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Artes

Aranha gigante marcou infância de Mar e o prendeu na teia da arte

Escultura vista nos primeiros anos passou a aparecer nos sonhos e inspirou desenhos e livros do artista

Por Amanda Ferreira | 10/10/2026 07:44
Aranha gigante marcou infância de Mar e o prendeu na teia da arte
Obra de Louise Bourgeois marcou a infância de Mar Cozta e passou a aparecer em seus sonhos (Foto: Arquivo Pessoal)

Uma aranha gigante, protegida por um vidro, foi suficiente para despertar em Mar Cozta uma curiosidade que atravessaria sua infância e influenciaria sua relação com a arte. Durante uma visita ao Parque Ibirapuera, em São Paulo (SP), ele se deparou com uma escultura da artista Louise Bourgeois.

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O artista independente Mar Cozta transforma sonhos e lembranças em obras. Tudo começou na infância, quando viu uma aranha gigante de Louise Bourgeois no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Hoje, usa cadernos de desenho como arquivo da própria vida. Em Campo Grande, produziu a série de fanzines Fragmentos de Sonhos e o livro artesanal Mergulhado em Sonho, apresentado como trabalho de conclusão de curso em Artes Visuais e exposto na GAV.

Sem entender exatamente o que estava vendo, ficou impressionado com o tamanho da obra e começou a se perguntar se aquela criatura já havia sido viva. A imagem permaneceu em sua memória por anos e passou até a aparecer em seus sonhos.

Na época, Mar estava acompanhado da mãe, que também não sabia explicar muito sobre a escultura. O encontro despertou uma mistura de espanto e indignação.

“Foi muito impactante e me deixou também um pouco indignada, me perguntava incessantemente daonde veio aquilo, se estava morto ou se já foi vivo”, relembra. Durante muito tempo, sempre que via uma aranha, a lembrança daquela obra voltava à sua cabeça.

Somente anos depois, Mar decidiu pesquisar o que havia visto naquele dia e descobriu mais sobre Louise Bourgeois. O interesse pela escultura acabou se transformando em uma aproximação com o universo artístico.

“Meio que a Arte mesmo foi essa aranha e que me pegou nessa teia e tô até agora deixando ela me devorar”, brinca. A experiência também ajuda a explicar por que sonhos, lembranças e imagens que permanecem na cabeça se tornaram elementos tão importantes em suas produções.

Aranha gigante marcou infância de Mar e o prendeu na teia da arte
Cadernos de Mar Cozta reúnem desenhos, relatos de sonhos e lembranças que inspiram suas produções artísticas (Foto: Mar Cozta)

Mar é artista independente e usa os próprios cadernos de desenho como espaços de experimentação. Entre rabiscos, relatos de sonhos e lembranças, construiu uma espécie de arquivo da própria vida.

Para ele, esses registros não servem apenas como preparação para obras futuras, mas também podem ser considerados trabalhos completos, mesmo quando apresentam desenhos inacabados. “Acredito que a minha relação com meus cadernos de desenho são como um ciclo sem fim, um ciclo que nutre e gera a vida em meu trabalho”, descreve.

A relação com os cadernos ganhou ainda mais importância quando ele se mudou para Campo Grande. Sozinho em uma cidade que nunca havia visitado, precisou enfrentar as dificuldades de começar uma vida em um lugar desconhecido.

Na bagagem, carregava 2 companhias que considerava essenciais: os cadernos de desenho e os sonhos. “Quando cheguei nessa etapa de conclusão de curso nas Artes Visuais eu fiquei muito tempo refletindo sobre toda minha trajetória”, conta sobre o momento em que decidiu revisitar os registros antigos.

Ao reunir os cadernos, percebeu que algumas imagens apareciam repetidamente, principalmente relatos de sonhos, alguns completos e outros fragmentados. Durante conversas com a orientadora, a artista Constança Lucas, surgiu a ideia de transformar esse material em publicações.

Aranha gigante marcou infância de Mar e o prendeu na teia da arte
Artista registra imagens que surgem da mistura entre memória e imaginação (Foto: Mar Cozta)

 “A memória influencia diretamente como essas imagens surgem, quando tento remontar e resgatar algum momento a memória entra com esse papel muito importante e a imaginação e fantasia acabam completando essas lacunas que não se preenchem somente com a memória”, explica.

Cadernos ao lado da cama - Durante a pandemia de Covid-19, em 2020, Mar passou a registrar suas experiências com ainda mais frequência. Costumava dormir com um caderno e um estojo de lápis e canetas ao lado da cama.

Ao acordar, muitas vezes, a primeira coisa que fazia era desenhar ou escrever aquilo que ainda estava fresco na memória. Com o tempo, o hábito se tornou uma forma de preservar acontecimentos e sonhos que poderiam ser esquecidos. “Como uma garantia de que o dia existiu, o sonho foi sonhado, e a prática artística entra como esse materializador da memória e do sonho”, define.

A pesquisa resultou em 2 produções. A primeira é a série de fanzines Fragmentos de Sonhos, formada por pequenas publicações de 6 páginas que misturam relatos de sonhos e elementos das histórias em quadrinhos. Mar produziu os desenhos digitalmente, que nasceram de tirinhas publicadas na internet entre 2022 e 2024. Posteriormente, ele adaptou o material para versões impressas, utilizando um formato de dobra única, sem grampos ou encadernação.

Aranha gigante marcou infância de Mar e o prendeu na teia da arte
Imagens criadas por Mar exploram lembranças fragmentadas e cenas que aparecem durante o sono (Foto: Mar Cozta)

Já o livro Mergulhado em Sonho foi produzido de maneira artesanal. Para criar as imagens, Mar utilizou nanquim, pincéis e bico de pena, explorando principalmente a mistura da tinta com a água. Primeiro, molhava bastante o papel e depois aplicava o nanquim, permitindo que a tinta se espalhasse de maneira imprevisível.

“É uma técnica em que não se tem muito controle, é água né então a tinta flui e caminha por onde houver a água, o material acaba criando as imagens de forma mais natural”, explica. A intenção era criar desenhos que lembrassem memórias de sonhos, com imagens desfocadas e contornos pouco definidos.

O cuidado também apareceu na montagem do livro. As páginas foram impressas em papel pólen de 90 gramas, escolhido pela tonalidade amarelada e pela superfície porosa. A impressão ficou a cargo de Mayara Severino, responsável pelo selo editorial independente Banguela Press, de Campo Grande. A encadernação foi feita manualmente, utilizando linha de nylon transparente para evitar interferências visuais nas ilustrações.

Aranha gigante marcou infância de Mar e o prendeu na teia da arte
Manchas de nanquim se espalham pelo papel e criam imagens de contornos imprecisos (Foto: Arquivo Pessoal)

Apesar da liberdade encontrada nos cadernos, revisitar lembranças nem sempre é uma experiência leve. Mar conta que algumas imagens o levam de volta a momentos difíceis, tornando o processo criativo emocionalmente desgastante.

“Essa porta que eu falo pode ser aberta através de um caderno e a ponta de um lápis, por meio do desenho as imagens vão surgindo e dominando o nosso campo de visão, vão vagando pelo nosso ambiente”, descreve. Assim como aconteceu com a aranha que viu durante a infância, imagens guardadas na memória continuam encontrando caminhos para reaparecer em seus trabalhos.

O exemplar de Mergulhado em Sonho desenvolvido para o trabalho de conclusão de curso foi apresentado à banca e integrou a exposição de formandos na GAV (Galeria de Artes Visuais). Essa edição não será comercializada, mas Mar pretende produzir novas versões.

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