Com focaccia e galleta, padeiro resgata sabores do Paraguai
Após vender salgados em carriola, profissional recomeça com receitas do Brasil e do país vizinho
Não é preciso atravessar a fronteira para encontrar chipa, sopa paraguaia, coquito e outras receitas do país vizinho em Campo Grande. Desde 2 de outubro, esses sabores dividem espaço com coxinha, risoles e outros salgados brasileiros na Panificadora do Paraguai, no Bairro Noroeste. Por trás do balcão está a família de Emerson Fernandes Duarte e Rosely Rodrigues da Silva, que transformou em negócio uma história marcada pela ligação com o Paraguai e por sucessivos recomeços.
RESUMO
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A Panificadora do Paraguai, aberta em 2 de outubro no Bairro Noroeste, em Campo Grande, mistura chipa, sopa paraguaia e coquito a salgados brasileiros. O negócio é do padeiro paraguaio Emerson Fernandes Duarte e da esposa, Rosely Rodrigues da Silva, que recomeçam após fechar uma padaria. A estreia atraiu clientes de vários bairros. Salgados custam a partir de R$ 8. Funciona na Rua Vaz de Caminha, 1756, de segunda a sábado, das 5h30 às 19h, e aos domingos até 11h.
Emerson nasceu no Paraguai e chegou ao Brasil em 1998, quando tinha cerca de 20 anos. O apelido que ganhou por aqui acabou, décadas depois, dando nome ao novo negócio. “Todo mundo me conhece como Paraguai. Até as pessoas me chamam só de Paraguai, não me chamam pelo nome. Aí pensei em fazer alguma coisa diferente e falei: ‘Vou colocar Padaria do Paraguai’”, conta. A ideia começou quase como brincadeira em uma conversa com um dos filhos. “A gente falava: ‘Será que vamos abrir? Vamos abrir?’. Nem dinheiro tinha”, lembra.
Agora, o recomeço ganhou tempero paraguaio. Emerson prepara chipa, sopa paraguaia, coquito, palitos, bolachas e versões de salgados encontrados no país vizinho. Entre eles está um pastel cujo recheio e preparo, segundo ele, são diferentes dos encontrados normalmente no Brasil. Há ainda receitas que não chegaram ao balcão, mas já são cobradas pelos clientes, como um pastel feito com mandioca. “Tem muita coisa ainda para lançar. As pessoas pedem e eu tenho que fazer”, diz.
Entre as fornadas, Emerson também prepara focaccia e galleta, produtos que ajudam a compor a mistura entre sabores brasileiros e paraguaios proposta pela família. A focaccia feita por ele leva presunto, muçarela e pimentão. “Os produtos são do Brasil também. A focaccia é com presunto e muçarela por cima e também pimentão”, explica o padeiro.
Já a galleta entra no lado paraguaio do balcão e ganhou um toque próprio de Emerson. “A galleta é o pão do paraguaio, toma com café de manhã cedo. Essa receita é autoral, eu adaptei. Uso erva-doce na receita”, conta.
A intenção é justamente não limitar a vitrine a um dos lados da fronteira. “Por que não misturar o Brasil com o Paraguai?”, recorda Rosely sobre a ideia que ajudou a definir o negócio. A família admite que, no início, tinha receio da reação dos brasileiros diante dos sabores menos conhecidos. “Nós achávamos que não aceitariam muito as comidas, mas foi bem aceito”, diz.

Reconhecimento paraguaio - A resposta na inauguração surpreendeu até quem já passou décadas atrás de balcões de padaria. Segundo Rosely, clientes de diferentes bairros foram até o Noroeste conhecer o negócio e a produção terminou antes do previsto. “Eu não esperava isso. Nunca tínhamos vivido uma coisa assim, nem nas padarias onde ele trabalhava. Vieram muitas pessoas de fora, não só daqui do Noroeste”, relata.
Parte dos visitantes queria conversar com Emerson em guarani, tirar fotos e conhecer de perto a história do padeiro. O movimento também mostrou à família que havia interesse por um espaço dedicado aos sabores paraguaios. “Tinha muita gente querendo falar em guarani, conversar e se apresentar. Nós realmente não esperávamos”, lembra Rosely.
Por enquanto, a ordem é crescer sem atropelar o forno. A família quer observar o que os clientes pedem antes de acrescentar novos produtos, principalmente porque ainda enfrenta dificuldade para encontrar mão de obra. A ideia é ampliar a variedade aos poucos, conforme a estrutura do negócio permita.
Depois do isopor, da carriola, do trailer, da primeira padaria e do fechamento, Emerson prefere enxergar a nova fase não como uma estreia, mas como outro capítulo. “Não estamos começando do zero, estamos começando de novo. Dessa vez, começamos com experiência. Tudo o que vivemos e aprendemos trouxe a gente até aqui.”
História da família - A relação de Emerson com a panificação começou muito antes da chegada a Mato Grosso do Sul. Aos 12 anos, ainda no Paraguai, ele começou a trabalhar como padeiro e seguiu no ofício até se mudar para o Brasil. Foi justamente quando chegou a Campo Grande que conheceu Rosely. Ele alugou uma casa em frente à residência da família dela. Rosely tinha 16 anos e Emerson, cerca de 20. “A gente se conheceu e eu acreditei no sonho dele. Estamos aí até hoje”, resume ela.
O sonho nem sempre teve balcão, vitrine ou endereço próprio. Em 2015, Emerson vendia salgados na região das Três Barras por R$ 1 cada. Quando não tinha veículo para transportar a produção, colocava o isopor em uma carriola e seguia para o ponto de venda. “Muitas vezes eu não tinha condições, nem carro, para trazer o salgado. Então colocava tudo na carriola, o isopor, e vinha trabalhar. Era simples e, ao mesmo tempo, difícil”, recorda.
Confira a galeria de imagens:
Dois anos depois, em 2017, a família conseguiu abrir um trailer no Tiradentes. Depois veio a primeira padaria, mas o negócio precisou fechar. Emerson voltou, então, ao trabalho que conhecia desde menino. “Depois que fechei a padaria, voltei a fazer o que fazia há 30 anos: ser padeiro. Me organizei, comecei tudo do zero e tentei novamente”, relata.
Para Rosely, o fechamento não apagou o caminho percorrido. Pelo contrário, virou parte da experiência levada para a nova tentativa. “Hoje conseguimos olhar para trás e entender que tudo aquilo também fazia parte da nossa história”, diz.

Os preços variam, os salgados são a partir de R$ 8 e o quilo do coquito é a partir de R$ 8 também. A panificadora está localizada na Rua Vaz de Caminha, nº 1756, Bairro Noroeste, com os horários de atendimento de segunda a sábado, das 5h30 às 19h, e domingo, das 5h30 às 11h.
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