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Diversão

Questão racial é tema de três das quatro escolas no 2° dia desfile de escolas

Renato Teixeira e cultura caipira também foram temas do enredo de uma das escolas, a Deixa Falar

Por Lucas Mamédio | 26/02/2020 07:19
Carro alegórico da Vila Carvalho que fala sobre sobre Preto Velho. (Foto: Paulo Francis)
Carro alegórico da Vila Carvalho que fala sobre sobre Preto Velho. (Foto: Paulo Francis)

A cultura africana e a questão racial como um todo tomaram conta dos enredos das escolas de samba no segundo dia de desfile na noite desta terça-feira (25) e parte da madrugada desta quarta (26). Única escola com outro tema nesse último dia homenageou o músico Renato Teixeira e a cultura caipira de Mato Grosso do Sul.

Segundo a Guarda Civil Municipal, cerca de quatro mil pessoas estiveram presentes na Praça do Papa para acompanhar o desfile das quatro últimas escolas deste Carnaval. Foram elas: Igrejinha Unidos da Vila Carvalho, Deixa Falar e Catedráticos do Samba.

A primeira escola, Igrejinha, entrou na passarela com pouco mais de uma hora de atraso. O horário de início, agendado para às 19h30, foi às 20h40 nas verdade.

Ela trouxe, em suas oito alas, como enredo “Escute o trovão, é Xangô chegando”, uma homenagem a Xangô, conhecido como Deus do Trovão em várias religiões afro-brasileiras. “Xangô foi uma escolha ousada, que causou alguns problemas, mas falamos de algo que já faz parte de nós, e é um tema muito bonito feito pela diretoria da escola”, explica Marisa Fontoura, presidente da Igrejinha.

Responsável pela comissão de frente da escola, o Grupo de Teatro Imaginário Maracangalha tentou traduzir em toda sua coreografia a universalidade e o poder desse Orixá, o Xangô, inclusive por meio dos elementos como água, fogo, terra e ar.

Também da comissão de frente, a artista Nilce Maciel ficou, entre preparação e desfile, cerca de duas horas de perna de pau. “Essa foi minha primeira vez desfilando e por mais que a gente ensaie, aqui tudo é diferente, a energia é outra”.

Marisa ainda diz em tom de desabafo que apesar das dificuldades, o desfile da escola é feito com amor, pela e para comunidade. “Foi um desfile muito prejudicado por toda essa questão da falta de repasses do poder público”.

Foliões na passarela da Unidos da Vila Carvalho (Foto: Paulo Francis)
Foliões na passarela da Unidos da Vila Carvalho (Foto: Paulo Francis)
Marisa Fontoura ficou feliz apesar das dificuldades (Foto: Paulo Francis)
Marisa Fontoura ficou feliz apesar das dificuldades (Foto: Paulo Francis)
Nilce, à esquerda, ficou duas horas em cima de uma perna de pau (Foto: Paulo Francis)
Nilce, à esquerda, ficou duas horas em cima de uma perna de pau (Foto: Paulo Francis)

Em seguida, para defender o título de 2019, foi a vez da Unidos da Vila Carvalho entrar na avenida com enredo “Carvalho com consciência negra”, também fazendo um apelo a questão racial.

Todas as alas faziam referência a personagens ou aspectos importantes da cultura negra no Brasil e no mundo. O presidente José Carlos Carvalho saiu satisfeito da passarela. “Não sei se gostaram, mas só sei que de onde eu estava a Unidos da Vila Carvalho foi perfeita tecnicamente”.

Nós já contamos aqui no Lado B a história do empresário Jean Pierre Michel, primeiro rei de bateria de Campo Grande. Depois de toda expectativa, ele conta como foi fazer história no Carnaval da Capital. “Foi uma emoção única, tenho vários anos de samba, mas se não tivesse essa bateria atrás de mim, nada faria muito sentido hoje”.

Renato Teixeira foi o homenageado da Deixa Falar (Foto: Paulo FRancis)
Renato Teixeira foi o homenageado da Deixa Falar (Foto: Paulo FRancis)

Fugindo um pouco da temática racial, mas ainda falando sobre culturas, a Deixa Falar escolheu o enredo “Tocando em frente, sou caipira pira pora", em homenagem ao cantor e compositor Renato Teixeira.

Com 70 pessoas na bateria e coordenada pela mestre Nayara Thomas, a Deixa Falar tentou mostrar em suas nove alas tudo que envolve a cultura do campo, do homem sertanejo, de raiz.

Renato Teixeira, o homenageado veio no último carro alegórico. Na saída, emocionado, já desceu do carro dizendo “é campeão”. “Pra mim foi muito emocionante, eu não tenho nem palavra pra falar sobre isso”, completou o músico.

Renato também chama a atenção, diante de um dia com temas tão semelhantes, sobre a importância de o Carnaval abranger tudo e todos. “Estou lembrando aqui do meu amigo Almir Sater, que fez uma revolução com sua viola caipira, levando nossa cultura pra tanta gente diferente. Então Isso aqui é uma conquista”.

A chuva que tinha aparecido bem leve no finzinho do desfile da Deixa Falar, desabou na vez da Catedráticos do Samba entrar na passarela. A maioria das pessoas que estava na arquibancada foi embora nesse momento.

Na chuva, Leonardo não perde a animação apoiar a Catedráticos do Samba (Foto: Paulo Francis)
Na chuva, Leonardo não perde a animação apoiar a Catedráticos do Samba (Foto: Paulo Francis)
Maria Ocampos chorando ao ver sua escola terminar o desfile (Foto: Paulo Francis)
Maria Ocampos chorando ao ver sua escola terminar o desfile (Foto: Paulo Francis)

Não foi o caso de Leonardo Bastos, que mesmo sob forte chuva dançou e incentivou a escola até o fim. “A escola é maravilhosa, o enredo é maravilhoso, tenho que ficar”.

“Um Brasil de três raças, mistério da nossa trindade, de onde no canto do Brasil, nascemos no retumbante som de felicidade, nossa forja, os matizes, nossa trindade sagrada, nosso orgulho, nossa glória, nossa existência", esse é o enredo citado por Leonardo.

O enredo abordou todo esse sincretismo racial do Brasil, que é resultado basicamente da trindade: indígenas, negros e europeus.

Numa cena quase poética, a presidente, Marilene Pereira de Barros, acompanhou a metade final do desfile atrás de toda a escola, debaixo de chuva e chorando de olhos fechados, como se não houvesse mais o que ser feito, mas ainda existisse o que ou quem agradecer.

“É tudo muito difícil pra gente, estou emocionada só de por essa escola na avenida, isso aqui é minha vida”, afirma Marilene. O desfile acabou por volta das duas horas da manhã.

Segundo a Guarda Municipal não houve incidentes durante o desfile.

Apuração – O resultado oficial do desfile das escolas de samba de Campo Grande serão conhecidos a partir das 16h desta quarta-feira (26), no Teatro Arena do Instituto Mirim, ao lado do Horto Florestal na Vila Carvalho.

Confira a Galeria de Imagens: