Para ajudar filhos a fazer amigos, mãe aposta em jogos de cartas
Inspirada pelas 2 crianças, Raíza criou projeto com baralhos para estimular convivência e inclusão

A vontade de ajudar os filhos a fazer amigos levou Raíza e o marido, Eduardo Martins, a criar um projeto que usa jogos de cartas para aproximar crianças e adolescentes em Campo Grande.
RESUMO
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A Guilda da Diversão, criada em Campo Grande por Raíza e Eduardo Martins, usa jogos de cartas para aproximar crianças e adolescentes de 9 a 15 anos. Inspirado em Kaleo, filho autista do casal, o projeto começa com Magic: The Gathering, em encontros presenciais no Museu da Imagem e do Som. Com 32 kits e apoio da Lei Paulo Gustavo, atenderá dois grupos de 16 participantes. A meta é estimular raciocínio, convivência e pertencimento, com possível expansão para RPG e jogos de tabuleiro.
Batizada de Guilda da Diversão, a iniciativa é voltada ao público de 9 a 15 anos e propõe encontros presenciais para desenvolver habilidades como raciocínio lógico, interpretação de textos e tomada de decisões. Mais do que ensinar as regras de um jogo, a intenção é oferecer um espaço onde os participantes possam conversar, conhecer outras pessoas e construir amizades longe das telas.
A ideia nasceu da experiência da família. Raíza e Eduardo têm 2 filhos, e o mais velho, Kaleo, é autista. Ao acompanhar a dificuldade do menino para criar vínculos, a mãe começou a perceber a importância de encontrar ambientes nos quais ele pudesse participar das atividades sem precisar esconder suas características.
“O nosso filho mais velho é autista. Então, assim, ele tem uma certa dificuldade de criar amizades, de criar vínculos”, contou. A convivência da família com pessoas que frequentam espaços dedicados aos jogos também mostrou que esses encontros poderiam reunir participantes de diferentes idades e perfis.
A percepção ficou ainda mais forte quando Raíza escreveu um livro sobre o autismo do filho, lançado em julho deste ano por meio de um edital cultural. A obra apresenta a experiência a partir do olhar da criança, com histórias que a mãe procurou reconstruir considerando a maneira como Kaleo percebe o mundo.

O trabalho teve atividades de leitura na AMA (Associação de Pais e Amigos dos Autistas) e contrapartida cultural no Sesc Teatro Prosa. Durante a escrita, ela percebeu que a necessidade de fazer parte de um grupo aparecia em diferentes momentos da vida do menino.
“Quando eu escrevi o livro, foi algo incrível, porque eu me coloquei no lugar dele, peguei as histórias da cabecinha dele e fui tentando narrar a parte da visão dele. Só que eu vi que ele tinha essa necessidade de ter amigos e de ter um grupo, pertencer, esse sentimento de pertencimento”, relatou.
Além do DnD - A observação também se estendeu à filha mais nova, de 9 anos, que não é autista, mas demonstra a mesma vontade de encontrar pessoas com interesses semelhantes. “Eu entendi que não só o meu filho, e também não só por ser autista, tinha essa necessidade. A minha filha mais nova tem 9 anos, ela não é autista e também tem esse sentimento de querer pertencer a um grupo.”
Foi a partir dessa experiência que surgiu a Guilda da Diversão, idealizada por Raíza e Eduardo, com a participação de Gabriel na produção executiva. O projeto foi estruturado na área da cultura geek, por meio de edital ligado à Lei Paulo Gustavo, e escolheu o jogo de cartas Magic: The Gathering como primeira atividade.

Nele, cada participante monta um baralho, chamado de deck, com cartas que representam criaturas, habilidades e recursos. Para jogar, é necessário elaborar estratégias, interpretar as informações e decidir como usar as cartas em cada rodada.
Segundo Raíza, a escolha não foi por acaso. O jogo reúne personagens e histórias de fantasia, com vampiros, sereias, dinossauros e outros elementos que despertam a imaginação. Ao mesmo tempo, exige atenção às regras e às decisões do adversário. “É um jogo extremamente estratégico, em que você precisa da estratégia para montar o seu deck. Tem que ter um raciocínio rápido na hora de jogar”, explicou.
Ela também destaca que os participantes aprendem a lidar com derrotas e a reconhecer as conquistas dos colegas. “Tem isso de não se frustrar perdendo, de você ficar feliz pelo seu amigo porque ele está ganhando, porque ele também demorou um tempo para montar o deck dele.”
A proposta vai além das partidas. Raíza acredita que os jogos podem contribuir para o aprendizado de matemática, português e inglês, além de estimular a interpretação de textos, a percepção e a criatividade. A faixa etária escolhida também está relacionada à preocupação com o tempo que crianças e adolescentes passam diante de celulares e computadores.

“A tecnologia, por mais que ajude, em excesso acaba tirando um pouco dessa imaginação que as crianças tinham”, avaliou. Para ela, a intenção não é afastar os participantes da tecnologia, mas mostrar que existem outras formas de diversão e convivência.
Para colocar a ideia em prática, os organizadores prepararam 32 kits com cartas, caixas para guardar os baralhos e dados utilizados nas partidas. A intenção inicial era comprar conjuntos lacrados para que cada criança abrisse as cartas e montasse seu próprio baralho. No entanto, a dificuldade de encontrar edições recentes em português levou a equipe a selecionar cartas de coleções anteriores.
A gente queria só cartas em português e, infelizmente, a Wizards não faz mais cartas em português, só em inglês”, explicou Raíza. A escolha levou em consideração a idade dos participantes e a necessidade de facilitar o entendimento das regras durante as primeiras atividades.
O projeto prevê encontros no Museu da Imagem e do Som, durante a semana do Saco Cheio, além de uma atividade de contrapartida cultural. Conforme a organização, a equipe atenderá 2 grupos de 16 participantes. A preparação contou com o apoio da loja X-Store, de Campo Grande, administrada por Paulo e Jennifer, que ajudaram a conseguir cartas e materiais por preços mais acessíveis.
“Eu tive todo o cuidado de deixar o mais lúdico possível, como se fosse para mim ou para os meus filhos”, afirmou Raíza. Eduardo, formado em Educação Física e pós-graduado em Educação Especial, será responsável por conduzir as atividades.
A preocupação com a inclusão também aparece na organização das inscrições. Os responsáveis pelas crianças puderam informar se os participantes são autistas, precisam de algum tipo de apoio, necessitam de intérprete de Libras ou apresentam restrições alimentares.
Segundo Raíza, essas informações foram solicitadas para preparar o acolhimento e os lanches. “A gente quis que fosse extremamente acolhedor. Quando abrimos as inscrições, perguntamos se teria algum autista, alguém que precisasse de apoio, de suporte, se precisaria de intérprete de Libras, se alguém tinha alergia”, explicou. Ela contou que, entre os inscritos, já havia outras 3 crianças autistas, além de Kaleo.

A mãe também encontra motivação ao observar o filho em campeonatos de videogame, especialmente de Super Smash Bros., dos quais ele costuma participar com outros jogadores. Mesmo sem vencer as disputas, Kaleo demonstra satisfação por estar entre pessoas que compartilham o mesmo interesse.
“Ele nunca ganha, mas não se importa. Porque o importante para ele é estar ali”, contou Raíza. Para ela, essa experiência resume o que pretende oferecer às outras crianças: a oportunidade de participar de um grupo sem que o resultado de uma competição seja mais importante do que a convivência.
Se a primeira etapa funcionar como esperado, os organizadores pretendem ampliar a Guilda da Diversão para outras modalidades, como RPG (jogo de interpretação de personagens) e jogos de tabuleiro. No RPG, os participantes criam personagens e histórias coletivamente, utilizando a escrita, a leitura, a imaginação e o diálogo para tomar decisões. Raíza considera que essa modalidade pode facilitar a continuidade do projeto, já que exige menos investimento em materiais.

“O RPG não tem necessidade de gastar. É só papel, um livro, que, se você não tiver físico, pode procurar na internet e usar a internet para algo bom”, afirmou.
Para Raíza, o principal resultado esperado não está nas habilidades desenvolvidas durante as partidas, mas nas relações que podem continuar depois dos encontros. Ela espera que os participantes mantenham contato, formem grupos de amigos e encontrem outras oportunidades de convivência.
“A nossa ideia era criar um espaço seguro e bom, educativo e divertido para eles terem esse sentimento de pertencimento”, resumiu. “Eu me senti útil, sabe? Não só mãe, mas senti que poderia fazer a diferença, mostrar o caminho para esse pertencimento, mostrar que eles podem se encaixar, que têm um lugar de fala e um lugar de conforto".
A Guilda da Diversão terá suas primeiras atividades durante a semana do Saco Cheio, em outubro, no MIS (Museu da Imagem e do Som), em Campo Grande. O projeto prevê dois dias de oficinas com o jogo de cartas Magic: The Gathering, voltadas a crianças e adolescentes de 9 a 15 anos.
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