Cerrado perde cada vez mais vegetação em MS e põe em risco o futuro do Pantanal
Presente em mais de 62% do Estado, bioma lidera o desmatamento no Brasil
O Cerrado é responsável por abastecer a maior parte da água que sustenta o Pantanal. No entanto, o avanço do desmatamento e do uso intensivo do solo vem reduzindo esse fluxo hídrico e contribuindo para secas e incêndios cada vez mais severos. Especialistas alertam que as grandes queimadas atuais são, em sua maioria, provocadas por ação humana e que 2026 pode ser um ano crítico para o fogo, agravado por cortes no orçamento federal destinado à prevenção ambiental.
RESUMO
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O Cerrado, responsável por abastecer a maior parte da água que sustenta o Pantanal, enfrenta graves ameaças devido ao avanço do desmatamento e uso intensivo do solo. Em Mato Grosso do Sul, onde o bioma ocupa 62% do território, apenas 25% da vegetação nativa permanece preservada. O bioma perdeu mais de 1,1 milhão de hectares em 2024, representando 61,9% do desmatamento no Brasil. Especialistas alertam que 2026 pode ser um ano crítico para incêndios florestais, agravado por cortes de 65% no orçamento federal destinado à prevenção ambiental. Apesar de sua importância ecológica, o Cerrado permanece negligenciado em políticas públicas e estudos ambientais.
Em Mato Grosso do Sul, o Cerrado é o principal bioma do Estado. São cerca de 22,2 milhões de hectares, o equivalente a mais de 62% do território sul-mato-grossense, presentes em 62 dos 79 municípios. Apesar da grande extensão, apenas cerca de 25% dessa área ainda mantém vegetação nativa. O restante foi convertido para agricultura, pastagens e outros usos humanos.
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Abastecimento do Pantanal - Segundo a professora Isabel Belloni Schmidt, pesquisadora do bioma há mais de 25 anos, o Cerrado é fundamental para o funcionamento hídrico do Pantanal. Doutora em Ecologia Vegetal, Isabel atua no Departamento de Ecologia da UNB (Universidade de Brasília).
De acordo com estudos, cerca de 136% da água que entra no Pantanal vem do Cerrado. Ou seja, o bioma entrega mais água do que recebe de volta pelas bacias dos rios.
“Toda a água do Pantanal vem do Cerrado. O desmatamento e o uso intensivo da água subterrânea reduzem a infiltração no solo e afetam diretamente a chegada de água ao Pantanal”, explica. Essa redução está ligada à diminuição das áreas alagadas, às secas mais frequentes e ao aumento dos incêndios florestais.
Avanço da agropecuária - A conversão de áreas nativas para a agropecuária é apontada como uma das principais causas da degradação. Além do desmatamento, o uso intensivo de água para irrigação, especialmente de aquíferos subterrâneos, compromete o equilíbrio hídrico da região.
O professor Denilson Guilherme, coordenador do Programa Agroambiental da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco) destaca que o manejo inadequado do solo e do fogo na pecuária e na agricultura agrava os riscos ambientais.
“Se o uso do fogo não for feito de forma responsável, perde-se o controle rapidamente. A propagação no Cerrado é muito rápida por causa do vento, da vegetação rasteira e da seca prolongada”, afirma.
Desmatamento - Os dados mais recentes do RAD (Relatório Anual do Desmatamento no Brasil) confirmam a pressão sobre o bioma. Em 2024, o Cerrado perdeu 1.144.225 hectares de vegetação nativa, o que representa 61,9% de todo o desmatamento registrado no país no período. O número é superior ao da Amazônia e indica aumento de 3,1% em relação a 2023.
Além disso, o Cerrado apresenta a maior velocidade média de desmatamento entre todos os biomas brasileiros.
Mato Grosso do Sul segue entre os mais afetados. O Estado registrou 54.896 hectares de Cerrado desmatados em 2024, ocupando a 9ª posição no ranking nacional. Nos últimos anos, os números seguem elevados:
- 2019: 46.208 hectares
- 2020: 55.452 hectares
- 2021: 52.417 hectares
- 2022: 44.912 hectares
- 2023: 56.634 hectares
Mesmo com leve queda em 2024, o Estado respondeu por cerca de 3% de todo o desmatamento do Brasil no último ano.
Incêndios naturais - De acordo com a professora Isabel Belloni Schmidt, o Cerrado e o Pantanal são biomas naturalmente propensos ao fogo, principalmente por raios durante a transição entre a seca e o período chuvoso. No entanto, os grandes incêndios atuais ocorrem, em sua maioria, por ação humana.
“O uso do fogo durante o auge da seca, quando a vegetação está muito seca, a umidade é baixa e os ventos são fortes, alimenta incêndios de grandes proporções”, explica.
Embora áreas abertas do Cerrado sejam mais adaptadas ao fogo, regiões florestais são extremamente sensíveis, como as áreas de matas de galeria, capões de mata e florestas secas.
Nesses locais, os incêndios causam grande perda de biodiversidade, morte de plantas e animais, erosão do solo e assoreamento de rios. A professora explica que no Pantanal, o impacto pode ser ainda maior, com incêndios subterrâneos que queimam raízes e impedem a regeneração natural da vegetação.
Cenário para 2026 - A pesquisadora alerta que 2026 se desenha como um ano de alto risco climático para o fogo, com condições semelhantes às de 2024. O problema é agravado por cortes no orçamento federal destinados à prevenção e ao combate aos incêndios florestais, que chegam a cerca de 65%.
Relatório divulgado pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), em janeiro, confirma esta tendência. A maior parte dos municípios de Mato Grosso do Sul em atenção para as queimadas, no primeiro trimestre de 2026, está localizada no bioma Cerrado. São 36 cidades de Norte a Sul do Estado, incluindo áreas de pressão antrópica (ação do homem), fronteira agrícola e eixo florestal de silvicultura e agricultura intensiva.
Apesar de parecer contraditório, a melhor forma de evitar grandes incêndios é o uso controlado do fogo.Essa técnica faz parte do MIF (Manejo Integrado do Fogo), que prevê queimadas planejadas, de baixa intensidade e em períodos adequados.
O método já é aplicado há mais de 10 anos em áreas federais, como unidades de conservação e terras indígenas, e foi regulamentado pela Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo em julho de 2024.
Segundo os pesquisadores, onde o manejo é feito corretamente, os incêndios diminuíram.
Políticas ambientais - Além da pressão ambiental, segundo a pesquisadora, o bioma sofre com falta de atenção pública. A professora Isabel explica que florestas tropicais, como a Amazônia, e o Pantanal recebem mais visibilidade por serem considerados mais “bonitos” e por estarem previstos na Constituição como patrimônios nacionais.
Enquanto isso, o Cerrado, apesar de ser a savana mais biodiversa do mundo e o bioma mais desmatado do país, permanece em segundo plano.
Bioma negligenciado - Um estudo internacional do qual a professora Isabel participou identificou essa invisibilidade. Liderado pelo professor Fernando Silveira, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), com pesquisadores do Brasil, Reino Unido, Austrália, Estados Unidos, França e África do Sul, o grupo criou o conceito de “Disparidade de Consciência dos Biomas”, que mostra como a restauração ambiental e as políticas públicas priorizam florestas, enquanto biomas abertos como o Cerrado são negligenciados.
A análise de milhares de publicações de instituições ligadas à ONU (Organização das Nações Unidas) e da mídia científica mundial, o grupo constatou que a maior parte da atenção se concentra em florestas tropicais. Já savanas, campos naturais e arbustais, onde se inclui o Cerrado, aparecem muito menos, mesmo ocupando cerca de 40% das áreas tropicais e subtropicais do planeta
Cerca de 70% dos estudos de restauração ecológica analisados ocorreram em florestas, enquanto menos de 10% abordaram biomas abertos. Para os pesquisadores, essa distorção tem levado a práticas inadequadas, como o plantio de árvores em áreas que naturalmente não são florestais, o que pode prejudicar a biodiversidade e os serviços ambientais do Cerrado
“Enquanto a recuperação ambiental for tratada como sinônimo de reflorestamento, biomas como o Cerrado continuarão invisíveis e vulneráveis”, alerta a professora.
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