Justiça pelas avós: mimar os netos é criar adultos que não se viram?
Segundo elas, garoto educado pela avó também aprende a ter autonomia
Elas dão carinho, fazem um agrado aqui, outro ali e, quando podem, estão prontas para ajudar. Mas, junto com a fama de quem faz todas as vontades dos netos, as avós também carregam o julgamento antigo de que criança criada por elas cresce mimada, dependente e sem saber se virar sozinha. Será que é assim mesmo?
O Lado B decidiu fazer justiça pelas avós, que garantem que carinho e educação funcional podem andar juntos.
Aos 79 anos, Terezinha Maria tem experiência de sobra para entrar nessa discussão. Mãe de quatro filhos e avó de quatro netos, ela criou a neta Ingrid Cristine como se fosse filha. Hoje, aos 29 anos, a jovem mora na Itália e continua sendo orgulho para a avó.
Para Terezinha, a fama de que neto criado por avó é mimado não faz justiça ao trabalho de quem assume a responsabilidade de educar uma criança. “Eu acho injusto. Eu criei bem meus filhos, meu neto, minha neta. Eu criei muito bem ela. Ela me respeitava e respeitava todo mundo e fazia tudo dentro de casa”, afirma.
A avó também acredita que o segredo está na maneira de educar. “Dar carinho não é deixar a criança fazer tudo o que quer. Tem que ensinar limites e responsabilidades”, finaliza.
Aos 76 anos, Maria José concorda. Mãe de três filhos, avó de 10 netos e bisavó de quatro crianças, ela acredita que a fama negativa não passa de conversa. “Isso aí é só conversa. Não é verdade, não”, defende.
Ela lembra o exemplo da mãe, que criou três netos que cresceram, se casaram, se formaram e são adultos funcionais. “Ser criado por avó não impede ninguém de aprender a fazer nada dentro de casa não”, pontua.
Rosana Alves Pires, de 75 anos, não chegou a criar os seis netos, mas participou da assistência e do cuidado com a família. Mãe de quatro filhos e bisavó de três crianças, ela também discorda da ideia de que os netos criados pelas avós se tornam adultos incapazes.
“Eles aprendem a cuidar de casa e a fazer as coisas porque as avós ensinam direitinho. É as avós que ensinam”, destaca.
Rosana acredita que a experiência acumulada ao longo da vida tem muito a contribuir na criação das crianças. Na avaliação dela, os mais velhos têm conhecimentos que podem fazer diferença na educação dos pequenos.
“A gente pode até passar a mão na cabeça um pouquinho, mas isso está dentro da normalidade”, relata. No entanto, para Rosana o carinho dado pelas avós não é motivo para condenar a maneira como elas participam da criação dos netos. “É injustiça ficar falando mal de vó”, resume.
Mimar não significa deixar de ensinar - Aos 65 anos, Marilda Rilson traz uma visão um pouco diferente. Ela admite que existe, sim, uma tendência de as avós mimarem os netos, mas não acredita que isso seja suficiente para prejudicar a vida adulta.
A lembrança vem da própria mãe, que costumava dar mais atenção e agrados aos netos. Marilda conta que, mesmo com esse tratamento carinhoso, eles cresceram e se tornaram trabalhadores.
“Eu vi a minha mãe mimar as crianças, os guris. Mas, nesse ponto, eles faziam as coisas. Criou uns meninos trabalhadores”, relata. A experiência familiar fez com que ela separasse receber carinho em excesso e não aprender a assumir responsabilidades. “Uma coisa não leva à outra”, comenta.
Já Maria Clarete, de 72 anos, não tenta fugir da fama. Mãe de um filho, avó de uma neta e bisavó de uma menina, ela admite que gosta de mimar quem ama.
A neta foi criada por ela e a chama de mãe. Mesmo sem morar mais juntas, o vínculo permanece forte. Com a bisneta, os agrados também fazem parte da relação, especialmente porque os encontros não são tão frequentes quanto ela gostaria.
“Eu mimo minha bisneta quando vejo. É muito difícil porque ela estuda, não mora comigo. Minha neta também não mora comigo. Minha neta eu que criei, me chama de mãe”, conta.
Maria Clarete diz que, se pudesse voltar no tempo, criaria a neta novamente. O carinho que sente pelas duas gerações aparece nos pequenos gestos, como preparar um presente para a bisneta quando ela vai visitá-la.
Ela também acredita que a relação com os netos pode ser diferente daquela vivida com os próprios filhos. Quando criou o filho, precisava dividir o tempo entre trabalho e responsabilidades, o que tornava mais difícil oferecer determinados agrados.

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