Pesquisadores encontram 92 letras de hinos do MS descartadas
Dois anos de procura levaram ao achado; as composições vieram de um concurso
O hino de Mato Grosso do Sul nem sempre foi do jeito que conhecemos. Em 1978, aconteceu um concurso para decidir qual seria a letra, que teve participantes de todo o Brasil, como São Paulo, Espírito Santo, Região Norte, Mato Grosso, Campo Grande e outras cidades do interior. Poetas, militares, membros da igreja, maestros e pessoas comuns submeteram diversas letras e melodias. Porém, nenhuma foi aprovada.
RESUMO
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O Arquivo Público de Mato Grosso do Sul divulgou, pela primeira vez, 92 letras de hino descartadas no concurso de 1978, encontradas após dois anos de buscas em caixas não catalogadas. Nenhuma das propostas foi aprovada, e a letra oficial coube ao historiador Otávio Gonçalves Gomes, com melodia do maestro Radamés Gnattali. Parte do material integra exposição no Espaço Energia, em Campo Grande, e a segunda etapa ocorrerá em 21 de outubro, no Arquivo Público.
Mas para onde foram essas letras descartadas? Perderam-se ao longo dessas quase cinco décadas. Até que em 2024, um grupo de pesquisadores resolveu ir atrás desses documentos então desaparecidos. E hoje, quase cinco décadas depois, em homenagem ao aniversário de Mato Grosso do Sul neste dia 11, o Arquivo Público encontrou e divulgou, pela primeira vez na história, os hinos do estado descartados antes de chegar ao oficial.
Algumas das letras descartadas falam de exaltação do estado e do Pantanal. Em um dos documentos submetidos, o autor chega a fazer uma observação, pedindo que mesmo que sua letra não seja aprovada, sua melodia deve ser usada por a considerar muito bonita. “A introdução é baseada nas notas: Dó, Fá, e Sol que são pontos autênticos no trajeto desta viril composição”.
“Com justiça, paz e alegria, a sua gente ama de coração, o futuro que se espera, para a nova geração” e “Encanta com a natureza florestas, minérios e rios, hoje Mato Grosso do Sul preenche esse vazio”, são outros exemplos de letras não aprovadas.
O grupo de pesquisadores, orientado pelo coordenador do Arquivo Público do Estado, Douglas Alves da Silva, de 42 anos, estava focado em achar, principalmente, os antigos brasões e bandeiras, também descartados no concurso, mas que não foram encontrados. Estima-se que são 800 bandeiras e 200 brasões.
Até que surgiu um questionamento feito por um acadêmico da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul sobre onde estavam os hinos descartados. Eles fizeram uma procura, chamada de busca ativa, e se depararam com 92 versões que não foram utilizadas.
Como foi o processo de encontrar
Após dois anos de muita procura, eles chegaram ao Arquivo Público de Mato Grosso do Sul, em uma sala repleta de documentos esquecidos e não catalogados. A pasta contendo as letras estava em uma massa de documentos, ou seja, uma caixa não catalogada e soterrada por outras caixas e arquivos. “Nós fizemos uma busca ativa dentro dos acervos, porque às vezes você encontra informações fora do arquivo público, como em alguma secretaria, acervo particular”, explica Douglas.
O que se sabia até então, era da existência de 7 letras reprovadas recebidas pela Fundação Nacional de Artes. Quatro delas teriam sido descartadas logo de cara, enquanto as outras três não foram aproveitadas por serem julgadas não adequadas para um hino do estado.
A causa do descarte das outras 92 é desconhecida, mas para o professor e pesquisador, alguns dos motivos podem ter sido a entrega depois do prazo e simplesmente a inadequação de uma representação fiel do estado. “Isso é interessante porque em algum momento alguém teve a sensibilidade de colocar esse material junto e não jogar fora”, afirma o coordenador.
Para restaurar o documento, foi preciso fazer uma quarentena preventiva, na qual a documentação é localizada sem ter passado por tratamento. Geralmente, os papéis são encontrados contaminados com bolor, fungos, traças, baratas e até ratos. Então, o documento é recolhido, identificado com etiquetas, colocado em um saco preto, todo o ar é retirado, e é deixado longe da luz e calor por 2 meses.
Após o tempo de espera, o documento é aberto e está pronto para ser higienizado. Entre os encontrados, a maioria foi identificada com o nome ou pseudônimo do autor, muitos foram registrados em cartório, exceto 5, que não se sabe quem os escreveu.
História do hino oficial
O estado de Mato Grosso do Sul foi criado em 11 de outubro de 1977, mas sua implementação oficial aconteceria apenas no dia 1° de janeiro de 1979, quando nosso primeiro governador, Harry Amorim de Costa, assumiria.
Após o concurso não dar certo, a Comissão Julgadora resolveu chamar dois membros da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, Jorge Antônio Siufi e Otávio Gonçalves Gomes.
O maestro contratado para fazer a melodia, Radamés Gnatalli, a enviou para Otávio, que além de levar esse título, também era historiador. Sua esposa tocava a melodia no piano enquanto o marido escrevia a letra, e suas 5 filhas cantavam para ver se letra e melodia combinavam. A filha de Otávio, Rhea Silvia Gonçalves Gomes, servidora pública estadual de 67 anos, relembra com carinho a época. “Eu sempre me emociono quando ouço o hino tocar”.
Segundo ela, a inspiração de seu pai foi a força do Estado e uma homenagem às pessoas que considera heróis do MS, que lutaram na Guerra do Paraguai, impedindo que o Estado fizesse parte do país vizinho. Os nomes escolhidos foram Vespasiano Martins, Coronel Carlos de Morais Camisão, Tenente Antônio João Ribeiro, Ricardo Franco e a tribo indígena Guaicurus. “Ele se mudou para o Rio de Janeiro para fazer faculdade, mas sempre pensando em voltar, ele amava o Mato Grosso do Sul”, afirma a filha. Otávio era natural de Coxim.
Apesar de terem sido convidados, a letra de Jorge e Otávio ainda precisava ser aprovada pela Comissão Julgadora antes da virada do ano. “Tinha um tempo muito pequeno para eles conseguirem fazer a letra do hino e ele ser aprovado”, afirma Rhea, “Ele nem pensava em fazer o hino, foi praticamente intimado por ser historiador e conhecer tudo da região. Eu particularmente acho que ficou maravilhoso”. Para ela, o diferencial da letra ter sido aprovada foi por ter sido feita com o coração e por alguém que conhecia bem o estado.
Exposição no Espaço Energia
O Museu Espaço Energia, da concessionária Energisa, localizado na Afonso Pena, trouxe para a Capital uma exposição, feita por artistas Sul-Mato-Grossenses, contando a história do hino do estado. Ao chegar, a reportagem se deparou com um telão, contendo uma inteligência artificial exibindo os heróis do estado, nela está disponível um fone de ouvido que permite a pessoa falar com o herói e ele responde.
No fundo, estão exibidas artes com a linha do tempo da criação do Mato Grosso do Sul, fotos contando a história dos desbravadores do estado, informações gerais, desenhos dos animais pantaneiros e esculturas de artistas locais. As letras descartadas foram expostas por Douglas exclusivamente para a imprensa e convidados na mesa principal com as obras de arte.
O evento contava com esses convidados, mas está aberto desde Julho e permanecerá até o fim dessa semana, depois irá para o Arquivo Público, que está preparando uma exposição permanente. “O espaço foi reservado para o artista Sul-Mato-Grossense, já passaram 40 artistas por aqui”, conta Paulo Roberto dos Santos, diretor e presidente da Energisa MS.
A experiência também é apresentada em passeios escolares, e já contou com mais de 75 mil crianças. “É uma oportunidade deles conhecerem um pouquinho da nossa história de uma forma imersiva”, afirma Paulo.
Apesar de estar acabando, o espaço já tem planos futuros, a próxima exposição será sobre nomes das ruas, seguido pela história da separação do estado e depois a guerra do Paraguai, que possui um grande acervo em Corumbá. Cada exposição durará em torno de três meses.“A gente precisa fazer o resgate da nossa cultura, da nossa história, ela é muito mal contada nas escolas”, o presidente e diretor explica.
Além do espaço cultural, a experiência também tem o objetivo de possibilitar o contato das crianças com energia elétrica e eficiência energética, com diversas outras atividades.
A segunda parte da exposição dos antigos hinos será no dia 21 de Outubro no Arquivo Público, na Av. Fernando Corrêa da Costa, nº 559, 2º andar. O Espaço Energia fica na Avenida Afonso Pena, 3.901, aberto de segunda a sexta-feira, das 8h às 11h30 e das 13h às 17h para visitação.
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