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Campo Grande, Domingo, 19 de Maio de 2019

20/04/2019 08:03

Médico sai de Mato Grosso do Sul para descobrir no Pará a força de uma tribo

“Eles só querem seguir sendo índios”, afirma Nilson que há 20 dias percorre aldeias isoladas ao redor do Rio Tapajós para atendimentos

Danielle Valentim
Índia descascando mandiocas para fabricação de farinha. (Foto: Nonato Silva/ Faro Fino)Índia descascando mandiocas para fabricação de farinha. (Foto: Nonato Silva/ Faro Fino)

Viver na natureza e se alimentar do que vem da terra. Isso é riqueza para o índio. A modernidade e a destruição invadem as aldeias na mesma intensidade e a cultura dos primeiros moradores do país pede socorro. Esta é a visão do médico de Campo Grande Nilson Moura, de 27 anos, que em apenas 20 dias tem presenciado as mais diversas dificuldades do povo Mundukuro, na Aldeia Muiuçuzão - estrada transamazônica - a 40 km de Jacareacanga, interior do Pará.

Nilson se graduou em medicina em Santa Cruz de La Sierra, em 2017, e sem provas do Revalida há dois anos no Brasil, o recém-formado permaneceu na Bolívia se preparando para o exame e se dedicando à área do esporte.

No dia 23 de março, Nilson foi aprovado no curso organizado pelo Programa Mais Médicos, em Brasília, e seguiu para Itaituba, no Pará, cidade base do Dsei (Distrito Sanitário Especial Indígena) Rio Tapajós, grupo formado por 11 médicos. Depois de chegar à base, o médico viajou mais dez horas para chegar à cidade mais próxima das aldeias a serem atendidas, Jacareacanga.

Dentro da região amazônica, os locais são visitados a cada nova missão. Na última vez que o Nilson se conectou a internet, na segunda-feira (15), ele havia ficado cinco dias desconectado atendendo aldeias que abrigam o povo Mundukuru, entre elas a Muiuçuzão.

Dormindo em redes e com o uso de energia elétrica das 6h às 22h, por gerador, o médico pontua a experiência única e fortalecedora. “As condições não são as melhores, mas é uma experiência única. São pessoas acolhedoras e alegres. Se eles pescarem cinco peixes, três pequenos, um médio e um grande, com certeza te darão o grande. Não se importam com o luxo ou mordomia são simples, só querem uma vida ali [aldeia] em paz, tranquilos e com a natureza”, conta.

Parte da equipe Dsei Rio Tapajós. (Foto: Reprodução/Instagram)Parte da equipe Dsei Rio Tapajós. (Foto: Reprodução/Instagram)

Segundo ele, a área a ser atendida é gigantesca e em alguns pontos só se chega de helicóptero ou de barco em viagem de até dois dias. Cada um dos 11 médicos é designado a atender um polo. Nilson, por exemplo, atendeu nesta semana, os Mundukurus; outros colegas, os Kaiapós.

Os profissionais são orientados a evitarem fotos ou exposição dos nativos e, por isso, as imagens não mostram os índios. Apesar de isolada, a tecnologia avançou aldeia adentro com roupas, televisores e celulares.

Nilson admite que nem precisou conversar, especificamente, sobre o que o povo reivindica para entender o que eles precisam. “Eles só querem o espaço deles, seguir sendo índios, cultivando a tradição e cultura deles. A sociedade suja o rio que eles pescam, contamina as águas que eles bebem, principalmente, o garimpo, que enche as águas de mercúrio. O peixe contaminado alimenta os índios, que também acabam contaminados. E mesmo em meio a tanto adversidade, eles continuam sorrindo”, frisa o médico.

Enfermidades - Nilson destaca que é comum encontrar nas visitas, três famílias habitando a mesma casa. Segundo ele, há muitas crianças e adultos doentes. Entre as doenças, gripe, malária e diarreia devido à contaminação por parasitoses.

“Somos limitados pelos medicamentos que temos e faz falta exames de laboratório, que não temos em campo, daí temos que enviar o paciente até a cidade. Tentamos fazer o melhor, porque quando a gente chega aqui vê de perto o sofrimento desse povo. É muito gratificante e penso muito em quantas vezes reclamamos. É como eu te disse, eles não querem luxo, querem o respeito a sua famílias”.

“As condições não são as melhores, mas é uma experiência única, diz Nilson. (Foto: Reprodução/Instagram)“As condições não são as melhores, mas é uma experiência única", diz Nilson. (Foto: Reprodução/Instagram)

Nos cinco dias de atendimento, Nilson não conheceu ninguém com vontade de deixar a aldeia. A não ser pela abundância de alimentos na cidade.

“A gente sempre tem vontade de conhecer novos lugares e contar sobre lugares turísticos, mas uma conversa me chamou muito a atenção. Teve um índio que eu perguntei se ele preferia a aldeia ou a cidade e ele me respondeu de imediato que era a aldeia. Então eu voltei a perguntar se ele já havia saído da aldeia ou visitado, por exemplo, o distrito de Alter do Chão, mundialmente conhecido. Ele respondeu que sim, que tinha ido a um passeio com a escola e que a única novidade era a comida. Me chamou a atenção ele evidenciar o alimento e não o fato de estar conhecendo um ponto turístico”, conta.

Desafios - A aldeia Muiuçuzão foi a primeira a ser atendida. Novas missões são dadas após encerramento dos atendimentos. Segundo Nilson, as próximas da lista são Sai Cinza e Katõ. Grandes e isoladas, as duas aldeias não recebem médicos desde a saída dos cubanos.

“Ainda atenderemos a Karapanatuba, Sai Cinza e Katõ. As duas últimas possuem 1500 habitantes cada uma e estão há quatro meses sem atendimento médico, ou seja, desde a saída dos cubanos”.

Povo de tradição guerreira, os Munduruku sempre dominaram culturalmente a região do Vale do Tapajós. Hoje em dia, suas guerras estão voltadas para garantir a integridade de seu território, ameaçado pelos garimpos de ouro, projetos hidrelétricos e a construção de hidrovia no Tapajós.

O povo Munduruku já ocupou a bacia do Tapajós de forma tão ampla que chegou a ser conhecido pelos europeus como “Mundurukânia”.

Em Carta dos Munduruku ao Governo escrita há seis anos, eles explicitam seu histórico, conhecimentos e lugares ancestrais que consideram ameaçados.

Guerreiros munduruku dançam com pintura usada em cerimônias para receber visitantes; Pintura foi confundida pela Polícia Federal como pintura de guerra. (Foto: Mauricio Torres)Guerreiros munduruku dançam com pintura usada em cerimônias para receber visitantes; Pintura foi confundida pela Polícia Federal como pintura de guerra. (Foto: Mauricio Torres)

“Por que querem nos destruir, nós não somos cidadãos brasileiros? Somos tão insignificantes? O que o governo está declarando contra nós? Está declarando guerra para nos acabarem pra depois entregar as nossas terras aos latifundiários e para os agronegócios, hidrelétricas e mineração? O governo está pretendo tirar de nós porque não estamos dando lucro pra ele”, indagam em trecho do documento.

Os Munduruku estão situados em regiões e territórios diferentes nos estados do Pará (sudoeste, calha e afluentes do rio Tapajós, nos municípios de Santarém, Itaituba, Jacareacanga), Amazonas (leste, rio Canumã, município de Nova Olinda; e próximo a Transamazônica, município de Borba), Mato Grosso (Norte, região do rio dos Peixes, município e Juara).

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