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Campo Grande, Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019

24/07/2019 08:23

Curioso, adolescente consegue trazer a MS o autor de “A Garota Dinamarquesa”

Autor do livro que inspirou filme indicado ao Oscar veio conhecer o estudante Fabrício Pupo, depois de se encantar com o trabalho

Kimberly Teodoro
Com direito a tour pelo Museu das Culturas Dom Bosco, David Ebershoff vem pela primeira vez ao Brasil e desembarca direto em Campo Grande (Foto: Paulo Francis)Com direito a tour pelo Museu das Culturas Dom Bosco, David Ebershoff vem pela primeira vez ao Brasil e desembarca direto em Campo Grande (Foto: Paulo Francis)

Nesta terça-feira o Museu das Culturas Dom Bosco, no Parque das Nações Indígenas não fechou as portas às 17h, como de costume. Lá dentro, um personagem já conhecido aqui no Lado B, o curioso Fabrício Pupo Antunes, de 16 anos. Pesquisador dedicado, o tema da vez é gênero e sexualidade com base no livro “A Garota Dinamarquesa”, obra que deu origem ao filme de mesmo nome indicado à quatro categorias do Oscar.

Pela primeira vez, o adolescente acostumado às capas de jornais parece ansioso, nada relacionado à pesquisa, é claro, da qual ele ainda fala com a propriedade de um jovem professor universitário. Na companhia dos pais, a fala é baixa, enquanto o olhar mira discretamente a porta de vidro a cada dois ou três minutos. O motivo? David Ebershoff em pessoa, que chega bem a tempo de assistir o pôr do sol sul-mato-grossense de um dos pontos mais bonitos da cidade.

Escritor norte-americano, é a primeira vez que o autor de “A Garota Dinamarquesa” e “A 19ª Esposa”, vem ao Brasil e antes mesmo de conhecer as metrópoles mais famosas lá fora, desembarca bem aqui, em Campo Grande. Tudo em nome da ciência e da curiosidade, David veio conhecer pessoalmente o jovem que usou o romance histórico escrito por ele para construir uma pesquisa científica relacionada a sexo, gênero e orientação sexual.

Fabrício desenvolve pesquisa sobre identidade de gênero e sexualidade desde 2017 (Foto: Paulo Francis)Fabrício desenvolve pesquisa sobre identidade de gênero e sexualidade desde 2017 (Foto: Paulo Francis)

O contato entre os dois começou há cerca de dois anos e meio, quando Fabrício se preparava para a Feira Brasileira de Ciência e Engenharia (Febrace) na Universidade de São Paulo (USP). Buscando mais informações sobre o autor do livro que deu origem à pesquisa desenvolvida pelo estudante, ele chegou ao site de David Ebershoff e a um endereço de e-mail para onde enviou algumas perguntas a respeito da obra e contando sobre o próprio trabalho, sem imaginar de fato que teria qualquer resposta.

“Eu fiquei surpreso com a resposta, realmente não esperava. Desde então, passamos a conversar e ele sempre me ajudou com as minhas pesquisas como, por exemplo, no ano passado ele forneceu o contato de um jornalista dinamarquês, que hoje detém todos os direitos autorais da Lili Elbe e realiza uma pesquisa desde os anos 1990 sobre a vida dela. Foi um papel fundamental na minha trajetória como pesquisador”, conta sobre a artista que foi uma das primeiras na história a submeter-se a cirurgia de redesignação sexual.

A conversa entre os dois sempre foi intermediada pela tela do computador, até a última terça-feira, quando o escritor resolveu aceitar o convite de Fabrício e vir a Campo Grande ver de perto um dos maiores eventos científicos da América Latina, a reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), sediada este ano na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

David e Fabrício se encontraram pela primeira vez nesta terça-feira desde que a conversa por e-mail teve início (Foto: Paulo Francis)David e Fabrício se encontraram pela primeira vez nesta terça-feira desde que a conversa por e-mail teve início (Foto: Paulo Francis)
David foi recepcionado pela Orquestra Infantil Indígena (Foto: Paulo Francis)David foi recepcionado pela Orquestra Infantil Indígena (Foto: Paulo Francis)

Levar David até o museu foi uma maneira de apresentar um pouco da cultura regional ao escritor, que foi recepcionado pela Orquestra Infantil Indígena, com direito a tour pelo espaço que abriga as exposições fixas. A visita será breve, apenas dois dias, mas o suficiente encantar o autor, que contaminado pelos hábitos da profissão é movido pelas histórias e experiências do caminho.

É claro, ele já havia pesquisado sobre o Estado na internet, mas conta que pessoalmente a experiência é diferente. Além das capivaras, que conquistam o coração de quem quer que passe por aqui, David ainda tem muito para conhecer, como o Morro do Ernesto e um roteiro pela cidade preparado pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Sectur). Até o momento, a fascinação do autor é pelos artefatos indígenas expostos no museu. “Ver o legado cultural dos povos indígenas é como estar dentro de suas vidas e tradições, o que vemos no museu é a obra de um artista e eu, como um artista, amo ver o que outros artistas podem fazer. É um trabalho excepcional como nada que eu já tenha visto”.

De conversa fácil e olhos curiosos, o atraso de cerca de duas horas no vôo para Campo Grande não pareceu afetar o humor do norte-americano, que independente do peso do próprio nome, é o contrário do estereótipo de autor famoso hollywoodiano, cheio de trejeitos, manias e arrogância. Por hora, o interesse dele é o processo de construção do conhecimento científico, a trajetória de Fabrício como pesquisador.

Além da orquestra, David também fez um tour pelo museu (Foto: Paulo Francis)Além da orquestra, David também fez um tour pelo museu (Foto: Paulo Francis)

“Quando o Fabrício me enviou o trabalho pela primeira vez, há dois anos e meio atrás, eu fiquei muito impressionado, pensei em como era sofisticado. Eu não sabia muito sobre ele, então presumi que fosse um estudante universitário por causa do nível em que o trabalho dele se encontrava. Quando ele me disse que ainda não estava na universidade, eu fiquei especialmente impressionado com isso e o trabalho dele só evoluiu desde então”, afirma David.

Para o escritor, ver o desenvolvimento do Fabrício é a levar à frente a mensagem que começou Lili Elbe, e compartilhá-la com outras pessoas. “Se eu aprendi alguma coisa com A Garota Dinamarquesa, foi que para viver uma vida completa é necessário ser corajoso e se tornar a pessoa que você está destinado a ser e a pesquisa do Fabrício é um exemplo disso”.

David Ebershoff é autor do livro A Garota Dinamarquesa (Foto: Paulo Francis)David Ebershoff é autor do livro "A Garota Dinamarquesa" (Foto: Paulo Francis)

David também reafirma a importância da pesquisa realizada pelo estudante, que está “mostrando às pessoas o poder de contar histórias”. Para o autor, um jovem estudando sobre problemáticas da comunidade LGBTQ pode inspirar outros na mesma idade a aprenderem mais sobre si mesmos, sobre os seus colegas de classe e sobre o mundo, mas também pode ensinar aos mais velhos a abrir as próprias mentes para a existência de pessoas diferentes deles, criando um caminho para a aceitação.

Quando escreveu A Garota Dinamarquesa, inspirado pela história de coragem de Lili Elbe, David Ebershoff nunca imaginou que a mensagem pudesse chegar até um estado, até então desconhecido por ele, no centro-oeste brasileiro. “Fabrício não apenas respondeu ao livro, mas construiu conhecimento em cima dele e levou a mensagem à frente. Quando eu paro para pensar sobre isso, a vida de Lili foi um exemplo disso. Ela viveu a própria vida e decidiu ser quem estava destinada a ser, apesar das dificuldades, tomou um passo muito corajoso e tem inspirado pessoas desde então. O trabalho do Fabrício é uma continuação disso e ele está construindo sobre o legado dela”.

Como último compromisso por aqui, David irá falar na conferência mediada por Fabrício “The Danish Girl: Literature, Film And Identity”, na quinta-feira às 10h30 no auditório II do Complexo Multiuso da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, duranta 71ª  edição do SBPC. 

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