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Meio Ambiente

El Niño ganha força no Pacífico em meio a cheias de rios em MS

Aquecimento é o 2º maior para setembro desde 1950; pesquisador explica relação com tempestades e inundações

Por Inara Silva | 15/10/2026 15:24

O El Niño ganha força no Pacífico em um outubro marcado por cheias dos rios Miranda, Taquari, Dourados e Apa em Mato Grosso do Sul. Nesta quinta-feira (15), o índice CDAS (Sistema de Assimilação de Dados Climáticos) apontou a temperatura da superfície do mar 2,64 °C acima da média na região Niño 3.4, uma das principais áreas de monitoramento do fenômeno. Segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), a anomalia mensal de setembro foi de 2,08 °C, a segunda maior para o mês desde 1950, atrás apenas de setembro de 1997, com 2,15 °C. O aquecimento pode favorecer temporais no Estado, mas sua relação com cada cheia depende da análise das chuvas e das características de cada bacia hidrográfica.

RESUMO

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O El Niño se intensifica no Pacífico em um outubro de cheias dos rios Miranda, Taquari, Dourados e Apa, em Mato Grosso do Sul. Nesta quinta-feira (15), o índice CDAS apontou temperatura do mar 2,64 °C acima da média na região Niño 3.4. Segundo o Inmet, a anomalia de setembro foi de 2,08 °C, a segunda maior desde 1950. O pesquisador Thiago Rangel, da UFMS, afirma que o fenômeno pode favorecer temporais, mas cada cheia exige análise própria das chuvas e das bacias, e não comprova mudança duradoura no clima.

A distinção é feita por Thiago Rangel, coordenador do Observatório Meteorológico da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). Ele explica que o fenômeno modifica a circulação atmosférica em escala continental e interfere na distribuição das chuvas, da umidade e das temperaturas. As causas imediatas de uma tempestade ou da elevação de um rio, porém, precisam ser investigadas em cada episódio.

“O fenômeno pode contribuir para o cenário climático, mas precisamos analisar cada evento para determinar quais fatores tiveram maior influência”, afirma.

Em boletim publicado em 13 de outubro, o Inmet informou que a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 ficou 2,08 °C acima da média em setembro. O valor só foi superado, na comparação com o mesmo mês da série histórica, por setembro de 1997, quando a anomalia chegou a 2,15 °C.

No acompanhamento semanal de outubro, o indicador alcançou 2,4 °C. O próprio instituto ressalta que valores semanais e mensais representam intervalos diferentes e exigem cautela na comparação.

Esses números expressam quanto a água está mais quente em relação à referência climatológica, e não sua temperatura absoluta. A região Niño 3.4, no Pacífico Equatorial, é uma das principais áreas utilizadas para acompanhar o fenômeno.

El Niño ganha força no Pacífico em meio a cheias de rios em MS

Aquecimento e projeções -  O indicador apresentado por Rangel, o gráfico CDAS Niño 3.4 disponibilizado pelo Tropical Tidbits, registrava anomalia de aproximadamente 2,64 °C às 6h de 15 de outubro. Na curva enviada pelo pesquisador, os valores permanecem acima de 2°C desde o início de agosto.

Para os próximos meses, simulações do modelo CFSv2, do CPC (Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos), ligado à NOAA, apontam a possibilidade de anomalias próximas de 3 °C a 3,5 °C. O gráfico apresentado pelo pesquisador, atualizado em 13 de outubro, concentra os valores mais elevados perto de novembro, com redução posterior.

“O que chama a atenção neste episódio é a velocidade de intensificação e a magnitude que os modelos estão projetando”, afirma Rangel. Ele ressalta, entretanto, que o pico ainda é uma previsão.

“É importante ressaltar que esses valores são projeções e que ainda existe incerteza quanto à intensidade máxima que será efetivamente observada.”

O pesquisador cita o El Niño de 2015–2016 como um dos mais intensos da série histórica moderna, mas adverte que qualquer comparação deve utilizar o mesmo índice, a mesma região oceânica e o mesmo método de cálculo.

Por que os rios sobem - Em Mato Grosso do Sul, a elevação dos rios Miranda, Taquari, Dourados e Apa coloca em evidência a resposta das bacias às chuvas recentes. As cheias geralmente ocorrem no verão por conta do acúmulo de chuvas. No entanto, o pesquisador explica que o calendário não é fixo.

“Um rio pode transbordar fora desse período quando uma sequência de chuvas intensas atinge sua bacia hidrográfica.”

Conforme Rangel, a primavera marca o retorno mais frequente das chuvas após a estação seca. Quando essa retomada ocorre com precipitação intensa e concentrada, os cursos d’água podem responder rapidamente. Parte da chuva infiltra no solo e parte escoa até córregos e rios. Se o terreno já estiver úmido ou se a intensidade da precipitação superar sua capacidade de absorção, aumenta o volume de água que chega aos cursos d’água.

No caso do Miranda, cuja cheia foi considerada fora de época pela Defesa Civil, Rangel destaca a necessidade de observar a chuva acumulada em toda a bacia. O que acontece no trecho que atravessa um município também depende da água recebida a montante, nas cabeceiras e nos afluentes.

“O El Niño pode estar influenciando o contexto climático, mas não é possível atribuir exclusivamente a ele a elevação do rio sem uma análise conjunta dos dados meteorológicos e hidrológicos.”

Estes impactos já tiveram reflexo na vida dos moradores, como é o caso de Bela Vista, na fronteira com o Paraguai, onde famílias ribeirinhas foram retiradas de suas casas durante a cheia do Apa.

Temporais - Segundo Rangel, as chuvas intensas resultam da combinação de mecanismos como frentes frias, áreas de baixa pressão, cavados atmosféricos e transporte de umidade. Quando esses sistemas encontram uma atmosfera quente e úmida, podem favorecer nuvens de grande desenvolvimento vertical, chuva intensa, descargas elétricas e rajadas de vento.

O El Niño ajuda a compreender o contexto climático em que esses sistemas atuam, mas não substitui a análise meteorológica de cada tempestade. A distribuição da chuva também não é uniforme. Uma bacia pode apresentar elevação dos rios enquanto outra região ainda registra precipitação insuficiente para recuperar a umidade do solo após a seca.

“O nível elevado de um rio não significa necessariamente que toda a região esteja com excesso de água”, explica o coordenador.

Para avaliar essas diferenças, é necessário cruzar os acumulados de precipitação com a umidade do solo, o balanço hídrico e os níveis dos rios. Os registros do Observatório Meteorológico da UFMS contribuem para esse acompanhamento em Campo Grande, mas não representam, isoladamente, todo o estado.

Outubro - Apesar das cheias e dos episódios intensos de chuva, Rangel considera prematuro concluir que houve uma alteração duradoura no regime climático de Mato Grosso do Sul.

“Os eventos registrados em outubro mostram que estamos tendo episódios importantes de precipitação e cheias fora do período mais habitual em algumas bacias, mas isso, isoladamente, não comprova uma alteração duradoura do regime climático.”

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