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Artes

Hanny se despediu da vida e se conecta com Dulce em outro plano

Conto de hoje (7) retrata a personagem principal se despedindo para viver aventuras em outras galáxias

Por Marília Adrien de Castro, Dulce Martins e Lúcia Carolina | 07/03/2021 10:49
Ilustração feito por Guto Naveira.
Ilustração feito por Guto Naveira.

Hanny despede-se e parte para outras galáxias

 Chegava a primavera, com intensa claridade. Vinham as flores dos ipês, roxas, amarelas, emblemáticas da cidade que eu escolhi, para onde eu vim e nela cresci, vivi e aprendi.

Dulce ensinou a mim, nos 19 anos que tivemos juntas, sobre o amor e onde ele está: acima de tudo. Confidenciou que há maus-tratos no planeta, eles ameaçam e desrespeitam a vida dos bichinhos.

Em uma noite brilhante, estava deitada na sacada, olhando a Lua ao lado de Dulce, quando se aproximou um humano diferente, diferente porque desconhecido e porque tinha luzes em suas mãos. A mim ele sorriu, esticou seus braços e sussurrou:

— Venha, Hanny.

Por algum tempo, não fui capaz de ter um gesto. Depois, eu não sei bem o que aconteceu, mas foi o princípio de um acréscimo do sentimento do amor em meu coração, um amor tranquilo, que não pedia nada em troca, não mais.

Eu não conhecia aquela maneira então nova de sentir tranquilidade. Desde o toque daquelas mãos, que tinham luz, passei a sentir a perfeição, uma perfeição que vinha da completude. Então, eu enxerguei as pessoas passando pelas ruas e tratando-se com dignidade, cuidando de animais com muita preocupação, cuidando de árvores como se não houvesse hierarquia entre os seres: humanos, bichos e plantas.

Eu vi tanto, era tudo tão nítido, forte, real, que as coisas diante de meus olhos se foram misturando, primeiramente, como se todas estivessem numa mesma foto, depois, como se fossem um mesmo corpo, um mesmo rosto, mesmo coração. Eu sentia-me extraordinariamente feliz, tão feliz, que fui ficando suave, suave, leve, muito leve, e calma, quieta. Eu me sentia tão bem, que confortava, no alento que invadia meu peito, os corações de todos que me amaram.

Eu estava cumprindo a minha missão.

Dulce tinha a tradição de atender a muita gente moradora de uma comunidade. Às vezes, eu fazia companhia a ela nesses trabalhos. Numa dessas ocasiões, eu entendi que meu tempo de partir chegava. Assistindo à dedicação de Dulce a quem dela precisava, compreendi que eu passava a ter uma nova missão, uma missão que só cabia a mim, dependia somente de mim. A partir daquele momento, a missão era um novo aprendizado, era necessário que eu exercitasse o desapego, que eu perdesse o medo de perder as coisas das quais eu mais gostava. Ao fim dessa missão, a recompensa seria juntar-me às cores e à consagração divina.

Desde meus tempos de filhote, Dulce gostava de caminhar comigo entre alamedas cheias de árvores frondosas a caminho de uma capela muito iluminada. Quando ao local chegávamos, Dulce aninhava-me junto a São Francisco, em seu colo, logo eu dormia sonhos bons. Esses passeios foram frequentes por muitos anos. Assim, antes de chegar meu tempo de partir, eu já esperava estar com ele, São Francisco, e sem Dulce.

Ao fim das tardes nos dias próximos à minha partida, eu desprendia-me e juntava-me à imensidão das cores do céu, ao qual compareciam todas as cores e onde havia um corre-corre de crianças e animaizinhos. Eles acompanhavam-me em movimentos de infinito. Mas logo eu voltava, alegre, então mirava profundamente o olhar de Dulce e entrava num silêncio de capela.

O silêncio que vinha de mim naqueles passeios celestes acabou por deixar Dulce pensativa, por isto, ela decidiu levar-me à minha veterinária, por quem sempre fui tratada com muito carinho. Pela primeira vez, olhei a veterinária com indiferença, como se ignorasse sua presença próxima de mim. Não resmunguei como era meu costume, tudo o que eu queria era ser invisível!

Depois da consulta, em casa, na sacada, Dulce sentou-se em uma cadeira branca e não tirou mais os olhos de mim. Foi fitando seus olhos que entrei em um túnel também branco e ouvi sua respiração ficando cada vez mais distante.

As paredes luminosas do túnel permitiam que eu fosse capaz de enxergar o que acontecia fora dele, assim, eu vi as lágrimas de Dulce caírem e transformarem-se em pétalas de rosas brancas. Eu a vi de terço de pérolas brancas nas mãos. Tomada por sua imagem, não percebi a aproximação daquele humano diferente, desconhecido.

Quando deixei de sentir meu corpo e meu olhar ficou envolto por bruma, através dela eu percebi aumentar a distância espacial entre mim e Dulce.

Veio de Dulce uma luz quente, confortável, que me envolveu e conduziu ao infinito imensurável, onde as águas e o céu se encontram, e onde virei uma estrela, radiante. Até hoje apareço nesse infinito e procuro Dulce, então a contemplo.

*Marília Adrien de Castro, Dulce Martins e Lúcia Carolina escreveram juntas a obra literária "Hanny, Amor Eterno". São contos de uma cachorrinha que vive entre humanos e sonha com os humanos. A proposta, segundo elas, é que os homens se conscientizem mais sobre as questões animais e principalmente como os cães ocupam um espaço muito especial de amor e muitas vezes como um membro da família. As histórias de Hanny são embasadas na vida real ela existiu e até hoje vive no coração da Dulce e dos amigos.

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