 06:24
Bar da cerveja a R$ 4,50 morreu, mas placa na esquina mantém memória
Velfarre começou como conveniência em 2012 e se tornou um dos pontos de encontro da Capital (Foto: Paulo Francis)

Quem passa pela região central de Campo Grande ainda encontra uma lembrança de um dos bares que movimentaram a vida noturna da cidade. Mesmo depois de fechar as portas, o Velferre deixou para trás uma placa de sinalização turística, árvores que ajudavam a refrescar o ambiente e histórias de quem passou anos frequentando o lugar.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

O Valferre, bar que marcou a vida noturna de Campo Grande, deixou como lembranças uma placa turística e histórias de frequentadores. Aberto em 2012 como conveniência pelo empresário Heriko Hata, ganhou fama pela cerveja barata, pela feijoada com música ao vivo e, a partir de 2018, pela valorização da cultura local, com souvenirs e roteiro turístico. Após a pandemia, o movimento caiu e o bar foi vendido, depois de cerca de 11 anos. O imóvel passa por reforma para receber o Carlinhos Lanches.

O estabelecimento, que começou como uma conveniência em 2012, ganhou fama pela cerveja barata, virou ponto de encontro depois do expediente e terminou sua trajetória apostando na valorização da cultura campo-grandense.

A história começou quando o empresário Heriko Hata decidiu abrir um negócio com o irmão, que havia retornado do Japão em 2011, após o tsunami que atingiu o país. Inicialmente, os dois investiram em uma empresa de consultoria de informática, mas acabaram mudando os planos.

O bar nasceu em 2012, depois de reformas e investimentos que consumiram boa parte das economias da família. "Passamos dois, três anos muito difíceis, porque foram todos os nossos investimentos. Tive que vender coisas para colocar mais dinheiro", relembra Heriko, hoje com 39 anos.

Bar da cerveja a R$ 4,50 morreu, mas placa na esquina mantém memória
Tour criado por Heriko percorria pontos turísticos de Campo Grande e terminava no Valferre, com degustação de comidas e bebidas típicas (Foto: Arquivo Pessoal)

A grande virada aconteceu entre 2015 e 2016, quando o bar fechou um acordo de exclusividade com a Ambev e passou a oferecer cerveja por preços que chamavam atenção até para os padrões da época. Segundo Heriko, uma unidade custava cerca de R$ 4,50, valor que ele recorda como aproximado.

"Na época, a gente tinha o preço mais barato da cerveja. Era preço de conveniência de bairro", conta. A estratégia atraiu clientes e ajudou a consolidar o estabelecimento, que também ficou conhecido pelas transmissões de UFC e partidas de futebol em telões.

Entre os frequentadores estava a jornalista Danielle Mugarte, de 28 anos, que transformou o bar em ponto de encontro com os amigos. A localização central, os petiscos e a cerveja gelada ajudaram a criar o hábito de passar por lá depois do trabalho. "Sempre que eu passava na frente tinha um movimento bom. Um dia escolhi ficar lá, chamei minhas amigas e meus amigos e acabou virando um ponto para a gente. A comida era boa, a bebida era gelada e o preço era ok para a região", relembra.

Uma das histórias que Danielle guarda aconteceu justamente depois de uma semana puxada de trabalho. Ela e os colegas aguardavam o pagamento para finalmente aproveitar uma noite juntos. Quando o dinheiro caiu na conta, o destino foi o Velfarre.

"A gente estava ansioso para receber o pagamento e dar uma espairecida após uma semana cheia. Quando caiu, reunimos todo mundo e fomos em massa para lá. Foi um dia bem divertido, bem marcante. A gente quase fechou o bar naquele dia", conta, aos risos.

Mas o bar não vivia apenas de cerveja e encontros entre amigos. Aos sábados, a feijoada acompanhada de música ao vivo atraía um público que chegava no almoço e, muitas vezes, só ia embora no fim da tarde. O músico Calilão, que se apresentava com frequência no estabelecimento, lembra-se das calçadas movimentadas e da interação com os clientes.

"Era maravilhoso. O pessoal era muito alegre, dançava ali na calçada, brincava com a gente. A feijoada também era maravilhosa, todo mundo já sabia. Às vezes a gente começava no almoço e ia parar no finalzinho da tarde, de tão bom que era", recorda.

Foi também no bar que Calilão viveu uma das histórias mais emocionantes da carreira. Durante uma apresentação, seu equipamento de som apresentou problemas, e ele precisou utilizar uma caixa nova que ainda estava pagando parcelada. Dois frequentadores perceberam a dificuldade e decidiram ajudá-lo.

Bar da cerveja a R$ 4,50 morreu, mas placa na esquina mantém memória
Ambiente do bar foi cenário de encontros, comemorações e histórias ao longo de mais de uma década (Foto: Arquivo Pessoal)

Poucos dias depois, os clientes pagaram outra caixa de som, avaliada em quase R$ 3 mil, segundo o músico. "Na terça-feira, mandaram eu ir buscar. Fizeram o Pix para a loja. Até hoje trabalho com essa caixa. Quando soube, chorei, fiquei emocionado. Tenho muita gratidão por essas pessoas", conta.

As árvores - Outra marca do Velfarre estava do lado de fora. Quem frequentava o bar provavelmente se lembra das árvores que davam sombra à fachada, mas pouca gente conhecia a história por trás delas.

Heriko explica que o sol forte da tarde impedia o funcionamento do estabelecimento nesse horário. A solução surgiu de um projeto interno chamado Zero Papel, que incentivava os funcionários a reduzir o consumo de papel.

A economia, que chegou a aproximadamente R$ 2 mil mensais, permitiu investir em melhorias, incluindo o plantio de 13 árvores. "Comprei essas árvores e plantei ali na frente para gerar mais economia no local. Consegui abrir no período da tarde e isso aumentou meu faturamento em 25%", afirma.

Bar da cerveja a R$ 4,50 morreu, mas placa na esquina mantém memória
Árvores plantadas na fachada ajudavam a amenizar o calor e permitiram ampliar o horário de funcionamento (Foto: Paulo Francis)

Com o passar dos anos, o bar ganhou uma proposta diferente. Formado em turismo e com experiência como guia de visitantes japoneses, Heriko percebeu que Campo Grande tinha poucos espaços noturnos dedicados à própria identidade cultural.

Em 2018, começou a transformar o bar em uma espécie de vitrine da cidade. Fez parceria com artesãs da Praça dos Imigrantes e passou a vender souvenirs inspirados em pontos conhecidos da Capital, como o Relógio da Rua 14 de Julho, o Obelisco e a Praça das Araras.

"Eu tinha vergonha de levar os turistas, não do lugar, mas de não ter nada que falasse sobre Campo Grande. Eles queriam conhecer a cultura local, comer uma comida típica, levar uma lembrança, e eu não tinha onde levar", explica.

A nova fase trouxe também espaços para fotografias, como o letreiro "Eu Amo CG", uma capivara segurando cerveja, apelidada de Capiveira, e asas de arara instaladas em uma parede. Quem tirava uma selfie no letreiro podia ganhar uma caipirinha.

O bar também passou a integrar um roteiro turístico criado por Heriko, que começava no Mercadão, percorria pontos da cidade e terminava com degustação de comidas e bebidas típicas no Velfarre.

Bar da cerveja a R$ 4,50 morreu, mas placa na esquina mantém memória
Com decoração inspirada em Campo Grande, Valferre também se tornou ponto de parada para turistas (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 2019, o estabelecimento conquistou o primeiro lugar em uma categoria de bares e restaurantes de uma premiação estadual de turismo, conforme relato do empresário. "O que mais me destacou foi o souvenir. A ideia era realmente levantar a bandeira de Campo Grande e criar coisas que não existiam", afirma.

Apesar do crescimento e do reconhecimento, a pandemia mudou os planos. Heriko conta que o movimento despencou, enquanto os custos continuaram altos. O dinheiro que seria utilizado para abrir uma segunda unidade, em Goiânia, acabou sendo direcionado à manutenção do negócio.

Mesmo depois da retomada das atividades, o público não voltou na mesma proporção. O empresário decidiu vender o estabelecimento, que funcionou por aproximadamente 11 anos, até 2023 ou 2024, data que ele não soube precisar. Atualmente, o imóvel passa por mudanças para receber outra empresa.

"A gente esperava que, depois da pandemia, tudo voltasse ao normal, mas não voltou. Foi difícil segurar as contas. O movimento foi diminuindo, diminuindo, e acabou", lamenta.

Bar da cerveja a R$ 4,50 morreu, mas placa na esquina mantém memória
Cerveja barata, petiscos e encontros entre amigos marcaram os anos de funcionamento do bar (Foto: Arquivo Pessoal)

Para quem viveu aquela época, ficaram as lembranças das tardes de feijoada, dos shows, das cervejas depois do expediente e das fotografias ao lado da capivara. Danielle acredita que o Velfarre acompanhou um comportamento comum da vida noturna campo-grandense, em que estabelecimentos fazem sucesso por alguns anos e depois perdem espaço para novidades.

Já Calilão lembra especialmente das amizades construídas entre uma apresentação e outra. "Era um lugar que atendia todo tipo de público. Tinha sertanejo, pagode, samba, pop rock e MPB. Todo mundo queria tirar foto, tinha uma raiz daqui, características do povo de Mato Grosso do Sul", resume o músico.

Para Heriko, a placa turística que continua no local é uma das lembranças de uma época em que tentou fazer do bar mais do que um lugar para beber: um espaço para valorizar Campo Grande.

Atualmente, o imóvel passa por uma reforma para dar lugar a um novo empreendimento do ramo alimentício já bem famoso na cidade, o Carlinhos Lanches.


Acompanhe o Lado B no Instagram @ladobcgoficial, Facebook e X. Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp (67) 99669-9563 (chame aqui).

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News.