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JULHO, QUARTA  22    CAMPO GRANDE 21º

Política

Quando o pisca-alerta vira licença para desrespeitar o trânsito

Aplicativos não podem transformar a cidade em ponto de parada

Por José Cândido | 22/07/2026 06:04
Quando o pisca-alerta vira licença para desrespeitar o trânsito
Motorista para em fila-dupla na Rua 14 de Julho, Centro da Capital (Foto: Osmar Veiga)

O transporte por aplicativo mudou a forma como as pessoas se deslocam. Trouxe praticidade, ampliou a concorrência e criou uma importante fonte de renda para milhares de trabalhadores. Em Campo Grande, como em praticamente todas as cidades brasileiras, Uber e outros aplicativos já fazem parte da rotina urbana. Mas junto com essa transformação surgiu um comportamento que vem sendo naturalizado e que merece ser debatido: a falsa ideia de que ligar o pisca-alerta autoriza parar em qualquer lugar.

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Motoristas de aplicativo em Campo Grande e em todo o Brasil adotaram o hábito de usar o pisca-alerta para justificar paradas irregulares em qualquer local, bloqueando o trânsito e colocando em risco pedestres e ciclistas. O Código de Trânsito não prevê exceções para esses veículos, e a prática aumenta o risco de acidentes. Passageiros, plataformas e o poder público compartilham a responsabilidade de mudar esse comportamento.

Em horários de pico ou em ruas movimentadas, a cena se repete diariamente. O motorista reduz a velocidade, aciona o pisca-alerta e estaciona em fila dupla, sobre a faixa de pedestres, na esquina, em frente a garagens ou no meio da pista para embarcar ou desembarcar passageiros. Quem vem atrás é obrigado a frear, mudar de faixa às pressas ou simplesmente esperar. O prejuízo coletivo passa a ser tratado como parte normal da paisagem urbana.

Não é.

O Código de Trânsito Brasileiro não criou uma exceção para veículos de aplicativo. As regras que valem para um motorista comum também valem para quem transporta passageiros por plataformas digitais. O pisca-alerta serve para sinalizar uma situação de emergência ou advertência, não para legitimar uma parada irregular.

É compreensível que o motorista queira atender rapidamente o cliente. Também é natural que o passageiro deseje embarcar exatamente onde está. O problema surge quando a conveniência individual se sobrepõe ao direito coletivo de circulação segura.

O impacto dessa prática vai muito além do pequeno atraso de quem ficou preso atrás do veículo parado. Ela reduz a fluidez do trânsito, aumenta o risco de colisões traseiras, provoca mudanças bruscas de faixa e coloca em perigo motociclistas, ciclistas e pedestres. Em muitos casos, basta um carro parado por poucos segundos em um ponto estratégico para comprometer toda a dinâmica de um cruzamento.

A responsabilidade, entretanto, não é apenas do motorista. O passageiro também precisa compreender que caminhar alguns metros até um local adequado de embarque ou desembarque faz parte da convivência urbana. Assim como ninguém espera que um ônibus pare fora do ponto ou que um táxi bloqueie uma avenida, o usuário do aplicativo também deve colaborar para que a viagem comece e termine com segurança.

Cabe ao poder público intensificar a fiscalização, principalmente nos locais onde essas ocorrências são frequentes, como escolas, hospitais, centros comerciais, bares e restaurantes. Mas nenhuma fiscalização será suficiente se não houver mudança de comportamento.

As próprias plataformas também podem contribuir. Os aplicativos dispõem de tecnologia suficiente para orientar usuários sobre pontos seguros de embarque, alertar motoristas sobre locais proibidos para parada e incentivar boas práticas de direção. Em cidades de maior porte, esse tipo de recurso já vem sendo utilizado com resultados positivos.

Campo Grande discute mobilidade, amplia corredores viários e busca melhorar a circulação de veículos. Porém, nenhuma obra resolverá um problema causado por atitudes que dependem apenas de educação, respeito e responsabilidade.

O trânsito funciona como um pacto coletivo. Cada motorista abre mão de uma pequena conveniência para que todos possam circular melhor. Quando alguém decide parar onde bem entende porque "é só um minutinho", transfere o custo dessa escolha para dezenas de outras pessoas.

O pisca-alerta ilumina o carro. Não ilumina o direito de desrespeitar as regras.