Uso de IA e referências genéricas de MS reprovam todos os artistas em edital
Seleção previa R$ 120 mil para dois murais no viaduto da Rua Maracaju; novo processo será aberto nesta semana

A comissão gestora da seleção inabilitou todos os projetos inscritos no edital Cultura dos Trilhos por uma série de problemas, entre eles o uso de IA (Inteligência Artificial), falta de ineditismo e referências genéricas a Mato Grosso do Sul e ao Pantanal que não representam a identidade cultural de Campo Grande.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
A comissão gestora do edital Cultura dos Trilhos, da Prefeitura de Campo Grande, inabilitou todos os projetos de muralismo para o viaduto da Rua Maracaju. Os motivos foram o uso de Inteligência Artificial, a falta de ineditismo, a ausência de comprovação de experiência e referências genéricas ao Pantanal, e não à capital. O edital previa R$ 120 mil para dois trabalhos. Um novo edital, com regras mantidas e texto mais claro, deve ser publicado nesta semana.
A Prefeitura de Campo Grande lançou o projeto, por meio da Fundac (Fundação Municipal de Cultura), para selecionar 2 projetos inéditos de muralismo destinados ao viaduto da linha férrea na Rua Maracaju. O edital prevê investimento total de R$ 120 mil, sendo R$ 60 mil para cada trabalho selecionado. As propostas devem retratar aspectos ligados à identidade e à cultura de Campo Grande, incluindo história, patrimônio, fauna, flora, diversidade étnica e manifestações populares.
O resultado foi publicado nesta segunda-feira (5) no Diogrande (Diário Oficial de Campo Grande) e no site da Fundação Municipal de Cultura. Com a reprovação de todas as propostas, um novo edital deverá ser aberto para selecionar os artistas responsáveis pelos murais.
De acordo com o parecer da comissão, a equipe identificou projetos em que os candidatos usaram ferramentas de inteligência artificial na concepção, produção ou elaboração do produto final. O entendimento foi de que o recurso tecnológico se sobrepôs, em alguns casos, ao processo autoral, artístico e à execução humana exigidos pelo edital. A comissão também considerou que as propostas, de maneira geral, não atingiram nível satisfatório nos critérios de qualidade estética, legibilidade, criatividade, unidade visual, coerência e originalidade.
Para o Campo Grande News, Solimar de Almeida, diretora de Desenvolvimento de Programas e Projetos Culturais, disse que o edital exigia que as obras tivessem relação direta com a identidade de Campo Grande, mas, segundo ela, “99%” das propostas recorreram a referências mais amplas de Mato Grosso do Sul.
“Trouxeram mais voltados para Mato Grosso do Sul e não para Campo Grande. É mais para o Pantanal praticamente”, afirmou. Entre os elementos citados pela diretora estavam onça, lobo-guará e outras referências associadas ao Estado.
“As propostas, 99%, trouxeram elementos que não são da cultura de Campo Grande. Trouxeram onça, trouxeram lobo-guará. Então, eles trouxeram mais voltados para Mato Grosso do Sul e não para Campo Grande”, explicou.
Ela também citou problemas na representação dos povos originários. “Eles usaram uma imagem de uma indígena Guató. Nós não temos aqui praticamente nada de Guató”, afirmou. Segundo Solimar, os artistas poderiam trabalhar com a presença indígena na Capital, mas deveriam considerar as etnias e comunidades que fazem parte da realidade local. “Nós temos duas grandes comunidades aqui que também podia usar, remetendo à etnia deles”, explicou.
Irregularidades - A comissão também encontrou obras, imagens ou conteúdos que já haviam sido publicados, contrariando a exigência de ineditismo. Outro problema foi a falta de comprovação de experiência anterior em muralismo. Conforme o parecer, alguns portfólios não apresentaram registros fotográficos ou documentação suficiente para demonstrar que os proponentes já haviam executado trabalhos desse tipo.
Também pesou contra os projetos o cronograma. A comissão identificou propostas que concentravam todas ou grande parte das etapas de execução nos fins de semana e considerou que os prazos não demonstravam viabilidade operacional suficiente para preparação, acompanhamento e conclusão dos trabalhos.
Apesar de apontar o uso de IA entre as irregularidades, Solimar explicou que a questão central está na apresentação de um produto final produzido pela ferramenta. “Quando você pede uma obra de arte, você está querendo que o artista mostre exatamente o que é que ele vai fazer”, afirmou. Segundo ela, quando a proposta apresenta como resultado final uma imagem produzida por IA, torna-se difícil saber se o artista conseguirá reproduzir no mural aquilo que foi apresentado.
Sobre o uso de Inteligência Artificial, Solimar explicou que a ferramenta não estava necessariamente proibida em qualquer etapa, mas não poderia substituir a criação e a capacidade de execução do artista.
“A partir do momento em que o artista usa toda a gama, não que ele não pudesse ter alguma coisa de IA, mas ele põe na proposta dele um produto final feito por IA, fica meio complicado você ter certeza de que vai conseguir chegar naquele produto final. Quando você pede uma obra de arte, você está querendo que o artista mostre exatamente o que é que ele vai fazer”, explicou.
Agora, o processo terá de começar novamente. Segundo Solimar, havia inicialmente a intenção de apenas republicar a seleção, mas a assessoria jurídica orientou que um novo edital seria necessário para permitir que os mesmos artistas participassem novamente com propostas reformuladas. “Agora eu tenho que começar tudo do zero”, disse.
A expectativa é que o novo edital seja publicado ainda nesta semana, após nova análise jurídica. As regras serão mantidas, segundo a diretora, mas o texto deverá trazer explicações mais claras sobre o que se espera dos artistas.
A intenção também é realizar uma ação para tirar dúvidas dos interessados antes das novas inscrições. O Cultura dos Trilhos prevê a contratação de 2 artistas para a execução das pinturas com recursos da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc) destinados ao município de Campo Grande.
Os arquivos citados estão disponíveis aqui.

