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Campo Grande, Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018

18/06/2014 10:32

Meu pai, por Heitor Freire

Por Heitor Freire (*)

Todos nós temos dois personagens que marcam de forma muito significativa nossas vidas: os pais e as mães. São a nossa fonte. Outro dia escrevi sobre a minha mãe, hoje vou referir-me ao meu pai.

Meu pai, Luiz Freire Benchetrit, nasceu em Asunción, Paraguay, e ainda menino se mudou com a família para o Chile, onde trabalhou nas minas de carvão e estudou contabilidade, quando então desenvolveu uma caligrafia marcante e firme, característica do seu caráter. Ele sempre foi muito patriota e idealista. Quando foi deflagrada a Guerra do Chaco, entre o Paraguay e a Bolívia (1932- 1935), ele voltou para o seu país e se alistou no Exército para lutar.

Após a guerra, mudou-se para Pedro Juan Caballero, estabelecendo-se como comerciante em sociedade com o meu tio Manolo Cândia, seu concunhado. Tiveram primeiro a Casa Nippon e depois a Casa Estrella que, mutatis mutandi, seria o Shopping China de hoje. Conheceu minha mãe e se casaram em 1939. Eu e todos os meus irmãos (seis) nascemos naquela cidade fronteiriça.

Com o advento do golpe de 1947 em que o Partido Colorado tomou o poder, meu pai, sendo freberista (partido oposicionista aos vencedores), teve que abandonar o país, perdendo tudo o que até então amealhara e construíra e que era um patrimônio respeitável. Do lado brasileiro da fronteira assistiu a sua casa comercial ser saqueada por vândalos que arrastavam tudo o que encontravam, num delírio idêntico ao que assistimos hoje no espetáculo dos “black-blocs”.

Mudamos para Campo Grande, onde ele não teve nenhuma vergonha em recomeçar fritando pastéis no Bar Bom Jardim e eu, com sete anos, o auxiliava com a venda dos salgados. Daí foi para a gerência do Mate Índio, do meu avô materno Francisco Rodrigues. Depois adquiriu o Salão Cristal, que era localizado no hoje Edifício São José, na galeria com o mesmo nome. A seguir, estabeleceu-se na rua sete de Setembro, em plena zona do baixo meretrício, com o Mercadinho Popular.

Meu pai sempre foi muito trabalhador, inteligente, idealista. Assim, com a prosperidade nos negócios, adquiriu uma área rural perto da cidade, a Fazenda Formosa, que, no ato da compra, constava com quase dois mil hectares. Era amigo e profundo admirador do trabalho da professora Oliva Enciso, na Sociedade Miguel Couto dos Amigos dos Estudantes. Por isso e desejando contribuir para a implantação de uma escola agrícola para estudantes carentes, resolveu doar 300 hectares para a entidade presidida pela professora Oliva (que minha mãe sempre chamava de senhorita Oliva).

Ao ser feita a medição da área para desmembrar os 300 hectares doados, verificou-se que na realidade, a fazenda tinha apenas 1.200 hectares. Ante esse fato, a professora Oliva disse a meu pai que ele não precisava doar a área, em virtude da realidade da dimensão da fazenda, o que ele na sua consciência e no compromisso com a sua palavra, não aceitou. Disse que a área estava doada; e ficou com a parte remanescente da fazenda. Ele nunca contou isso para mim e para nenhum dos meus irmãos. Só a mamãe sabia e também nunca comentou nada conosco.

Eu só vim a saber disso muitos anos após a morte do meu pai. Quem me contou foi a professora Oliva. Esse fato voltou à minha memória quando encontrei casualmente o engenheiro Eduardo Fontoura, sobrinho-neto da professora Oliva e seu sucessor na direção da Sociedade.

O meu pai contribuiu também para a criação da Clínica Campo Grande. Era amigo e grande admirador do dr. Alberto Neder. Foi também membro da Seleta Sociedade Caritativa e Humanitária (S::S::C::H::).

A herança que ele nos deixou é imortal, pois sempre estamos recebendo algo dele mesmo tantos anos mais tarde, como quando encontrei o Eduardo Fontoura.

Gracias meu pai.

(*) Heitor Freire é corretor de imóveis e advogado.

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