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Campo Grande, Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017

31/12/2010 08:54

Dourados vive em 2010 maior escândalo político já visto no Estado

Fernanda França

Primeiro escalão vai parar na cadeia e cidade terá eleição atípica

Em sua casa, confortavelmente de chinelos, Artuzi recebe R$ 10 mil oriundos de fraude. (Foto: Reprodução).Em sua casa, confortavelmente de chinelos, Artuzi recebe R$ 10 mil oriundos de fraude. (Foto: Reprodução).

A prisão do prefeito de Dourados, vice, vereadores, e de praticamente todo o primeiro escalão da administração municipal, marcou em 2010 o maior escândalo político já visto em Mato Grosso do Sul.

A operação “Uragano” (furacão em italiano), da Polícia Federal, revelou esquema gigantesco de fraudes em licitações, desvio de verbas públicas e pagamento de propina a vereadores.

Após meses de investigação e gravação de vídeos comprometedores, foram parar atrás das grades o prefeito Ari Artuzi, o vice, Carlinhos Cantor, o presidente da Câmara, Sidlei Alves e mais 8 dos 12 vereadores, além de secretários, assessores e empresários de Dourados.

Os videos que implodiram a administração municipal de Dourados foram gravados pelo então secretário de Governo, Eleandro Passaia, que era homem de confiança de Artuzi. Do dia 30 de maio ao dia 28 de julho, foram registradas mais de cem conversas.

Como era ele que fazia as negociações e repassava as propinas, teve acesso à toda sorte de flagrantes, sob orientação da Polícia Federal. Todas as gravações foram feitas sob acordo de delação premiada.

“O Ministério Público fez esta proposta de delação premiada ao colaborador como uma medida de cautela porque haveria a possibilidade dele se revelar envolvido em algum delito anterior a autorização judicial”, comentou o promotor de Justiça Paulo Zeni, responsável pelo caso.

A farra com o dinheiro público funcionava da seguinte forma: as licitações eram fraudadas e as empresas escolhidas de forma irregular “retornavam” no mínimo 10% do valor do contrato ao prefeito.

Nas conversas gravadas, também foram reveladas práticas de superfaturamento do valor de serviços e produtos, acordos para compra de votos dos vereadores e apoio ao prefeito Ari Artuzi.

O prefeito, aliás, aparece em uma das imagens mais chocantes gravadas pelo jornalista Eleandro Passaia. Sentado em uma cadeira de fio na varanda de sua casa, ele recebe R$ 10 mil, referente ao superfaturamento na compra de um terreno que seria destinado à construção de casas populares.

O dono do terreno foi inclusive ameaçado de desapropriação caso não topasse o negócio, conforme revela a investigação da PF.

Outra cena marcante envolve um dos vereadores corruptos, Zezinho da Farmácia, e ilustra como era paga a propina aos parlamentares de Dourados. Ao ver que a quantia de dinheiro recebido era maior do que ele esperava, Zezinho comemora efusivamente com as mãos pro alto.

O escândalo foi tão grande que as imagens foram parar nos principais jornais televisivos brasileiros.

O ex-prefeito Ari Artuzi ao ser preso. Noventa dias depois, ele renunciou.O ex-prefeito Ari Artuzi ao ser preso. Noventa dias depois, ele renunciou.

Atrás das grades- No dia 1º de setembro, 29 mandados foram expedidos. Artuzi foi preso em sua casa, onde a Polícia Federal apreendeu documentos e uma grande quantia em dinheiro.

Já a primeira-dama, Maria Aparecida de Freitas Artuzi, foi presa em Brasília, onde participava de evento sobre políticas públicas para a mulher.

Também foram parar atrás das grades o vice-prefeito, Carlinhos Cantor, o presidente da Câmara, Sidlei Alves, e os vereadores Aurélio Bonato, Edvaldo Moreira, Humberto Teixeira Junior, José Carlos Cimatti, Júlio Artuzi, Marcelo Barros, Cláudio Marcelo Hall, o próprio Zezinho da Farmácia e Paulo Henrique Bambu.

Há ainda dois vereadores, Gino Ferreira e Dirceu Longhi, que também são citados nas investigações como interessados em esquemas fraudulentos. Eles chegaram a ser ouvidos pela PF, mas não foram presos. Não há gravações deles recebendo dinheiro.

Secretários e funcionários da prefeitura também foram parar atrás das grades: Alziro Moreno (procurador-geral do Município), Tatiane Moreno (Secretária de Administração), Ignez Maria Medeiros (Secretária de Finanças), Dilson Cândido de Sá (Obras), Marco Aurélio de Camargo Areias (diretor do Hospital Evangélico), João Éder Kruger (controlador-geral do Município), Paulo Ferreira do Nascimento (assessor do prefeito), Thiago Vinícius Ribeiro (diretor do Departamento de Licitações) e Helton Olinski Farias (gestor de compras da prefeitura).

Os outros presos são Antônio Fernando de Araújo Garcia (dono de construtora), Geraldo Alves de Assis (funcionário de construtora); Carlos Gilberto Recalde (diretor de empreiteira), Sidnei Donizete Lemes Heredias (empresa de sonorização), José Antônio Soares, o Zeca do MS (proprietário de construtora) e José Roberto Barcelo, o JR (ex-chefe do setor de licitações).

Posteriormente, a maioria foi solta para responder aos processos em liberdade. Somente Artuzi, a primeira dama, Carlinhos Cantor e o presidente da Câmara continuaram presos.

Três dias depois das prisões, o juiz Eduardo Machado Rocha tomou posse interinamente como prefeito do município. Pouco mais de um mês, mais precisamente no dia 8 de outubro, Délia Razuk (PMDB), que havia anteriormente sido eleita presidente da Câmara, assumiu o comando da administração municipal.

Ela foi a única vereadora que não teve seu nome envolvido no esquema de corrupção.

Délia Razuk virou prefeita após a prisão de prefeito e vice.Délia Razuk virou prefeita após a prisão de prefeito e vice.

Renúncia - No dia 22 de outubro, Artuzi foi transferido para o presídio federal de Campo Grande. A medida visava garantir sua integridade física. A Secretaria de Justiça e Segurança Pública chegou a aventar a possibilidade de que adversários poderiam envenenar o alimento do preso, que já tinha passado pelo 1º e 3º DP e estava na sede do Garras.

A defesa do prefeito afastado tentou por várias vezes libertá-lo por meio de habeas corpus, mas sem sucesso.

Enquanto isso, ganhava força em Dourados a tese de novas eleições. No dia 1º de dezembro, após exatos três meses de cadeia, Ari Artuzi resolveu renunciar ao cargo, sendo acompanhado por Cantor e Sidlei Alves.

Como os acusados deixaram de oferecer risco à administração municipal, foram libertados um dia depois.

Já fora da cadeia, Artuzi negou as acusações e disse que "armaram" contra ele. Também afirmou que uma hora ou outra "a verdade vai aparecer".

"Estão falando um monte de mentiras. Acabaram com meus projetos e prejudicaram a cidade que eu estava tocando, mas vou provar que sou inocente”, afirmou.

Eleições extemporâneas - Antes da renúncia de Artuzi, comissões processantes foram montadas na Câmara, já renovada com a posse de suplentes, na tentativa de cassar seu mandato.

Porém, perderam o efeito a partir da atitude do ex-prefeito. Como ele renunciou antes de completar dois anos de mandato, a Justiça Eleitoral entendeu que novas eleições devem acontecer na cidade.

Elas estão marcadas para o dia 6 de fevereiro de 2011. Até o momento, três nomes já estão confirmados para a disputa: o professor Genival Antonio Valeretto (PMN), o micro-empresário José Araújo (PSOL) e o vice-governador Murilo Zauith (DEM), o mais bem colocado nas pesquisas.



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