Após a morte do filho e do marido, Sylma escreveu para seguir vivendo
Depois de 1 ano e 8 meses isolada no quarto, jornalista encontrou na escrita um caminho para enfrentar o luto

A vida de Sylma Lima foi dividida em antes e depois de uma tragédia. Há quase quatro anos, a jornalista perdeu o filho caçula, Arthur, de 16 anos, e o marido, Alberto, em um acidente de trânsito durante uma viagem a Bonito. De uma hora para outra, ela precisou enfrentar um luto para o qual nunca foi preparada. Vieram a tristeza, o vazio e a sensação de que a vida havia acabado.
Por um ano e oito meses, Sylma conta que passou os dias praticamente trancada no quarto, chorando e tentando compreender como poderia seguir em frente sem duas das pessoas mais importantes.
O casamento aconteceu na juventude e já tinha mais de 30 anos. Ao longo de 3 décadas juntos, os dois tiveram 3 filhos.
Quando partiu, Arthur tinha 16 anos. Segundo a mãe, o adolescente era apaixonado por futebol, estudava e defendia o gol do time da escola. “Ele jogava desde os quatro anos de idade e estava a uma semana da formatura do ensino médio quando o acidente aconteceu”, detalha.
A relação entre mãe e filho era cheia de cuidados e preocupações e, para Sylma, a simplicidade de Arthur era uma das principais qualidades do garoto. “Ele se preocupava com quem não tinha condições. Doava casaco, ajudava com dinheiro. Ele era assim, ele não tinha vaidade”, recorda.
O acidente aconteceu em novembro de 2022, durante uma viagem de Alberto com Arthur e um amigo da família. O marido da jornalista, que era inspetor de polícia, havia se aposentado e queria aproveitar o tempo para viajar com o filho.
Na manhã de sábado, 12 de novembro, os dois saíram cedo em direção a Bonito. Dois dias depois, veio a notícia para a qual ela nunca foi preparada. “Meu filho mais velho estava com o rosto transtornado e disse que eu teria que ser forte”, detalha.
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Em seguida, contou que uma caminhonete Hilux havia capotado em Bonito e que todos os ocupantes tinham morrido. Sylma entendeu imediatamente que o marido, o filho e o amigo estavam envolvidos no acidente. “Minha vida acabou”, lembra.
A notícia a deixou em estado de choque. Nos dias seguintes, ela mal conseguia compreender o que estava acontecendo. Sylma conta que, durante muito tempo, teve dificuldade até para organizar na memória a sequência dos acontecimentos.
A dor também se misturou à ausência de tudo o que fazia parte da rotina familiar. “Acabou a nossa vida. Não tem Natal, não tem Réveillon, não tem mais festa, aniversário. Acabou. Não tem mais nada na nossa casa”, desabafa.
O quarto intocado e os sonhos com o filho - Depois da tragédia, Sylma passou um longo período isolada. Por um ano e oito meses, ficou praticamente dentro do quarto, sem conseguir retomar a vida como antes.
“Eu não conseguia aceitar a morte do Arthur. Até hoje às vezes sinto como se fosse acordar de um pesadelo e encontrar meu filho em casa. O quarto dele continua intocado, com todos os objetos e lembranças”, relata.
As lembranças também se misturavam à dor pela ausência de Alberto. A jornalista conta que sonhava frequentemente com o marido e com o filho.
Foi tentando organizar essas experiências que ela começou a escrever, como uma forma de sobrevivência. Sem experiência como escritora de livros, Sylma começou a colocar no papel as lembranças, os sentimentos e os sonhos que tinha com o filho. O resultado foi “O Céu Dentro de Mim”, obra em que transformou a própria experiência de perda em um registro da relação entre mãe e filho.
Desde então, a escrita ganhou espaço em sua vida. Nesta sexta-feira (16), ela lança “A Ponte para as Estrelas”, livro que aborda os sonhos e a maneira como eles podem se relacionar com as lembranças e os vínculos afetivos.
A jornalista também aborda o que chama de positividade tóxica, quando frases aparentemente bem-intencionadas acabam minimizando a dor de quem sofre. “Muita gente costuma dizer que tenho outros filhos, como se os outros pudessem substituir. Ou falam de Deus, quando eu mesmo estava atravessando uma crise no relacionamento com Deus”, comenta.
Apesar da iniciativa, escrever não apagou o sofrimento nem fez a vida voltar a ser como antes. “Eu precisei estabelecer um propósito para continuar vivendo”, explica.
Enquanto isso, Sylma continua escrevendo. Ela já planeja um quarto livro, que pretende dedicar à reflexão sobre as injustiças e as dificuldades de aceitar acontecimentos que não podem ser mudados.
A escrita não devolveu o filho nem o marido, mas abriu uma possibilidade de seguir em frente sem apagar o passado. “Eu imortalizei meu filho nos livros. Eu conto uma história, uma história de amor, com verdade. Porque onde não tem verdade, não se sustenta”, finaliza.
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