ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
OUTUBRO, SEGUNDA  12    CAMPO GRANDE 21º

Comportamento

Noiva casa de vestido terracota em cerimônia cheia de símbolos

Casamento às margens do Rio Formoso contou com traje diferente, buquê com raízes e rituais ligados à natureza

Por Thailla Torres | 12/10/2026 08:13
Noiva casa de vestido terracota em cerimônia cheia de símbolos
Com vestido terracota, Fabrícia deixou o branco de lado e levou elementos da natureza para o altar. (Foto: @dudafotografias__)

O vestido era terracota, o buquê tinha raízes e, em vez de caminhar de salto alto até o altar, a noiva preferiu sentir o chão com os próprios pés. À beira do Rio Formoso, em Bonito, a advogada e terapeuta Fabrícia Moraes, de 45 anos, casou-se com o promotor de Justiça Luciano Loubet, de 50, em uma cerimônia onde até as plantas tinham um papel especial.

O casamento aconteceu no dia 2 de outubro, exatamente sete anos depois do pedido de namoro. Mas a história dos dois começou de um jeito bem menos romântico: Fabrícia tentou espantar Luciano logo nas primeiras conversas.

Eles se conheceram pelo Instagram, em junho de 2019. Quando ele perguntou do que ela gostava, a advogada respondeu que preferia ficar em casa, estudar, assistir a documentários e ler sobre física quântica, energia e Fibonacci. Era uma tentativa de acabar com a paquera antes mesmo de começar.

"Só que ao invés de fugir e me deixar em paz, o Luciano entrou no assunto. E aí a minha tática não funcionou", lembra.

Foram quase três meses de conversas até que ela finalmente aceitasse encontrá-lo. Luciano apareceu em sua casa bem-arrumado e levando um exemplar do livro Modernidade Líquida, de Zygmunt Bauman. Os dois passaram cerca de quatro horas conversando.

Noiva casa de vestido terracota em cerimônia cheia de símbolos
Fabrícia Moraes e Luciano Loubet escolheram a natureza de Bonito para celebrar o casamento, às margens do Rio Formoso. (Foto: @dudafotografias__)

O namoro começou oficialmente em 2 de outubro daquele ano e o amor foi construído com o tempo. O pedido de casamento veio em 2022, mas Fabrícia levou quase quatro anos para organizar a cerimônia. Luciano queria festa, enquanto ela tinha dificuldade de se imaginar seguindo os costumes tradicionais.

O vestido branco nunca foi exatamente um problema. A questão era encontrar algo que tivesse significado para ela.

"Eu não parti da ideia de que eu precisava usar branco, mas também eu nunca pensei, todo mundo usa branco, então eu não vou usar branco, usarei outra cor. Se eu escolher esse terracota apenas para contrariar o branco, o branco continuaria determinando a minha escolha, né?"

Foi pensando na própria relação com a natureza que Fabrícia chegou à cor terracota. O vestido teria raízes, galhos, folhas e flores, elementos que representam a origem, a família e as transformações da vida.

"Então eu comecei a construir esse vestido usando inteligência artificial", conta.

Ela passou a testar imagens, cores e elementos até conseguir visualizar o que tinha em mente. Mas ainda faltava alguém capaz de transformar a criação digital em uma peça real.

Foi quando encontrou a estilista Patricia Pilan. "Criei um vestido pela inteligência artificial e agora preciso de alguém que dê vida para ele", escreveu à profissional, que respondeu prontamente: "Eu".

A escolha do tecido também teve uma história especial. Durante uma das provas, Patrícia encostou uma opção terracota no corpo da noiva e percebeu que ela sorriu. "Porque você sorriu quando ele encostou em você", respondeu a estilista ao explicar por que aquele seria o tecido escolhido.

Mais de seis mulheres participaram da confecção do vestido, entre costureiras e bordadeiras. Quando finalmente vestiu a peça pronta, Fabrícia teve a certeza de que havia feito a escolha certa. "Eu não me senti fantasiada de noiva, eu me reconheci como noiva."

Noiva casa de vestido terracota em cerimônia cheia de símbolos
O buquê foi feito com plantas vivas, raízes aparentes, ervas e penas de pavão. Parte das plantas foi devolvida à natureza durante a cerimônia. (Foto: @dudafotografias__)

Se o vestido já tinha uma história, o buquê não poderia ser apenas um conjunto de flores bonitas. Fabrícia queria carregar plantas vivas, com raízes, que continuassem crescendo depois do casamento. A ideia era usar ervas e plantas aquáticas que pudessem ser devolvidas à natureza durante a própria cerimônia.

"Eu gosto de pensar que a natureza me emprestaria aqueles elementos por algumas horas e eu carregaria comigo naquele ritual e depois eles continuariam o seu ciclo."

Depois de procurar diferentes floriculturas e ouvir que ninguém trabalhava daquela maneira, ela decidiu que faria tudo sozinha. Até conhecer Carlos, da Oui Flores, e o florista Thiago, que aceitaram transformar a ideia em realidade.

O resultado foi um buquê com raízes aparentes, ervas e plantas aquáticas. Durante o casamento, Fabrícia devolveu à água o que pertencia ao rio e plantou na terra o restante.

"E aí eu caminhei até a cerimônia carregando vida nas mãos, com raízes e depois eu devolvi aquela vida aos elementos dos quais eles pertenciam. O que era da terra na terra, o que era da água na água."

Bonito não foi escolhido apenas pela paisagem. Luciano viveu aproximadamente 15 anos na cidade e, como promotor de Justiça, trabalhou na proteção dos rios da região.

Para Fabrícia, a água representa movimento e transformação. Para ele, o Rio Formoso também faz parte da própria trajetória profissional.

Por isso, quando chegaram ao local da cerimônia, os dois não ficaram de frente para os cerca de 150 convidados. Preferiram olhar para o rio.

"Eu queria que aquele lugar participasse. Então, quando o Luciano e eu chegamos ao final da nossa entrada, nós não nos posicionamos de frente para os convidados, nós ficamos de frente para o Rio Formoso."

Depois dos votos, os convidados se afastaram e os dois ficaram sozinhos à beira da água. Fabrícia levantou o vestido com a ajuda do marido e entrou no rio até os tornozelos.

"Nós ficamos ali e ali que aconteceu uma coisa também que não tava no roteiro, como várias, né, que foi eu senti vontade de entrar na água", recorda.

A cerimônia também dispensou padrinhos e madrinhas tradicionais. No lugar deles, Fabrícia escolheu 12 mulheres importantes para a história do casal, chamadas de guardiãs. Elas formaram um corredor e receberam os recém-casados com lavandas, alfazemas e folhas secas.

Outro momento especial foi o plantio do buquê, que envolveu a família. Luciano colocou a terra nos vasos, as esposas dos pais participaram da entrega das plantas e Pedro, filho do noivo, ficou responsável por regá-las.

Para Fabrícia, o gesto representava o reconhecimento de que os dois não estavam começando uma história do zero, mas unindo vidas que já tinham passado, família e experiências.

"O filho não precisava desaparecer para que existisse um novo casal. A história anterior não precisava ser negada para que uma nova configuração familiar pudesse nascer."

A música também acompanhou essa mistura de histórias. Houve mantras, violino, saxofone e moda de viola, respeitando tanto o lado mais espiritual de Fabrícia quanto as referências de Luciano.

E, sobre tantos detalhes que chamaram atenção, Fabrícia deixa claro que nenhum deles foi pensado para impressionar. "Nada precisava parecer disruptivo, precisava fazer sentido", finaliza.

Noiva casa de vestido terracota em cerimônia cheia de símbolos
De frente para o Rio Formoso, Fabrícia e Luciano trocaram votos em uma cerimônia marcada por símbolos ligados à natureza (Foto: @dudafotografias)


Acompanhe o Lado B no Instagram @ladobcgoficial, Facebook e X. Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp (67) 99669-9563 (chame aqui).

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News.