Maria Fumaça e robôs colocam 80 anos de história em movimento
Máquinas interativas e locomotiva a vapor dividem circuito que mistura memória, tecnologia e acervo

Antes de pensar nas telas, sons e salas que formariam a exposição dos 80 anos do Sesi, lançada nesta quarta-feira (08), a curadora Thais Pompeo precisou voltar a uma Campo Grande que ainda fazia parte de Mato Grosso e descobrir que cidade era aquela. Foram cerca de três meses mergulhada em documentos, fotografias e personagens até encontrar o fio que conduziria o público pela história.
RESUMO
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A exposição dos 80 anos do Sesi, lançada em Campo Grande, usa a chegada da Maria Fumaça, em 1914, como ponto de partida. A curadora Thais Pompeo pesquisou documentos e fotos do acervo da Arca por cerca de três meses. O circuito reúne imersão sonora, rádio com o Clube do Sesinho, a educadora Oliva Enciso, cartas de alunos sobre o futuro e a história de quatro gerações de uma família de Corumbá. Termina com robôs, que simbolizam educação e tecnologia.
A resposta apareceu nos trilhos: a Maria Fumaça, que chegou em 1914 e ajudou a transformar a então pequena Campo Grande, tornou-se o ponto de partida da experiência.
“Quando me convidaram para fazer esse trabalho, a gente começou a entender onde essa história do Sesi começava, tanto no Brasil como aqui em Campo Grande. Mas não era nem Mato Grosso do Sul, era Mato Grosso. E a gente foi levantando esses documentos e vendo que cidade era essa”, conta Thais.
A pesquisa mostrou uma cidade em expansão, cuja urbanização estava diretamente ligada à ferrovia. “O trem chega e revoluciona esse lugar, que era uma vila. A cidade começa a receber ondas migratórias, começa a se movimentar e a crescer”.

Foi dessa descoberta que nasceu a primeira sala da exposição. Em vez de simplesmente colocar fotografias históricas nas paredes, a equipe decidiu transformar os registros em uma experiência de imersão. A equipe trabalhou imagens do acervo da Arca (Arquivo Histórico de Campo Grande) para criar um filme que acompanha as mudanças na paisagem depois da chegada do trem.
"A gente pensou: ‘Vamos trazer o impacto desse trem para a primeira sala’. Então trabalhamos com fotos do acervo da Arca, que é um acervo superimportante de Campo Grande”, explica a curadora.
Na sequência, aparecem elementos que ajudam o visitante a reconhecer a Campo Grande que começava a tomar forma. O prédio dos Correios, o relógio da Rua 14 de Julho e o comércio surgem enquanto a antiga vila se transforma diante do público. O som também participa da narrativa.
“A gente tem um sound design superespecial, que coloca a gente nessa imersão”, explica Thais. A proposta era justamente fugir de uma exposição baseada apenas em fotografias acompanhadas de textos.
Durante a pesquisa, a curadora também encontrou personagens que ampliaram a história para além da indústria. Um deles foi Oliva Enciso, apresentada na exposição por sua atuação ligada à educação e à criação de instituições em Campo Grande.

Thais destaca que ela participou de iniciativas relacionadas ao Senai, ao Instituto Histórico e Geográfico e à primeira faculdade de Odontologia e Farmácia, que posteriormente faria parte do caminho de formação da UFMS. “É uma mulher superimportante, que fez muito por aqui numa época em que as mulheres não tinham essa circulação na política. A Oliva foi um presentaço da exposição”, afirma.
Outro achado veio das ondas do rádio. Ao investigar as décadas de 1940 e 1950, Thais encontrou registros da chamada era de ouro das emissoras locais e dos programas de auditório realizados nos antigos cinemas de Campo Grande.
Entre eles estava o Clube do Sesinho, patrocinado pelo Sesi e transmitido por uma rádio que posteriormente se tornaria a Difusora. “Era uma coisa que ninguém sabia e que marcou a época na década de 50. As pessoas que viveram e eram crianças nessa época têm uma lembrança afetiva desse momento”, conta.

Essa descoberta também ganhou cenário próprio. Em uma das salas, um rádio ajuda a recriar o período, acompanhado de fotografias e sons da época. A exposição utiliza ainda o depoimento do radialista Sabino Preza para explicar como funcionava o Clube do Sesinho. Depois, o circuito avança pelas décadas de 1980 e 1990, passando por ações relacionadas ao esporte e à saúde até chegar aos projetos mais recentes.
A curadoria também decidiu olhar para o presente e para o interior do Estado. Segundo Thais, a pesquisa mostrou a presença de bibliotecas mantidas pelo Sesi em dezenas de municípios, algumas em cidades sem outro equipamento cultural.
“Em muitos lugares em que a biblioteca do Sesi está, não tem uma biblioteca, não tem um centro cultural, não tem nada. E as bibliotecas funcionam como centro cultural, porque não é só um espaço aberto com livros”, explica. Nesses locais, segundo ela, são realizadas atividades como contação de histórias, robótica, reforço escolar e letramento digital.
Na sala dedicada à educação, a narrativa deixa os documentos antigos por alguns momentos e entrega a palavra às crianças. Alunos das escolas do Sesi escreveram cartas contando o que esperam da educação, da indústria e do futuro nos próximos 80 anos.
A equipe reuniu trechos dessas mensagens em um texto apresentado com as próprias vozes dos estudantes. “Tem coisas superpoéticas”, diz Thais. Entre os desejos aparecem tecnologia, preservação da natureza e uma indústria mais ligada ao cuidado com o território.

O percurso termina com uma história que atravessa quatro gerações de uma mesma família em Corumbá. Segundo a curadora, o avô, analfabeto, aprendeu a ler e escrever em uma escola dentro da indústria. Décadas depois, o neto também estuda no Sesi. A escolha resume a lógica adotada durante toda a pesquisa: contar oito décadas não apenas por datas institucionais, mas pelas pessoas que atravessaram esse período.
Thais calcula que passou de dois a três meses concentrada na pesquisa antes da entrada do restante da equipe. O prazo para transformar o material levantado em exposição foi mais apertado do que ela gostaria.
“Foi bem rápido. Mais rápido do que a gente gostaria, porque a gente tinha data. Mas aconteceu e está aí”, diz. Para ela, a intenção sempre foi construir uma exposição capaz de interessar também quem não tem ligação direta com a indústria.
Fausto Augusto Júnior, presidente do Conselho Nacional do Sesi, reforça que o circuito foi pensado para permitir interação. “A intenção desde o começo é que a exposição não fosse só um espaço do olhar, mas também um espaço do tocar, um espaço de interagir”, afirma. Segundo ele, a proposta é fazer com que cada visitante consiga se reconhecer em alguma das fases apresentadas ao longo do percurso.

Os robôs marcam a etapa final da exposição e simbolizam o olhar para o futuro do Sesi. Depois de percorrer décadas de história, desde a chegada da Maria Fumaça e as transformações de Campo Grande até os projetos atuais de educação e tecnologia, o visitante chega a um espaço dedicado à inovação.
Entre os destaques está a Senia, utilizada em atividades ligadas à instituição, além de outra robô que auxilia em ações de assistência e também participa da rotina das escolas com os alunos do Sesi.
A presença das máquinas encerra o circuito fazendo um contraponto com o início da exposição: se a locomotiva representa a tecnologia que ajudou a transformar a cidade no começo do século passado, os robôs apontam para as ferramentas que já começam a fazer parte da educação e do cotidiano das novas gerações.
Já o companheiro de Senia, um robô azul que ainda não recebeu nome, está em fase de programação para ganhar novos movimentos e ampliar suas possibilidades de interação. Mesmo em desenvolvimento, ele já consegue andar pelo espaço, desfilar diante dos visitantes e responder com alguns gestos.
Durante a exposição, chegou até a dar um “tchauzinho” para quem acompanhava seus movimentos, chamando a atenção do público. A expectativa é que, conforme a programação avance, o robô ganhe novas funções e formas de interação.

A exposição “Sesi 80 anos: Indústria em Movimento – Do trilho ao bit” fica aberta para visitação de 8 a 17 de outubro, no Edifício Casa da Indústria, localizado na Avenida Afonso Pena, 1.206, Bairro Amambaí, em Campo Grande. Nos dias úteis, o público pode visitar a mostra das 8h às 18h, enquanto aos fins de semana e feriados o funcionamento será das 10h às 18h. A entrada é gratuita e grupos podem agendar previamente as visitas pelo Sistema Fiems.
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