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19/04/2013 14:43

Réquiem para uma cross

Por Heitor Freire (*)

Em nossas vidas há alguns objetos que se tornam parte integrante do nosso cotidiano, que se inserem naturalmente e acabam gerando uma relação de convivência que muitas vezes descamba para o amor. É o caso, por exemplo, de relógios, pastas e também de canetas. Isso falando de homens. No caso das mulheres, talvez bolsas, não sei. Sapatos e jóias com certeza.

Lendo recentemente um artigo de autoria do meu amigo Henrique Alberto de Medeiros em que descrevia a sua relação de amor com a sua caneta Cross, lembrei-me da minha própria relação.

Fazendo um pequeno retrospecto, verificamos que as canetas são itens históricos que evoluíram com o passar dos anos e, mesmo com o avanço da tecnologia, não deixam de ter sua importância, o que beneficia pequenos empreendedores do ramo de papelarias.

A diferença entre a pré-história e a história é o advento da escrita. A narrativa escrita ganhou credibilidade como registro histórico em detrimento do relato oral porque a tradição oral tende a alterar constantemente a versão dos fatos, de modo a distorcer o fato original. (Não que a escrita esteja isenta de distorção, mas a fala oral é mais etérea e menos compromissada com a versão oficial dos fatos históricos).

Nesse contexto, as canetas são objetos históricos e primordiais. Depois da caneta tinteiro, no final do século XVIII surgiu a necessidade de substituir as penas de ganso por penas de metal, que eram conectadas a uma barra de madeira.

Este instrumento de escrita notável, que nos permite deixar um traço de tinta sobre uma superfície de papel, é uma parte indispensável da nossa vida. Na verdade, é uma parte indispensável da cultura humana. Claro que com o advento do computador muita coisa mudou.

Não sei por que, mas tenho, no caso das canetas, uma constância para perdê-las. De repente procuro minha caneta e não a encontro mais. Acho que padeço da síndrome da caneta perdida. Por que será?

Nesse universo de canetas, e no longo convívio com elas a que mais me marcou foi, como no caso do Henrique, uma Cross. Fui proprietário de algumas ao longo da vida. Desde que descobri a Cross, ela tornou-se a minha favorita, foi paixão à primeira vista.

Mas a que mais me entusiasmou foi uma que ganhei como prêmio de vendas. A conquista foi significativa, daí talvez o apreço maior por este exemplar. Eu a perdi algumas vezes. A penúltima vez foi por alguns anos. De repente, não mais que de repente, um dia, dou de cara com ela. Foi um reencontro alegre, recuperei algo que não esperava mais encontrar. Daí para frente foi uma alegria só.

Até que um dia muito frio, ao descer do carro, na rua Dom Aquino, entre a rua José Antônio e a João Crippa, senti que algo saiu de mim. Uma energia que me abandonava. Senti mas não consegui identificar. Logo depois ao procurar a caneta para assinar um documento: cadê? Nesse momento percebi o que havia acontecido.

A caneta caíra ao descer do carro. Voltei imediatamente, procurei por todos os lados, por baixo do tapete, embaixo do carro, nas imediações e nada, nada, nada. Desta vez a perda foi, aparentemente, para sempre. Foi para não voltar mais. Senti uma tristeza pela perda de algo muito querido. Acabei aceitando o fato, embora com um sentimento de vazio. Fiz um voto para que quem a encontrou saiba valorizá-la e usá-la com o carinho que ela merece.

(*) Heitor Freire é corretor de imóveis e advogado.

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