A educação ensinada em casa para em fila dupla na porta da escola
Não basta pagar a melhor escola quando o exemplo é o pior possível

O preço de uma boa educação nunca foi barato. Em Campo Grande, há famílias que desembolsam R$ 3 mil, R$ 4 mil ou até mais por mês para garantir aos filhos ensino de qualidade, idiomas, tecnologia, esportes e uma formação capaz de prepará-los para o futuro. É um investimento legítimo e admirável. O problema começa quando, ao chegar à porta da escola, alguns pais deixam toda essa preocupação com a educação estacionada do lado de fora.
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A cena se repete diariamente. Filas duplas ocupam ruas inteiras, motoristas param em locais proibidos, bloqueiam garagens, faixas de pedestres e pontos de ônibus. Muitos ligam o pisca-alerta, como se o simples ato de acionar uma luz transformasse uma infração em privilégio temporário. Outros justificam: "É só um minutinho".
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Não é.
Esse "minutinho" atrapalha o trânsito, aumenta o risco de acidentes, cria congestionamentos e, principalmente, ensina uma lição silenciosa às crianças. A de que regras existem para os outros. Que basta ter pressa ou conveniência para ignorá-las.
É uma contradição difícil de explicar. O pai que exige disciplina, respeito e honestidade do filho é o mesmo que desrespeita a sinalização poucos metros antes do portão da escola. A mãe que cobra educação e cidadania fecha a rua, impede a passagem de ambulâncias, ônibus e outros pais, porque acredita que sua necessidade é mais importante que a dos demais.
Nenhuma escola, por melhor que seja, consegue ensinar cidadania se ela é desmentida na calçada todos os dias.
Educação não acontece apenas dentro da sala de aula. Ela começa muito antes do primeiro sinal. A criança aprende observando. Aprende quando vê o pai respeitar uma fila, esperar sua vez, atravessar na faixa, tratar bem as pessoas e cumprir a lei mesmo quando ninguém está fiscalizando.
O exemplo vale mais que qualquer aula de ética.
Campo Grande precisa discutir essa cultura da impunidade cotidiana. Não se trata apenas de trânsito. Trata-se da maneira como a sociedade encara as regras de convivência. Pequenas infrações repetidas milhares de vezes alimentam a falsa ideia de que o espaço público não pertence a todos, mas apenas a quem consegue ocupá-lo primeiro.
As escolas também podem contribuir. Campanhas educativas, orientação às famílias e organização dos embarques e desembarques ajudam, mas não substituem a responsabilidade individual. A fiscalização do poder público também precisa existir, não para arrecadar multas, mas para proteger crianças e organizar um espaço que deveria ser, antes de tudo, seguro.
Talvez a pergunta mais importante seja outra: que tipo de cidadão um pai espera formar quando o primeiro ensinamento do dia é que vale a pena desrespeitar a lei por alguns segundos de comodidade?
A resposta não está na mensalidade da escola. Está no banco do motorista.

