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A submissão como valor intrínseco

Por Gilson Monteiro (*) | 23/09/2026 13:00

Usamos tanto algumas palavras que deixamos de prestar atenção ao que elas dizem. “Submissão” é uma delas. Submetemos artigos a periódicos, trabalhos a congressos, projetos a editais, resumos, relatórios, livros, capítulos e pedidos de financiamento. A palavra circula pela universidade como se significasse apenas um procedimento administrativo.

Mas submeter não significa apenas enviar. Significa também colocar sob julgamento, sujeitar à autoridade, fazer depender da decisão de alguém ou de alguma instância. Talvez não seja irrelevante que uma instituição que proclama autonomia, pensamento crítico, liberdade intelectual e emancipação tenha escolhido justamente esse verbo para designar um dos atos mais recorrentes da vida científica. Não proponho uma guerra contra uma palavra. Interessa-me o que ela revela.

A ciência precisa de crítica. Uma hipótese deve poder ser contestada. Um método precisa ser examinado. Dados devem ser confrontados. Argumentos precisam sobreviver ao contraditório. Resultados precisam ser discutidos e, quando necessário, refutados. Conhecimento que não admite contestação não é ciência. É dogma. Há problema quando submeter o conhecimento à crítica se confunde com submeter o pesquisador às estruturas de autorização e autoridade incrustadas nas várias instâncias de poder. São coisas profundamente diferentes. Posso apresentar uma ideia para que meus pares a tensionem, reconstruam ou rejeitem sem aceitar que determinada estrutura institucional possua o poder de decidir, por si só, se aquilo que produzi existe ou não como conhecimento relevante.

Um pesquisador pode passar meses ou anos investigando um problema e chegar a resultados relevantes. Ainda assim, é preciso publicar — e publicar no lugar certo. Começa outra ciência: descobrir quais periódicos, bases, indexadores, congressos, editoras, citações e indicadores contam.

Mudam os instrumentos de avaliação, mas uma pergunta sobrevive: como mediremos o tamanho da qualidade? Queremos comparar, ordenar e transformar qualidades complexas em grandezas administráveis. O conhecimento passa a precisar de um endereço — e o endereço passa a valer pelo conhecimento.

O artigo não é avaliado apenas pelo que contém: também carrega o prestígio do lugar onde conseguiu entrar. Periódico, congresso, editora, indexação e citação passam a funcionar como certificados. Critérios são necessários: há periódicos predatórios, congressos caça-níqueis e ambientes sem controle de qualidade. A questão é outra: em que momento o critério deixou de auxiliar a avaliação do conhecimento e começou a substituí-la? Há enorme diferença entre afirmar “este artigo é excelente e foi publicado em um periódico reconhecido” e dizer “este artigo deve ser excelente porque foi publicado em um periódico reconhecido”. A primeira afirmação avalia o conhecimento. A segunda avalia seu endereço.

A submissão, porém, não organiza apenas a circulação dos trabalhos científicos. Ela também educa pesquisadores. Desde cedo, quem entra na carreira acadêmica aprende que produzir conhecimento é também adequá-lo: escopo, template, limite de palavras, normas, linhas temáticas, descritores, idioma, formato, editais, indicadores, formulários, plataformas e métricas. Isoladamente, quase tudo pode ser justificado. O conjunto produz algo mais profundo: uma pedagogia da submissão.

O pesquisador aprende a antecipar o avaliador. Antes de escrever, imagina quem aceitará aquilo. Antes de formular completamente a pergunta, considere onde poderá publicá-la. Antes de terminar a pesquisa, calcula em quantos produtos poderá transformá-la. A pergunta “o que preciso investigar?” começa a disputar espaço com outra: “o que preciso produzir para que isso seja aceito?”.

Nesse ponto, submeter deixa de ser apenas procedimento. Torna-se pedagogia. Uma das competências mais sofisticadas desenvolvidas pela vida acadêmica passa a ser a capacidade de caber. Caber no edital. Caber na linha de pesquisa. Caber no escopo. Caber no formulário. Caber no template. Caber na métrica. Caber na classificação. Caber na expectativa. A universidade continua produzindo conhecimento extraordinário. Por isso, a questão é delicada: existe uma tensão estrutural entre criação e autorização.

O pesquisador bem-sucedido aprende não apenas a pesquisar. Aprende onde se submeter, quando se submeter, como se submeter e como aumentar a probabilidade de ser aceito. Podemos chamar isso de competência institucional. Mas cabe uma pergunta menos confortável: quanto daquilo a que chamamos qualidade científica pertence efetivamente ao conhecimento produzido e quanto pertence à capacidade de navegar corretamente pelos dispositivos que certificam essa qualidade?

Não é preciso imaginar conspirações. Sistemas sofisticados de poder raramente dependem de ordens explícitas. Basta construir mecanismos de recompensa suficientemente claros. Aquilo que pontua tende a ser produzido. Aquilo que conta tende a ser contado. Aquilo que financia tende a ser perseguido. Aquilo que melhora indicadores tende a tornar-se prioridade. Aquilo que não entra nas métricas corre o risco de tornar-se academicamente invisível.

A submissão mais eficiente talvez seja justamente aquela que já não precisa ser exigida porque foi incorporada. Chegamos, então, a uma contradição. A universidade reivindica autonomia, forma sujeitos críticos, defende liberdade intelectual e celebra pensamento independente. Ensina que o conhecimento nasce da dúvida, da contestação e da capacidade de perguntar aquilo que ainda não foi perguntado. Mas construiu parte importante de seu sistema de reconhecimento sobre sucessivos atos de submissão.

Autonomia científica não significa ausência de critérios, imunidade à crítica ou licença para dizer qualquer coisa. Ser intelectualmente autônomo é colocar aquilo que se pensa diante da crítica mais rigorosa possível sem transformar essa crítica numa relação de obediência.

Posso estar errado, precisar reescrever, descobrir que meu método é insuficiente, ver minha hipótese desmoronar ou ter um artigo rejeitado. Tudo isso pertence à ciência. Mas existe uma diferença fundamental entre ter meu argumento submetido à crítica e ter meu pensamento treinado para a submissão.

Por isso, o contrário de submissão científica não é rebeldia. É interlocução. Interlocutores podem discordar radicalmente, rejeitar argumentos, exigir evidências, apontar fragilidades metodológicas e demonstrar que uma conclusão não decorre dos dados. Podem dizer não. Nada disso exige submissão intelectual. Exige relação.

Precisamos recuperar essa diferença. Há uma ironia perigosa em formar pesquisadores para pensar livremente e, simultaneamente, ensiná-los a reconhecer seu próprio valor pelo número de portas institucionais pelas quais conseguiram autorização para passar. A pergunta, portanto, não é se devemos acabar com periódicos, congressos, revisão por pares, indicadores ou avaliação científica. Essa seria uma falsa questão.

A pergunta é mais difícil: como construir mecanismos de avaliação suficientemente rigorosos para proteger a ciência sem transformá-los em mecanismos de domesticação daqueles que fazem ciência?

Não tenho uma resposta pronta. É exatamente por isso que a pergunta merece permanecer aberta. Talvez “submissão” seja apenas um verbo técnico. Talvez. Mas as palavras também guardam instituições dentro delas. E esta guarda uma contradição que não deveríamos abandonar tão facilmente: a ciência precisa do conhecimento submetido à crítica. Não precisa de pesquisadores educados para a submissão.

(*) Gilson Monteiro é pesquisador da Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica do Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo).

 

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