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Campo Grande, Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018

26/11/2017 12:12

Confecção de bonecas negras ajuda mulheres a lutar contra a violência

Artesã resgatou forma de resistência usada por africanas dos navios negreiros

Osvaldo Júnior
Neuza trabalhando na confecção de bonecas (Foto: André Bittar)Neuza trabalhando na confecção de bonecas (Foto: André Bittar)

Em meio à violência e ao medo, um gesto de carinho: mulheres negras faziam pequenas bonecas a crianças, assustadas, distantes de casa e sem imaginar para onde o navio as levava. As bonecas, chamadas “abayomi”, eram feitas com os panos dos vestidos das africanas e serviam para acalentar os pequenos, evitando, assim, que fossem castigados pelos traficantes, os únicos brancos dos tumbeiros, navios que faziam o transporte de negros da África ao Brasil.

Centenas de anos depois, a artesã Neuza Socorro da Silva, 54, reconstrói, em Campo Grande, essa história de resistência. Ela desenvolve projeto, que ajuda na geração de renda, mas que tem como maior objetivo a luta contra a violação de direitos através da partilha de experiências de vida de mulheres, destacadamente as negras.

Realizados em fins de semana em bairros pobres de Campo Grande, os encontros possibilitam que mulheres, vítimas de violência, sejam ouvidas com atenção e respeito, o que, muitas vezes, não ocorre em outros lugares em que relatam suas histórias.

Bonecas “abayomi, tradição de resistência, são usadas em projeto contra violência doméstica (Foto: André Bittar)Bonecas “abayomi", tradição de resistência, são usadas em projeto contra violência doméstica (Foto: André Bittar)

Enquanto falam, confeccionam as abayomis. “Nós sentamos em círculo. Enquanto aprendem a fazer as bonecas, elas vão contando as histórias de violência e discriminação que sofrem”, conta Neuza.

Tudo – presença de outras mulheres, a descontração do momento, a atividade lúdica de confecção de bonecas – colabora para que os relatos fluam sem medos, com segurança, de modo digno. "Elas falam sobre diversas violências que sofrem no dia a dia: discriminação, abuso sexual, trabalho servil", detalha Neuza.

A artesã conta que entre as situações corriqueiras que considera uma das mais revoltantes é a sofrida por mulheres pobres, principalmente, as negras no momento do parte. "Médicos forçam o parto normal, mesmo que as gestantes não queiram. São rudes, agressivos. Ainda dizem, assim como também fazem muitas enfermeiras: 'na hora de abrir as pernas você não reclamou né?'", conta a artesão em referência a tratamento dispensando mulheres, que tira delas a condição de seres humanos.

Neuza afirma que diversas mulheres, no contato com outras que sofrem violência, vão, pouco a pouco, aumentando a resistência e mudando suas vidas. "O emponderamento acontece com a geração de renda e com novas atitudes em relação a seus companheiros", disse.

"Muitas gravam mensagens de voz e me enviam falando que estão trabalhando, que estão melhorando a vida", acrescentou. Além de bonecas, outra fonte de renda são salgados, cuja produção também é ensinada nos encontros.

Não é nenhuma panaceia (remédio para todos os males) e a violência não se encerra com a participação das mulheres no projeto. Trata-se apenas de uma iniciativa, que se insere no conjunto da trajetória de resistência, que atravessa séculos.

Condições do tumbeiro, retratadas pelo pintor alemão do século XIX Johan Moritz Rugendas (Foto: Divulgação)Condições do tumbeiro, retratadas pelo pintor alemão do século XIX Johan Moritz Rugendas (Foto: Divulgação)

Entre as ações remotas, estão a de africanas, com as pernas acorrentadas nos apertados tumbeiros, vítimas de violência, cuidando de crianças, também violentadas em seus direitos.

"Essas bonecas, a abayomi, eram feitas pelas negras, sequestradas em vários pontos da África para serem escravas no Brasil. Ela rasgavam pedaço de suas saias e faziam bonequinhas para as crianças para elas se distraírem e se acalmarem", explica a artesã.

Nos encontros promovidos pela artesã, as pequenas bonecas continuam contribuindo para o mesmo propósito: acalentar vítimas de violência.

Confecção de bonecas negras ajuda mulheres a lutar contra a violência

Violência – A iniciativa de Neuza, assim como outras ações, contribui para atenuar situação de violência, que continua grave no Brasil, principalmente contra mulheres negras.

Estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), com base em informações do IBGE mostra que 603.731 mulheres negras foram vítimas de violência em 2009 (último dado). O número é 29% superior a de brancas, com quantidade também alarmante – 468.182 casos.

A maior parte das negras sofrem violência por parte de pessoas de seus círculos próximos, como companheiros e familiares.

De acordo com a pesquisa, no caso da violência contra mulheres negras, 34% foram pessoas conhecidos (mas não marido ou parente), seguidos de cônjuges (27%) e parente (12%). Em se tratando de mulheres brancas, os índices são, respectivamente, de 28,8%, 24,5% e de 10%.



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