Jefferson é guia que ensina criança pegar no sono e espantar espíritos
Ele quase foi pajé, mas hoje mostra aos turistas os mistérios da mata na aldeia Babaçu, em Miranda

Jefferson Fonseca Francelino anda pela mata com olhos de quem ainda não conhece o lugar onde vive. Não por ignorância, mas com entusiasmo de quem vê tudo pela primeira vez. Na aldeia Babaçu, ele já foi cacique e quase pajé. Hoje é guia que ensina criança pegar no sono e espantar espíritos e mostra os mistérios escondidos na mata para os turistas que aparecem por lá.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Jefferson Francelino, ex-cacique e quase pajé da aldeia Babaçu, atua como guia turístico compartilhando conhecimentos ancestrais sobre plantas medicinais e mistérios da mata. Durante os passeios, ele apresenta espécies como a para-tudo, usada contra febre, e a cabriteira, fruta doce apreciada pelas crianças. O guia, capacitado pelo Sebrae em parceria com o Ipedi e a Bruaca, oferece experiências turísticas que incluem demonstrações de danças tradicionais, gastronomia típica e artesanato local. Junto com sua esposa Edinéia, ele recebe desde pequenos grupos até excursões maiores, preservando e compartilhando a cultura indígena.
A vida do guia é andar pelo mato mostrando as plantas e as inúmeras árvores medicinais que ali existem. Quem vê tudo como novidade se pergunta como ele guarda tantos nomes e as finalidades das plantas e frutos. Jefferson explica cada uma delas durante um passeio que ocupa quase uma manhã toda.
Para ele, ex-cacique, as árvores falam, os troncos oferecem água e a terra guarda ecos de quem já partiu. Ele arranca um pedaço do tronco da para-tudo e avisa: é amarga.

O alento vem da planta que eles chamam de cabriteira, tão doce que vira motivo de briga entre as crianças da aldeia. Entre uma planta e outra, ele ensina a ler o perigo, o que é veneno, o que é alimento, o que é mistério.
“É extremamente doce. Já a para-tudo serve para febre. Sempre que alguém aparece com febre, tiro uma parte do tronco e dou. Ela é muito amarga, e a maioria das ervas medicinais da nossa tradição são muito amargas. Só tem uma, a garrafinha, como a gente chama.”
Durante o passeio, ele explica que por ali é comum ouvir vozes no meio da mata e achar os chamados tesouros perdidos ou, na cultura, “enterrados”.
Ele explica que essas são as coisas que os homens não indígenas trouxeram de fora. Mas, para o medo, ele tem a receita. Uma planta que é multifuncional: a raiz vira remédio, a folha vira vassoura e o amuleto feito com a folha faz até a criança com insônia dormir.
“Quando a criança não quer dormir, fazemos a simpatia com a planta, fazemos a reza e um travesseirinho com ela. Depois, costura com pano vermelho e linha vermelha e faz uma correntinha. Quando a criança não quer dormir, coloca no pescoço dela. Dorme que é uma beleza.”
Por lá, o baru tem aos montes. Ele é usado para fazer vitaminas, torrar castanha, farinha da polpa e é rico em vitamina. Mas, para o guia, a graça é consumir in natura, direto do pé.
Outra fruta tradicional do cerrado, a guavira, também aparece no terreno, com mudas pequenas e rasteiras. Ele comenta que, se as pessoas não mudarem os hábitos de preservação, a planta irá desaparecer.
Jefferson integrou uma turma de 27 participantes capacitados para serem guias turísticos em uma ação do Sebrae, em parceria com o Ipedi (Instituto de Pesquisa e Diversidade Intercultural) e a Bruaca. Entre os participantes, dois foram selecionados para serem os responsáveis pelas experiências na Babaçu: ele e a esposa, Edinéia Miranda da Silva.
“Recebemos grupos maiores, com apresentações das danças, comidas típicas e apresentações das nossas artesãs, com produção de cerâmicas e cestarias. Também recebemos pequenos grupos de até dez pessoas e casais, por exemplo.”



