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Cidades

Depois da polêmica da máscara, tem efeito usar luvas na prevenção à Covid-19?

No início da pandemia, especialistas se dividiam entre usar ou não máscara, com esse assunto superado, entra em cena a luva

Por Maristela Brunetto e Clayton Neves | 08/04/2020 16:19
A aposentada Aleurides Marconcin Faria está no grupo que resolveu utilizar todas as formas de prevenção. (Foto: Marcos Maluf)
A aposentada Aleurides Marconcin Faria está no grupo que resolveu utilizar todas as formas de prevenção. (Foto: Marcos Maluf)

Utilizar apenas máscara para sair à rua por alguns minutos para passear com o cachorro é insuficiente para a aposentada Aleurides Marconcin Faria. Ele adotou o hábito de também utilizar luvas, e ainda leva junto um saquinho para jogar fora o objeto ao final da caminhada. Dentro de casa, coloca as luvas quando recebe e higieniza as compras deixadas na porta pelas netas. Moradora do centro de Campo Grande, ela segue em confinamento com apenas uma prima.

 Aleurides usa luvas para passear com o cachorro. (Foto: Marcos Maluf)
 Aleurides usa luvas para passear com o cachorro. (Foto: Marcos Maluf)

“A gente tem que entender que somos grupo de risco”, diz sobre os idosos em relação à pandemia da Covid-19. Ela diz se sentir mais protegida utilizando luvas. “Todo cuidado é pouco”, analisa.

A aposentada não está sozinha nessa preocupação. Nas farmácias, os estoques de luvas de látex foram se esgotando. Só perdem em procura para o álcool gel e as máscaras, já raridade no mercado

Fernando Martins, o gerente de estabelecimento na Mata do Jacint, conta que o estoque se esgotou, não havendo previsão nem com diferentes fornecedores. Restaram unidades de tamanho P, que exatamente pela dimensão não atende às necessidades dos clientes que procuram. A procura, diante do temor com o contágio pelo coronavírus, fez com que o preço tivesse elevação. Martins cita que muitas pessoas vão à procura para uso na sua rotina, mas os mais interessados são pessoas que estão trabalhando normalmente, como os motoristas de aplicativos.

Afastada do centro, na região do Nova Lima, norte da cidade, a farmácia em que Edgar Resende trabalha ainda tem luvas para vender. Ele sentiu aumento da procura há cerca de dez dias, estimando em 50%. Assim como o colega do outro estabelecimento, também percebeu que o interesse é maior por pessoas que estão trabalhando nas ruas.

Mulher atravessa rua do centro, com luvas (Foto: Marcos Maluf)
Mulher atravessa rua do centro, com luvas (Foto: Marcos Maluf)

Uso correto – No inicio da pandemia, o uso das máscaras gerou polêmica. Alguns especialistas consideravam algo desnecessário para prevenção e defendiam que apenas profissionais de saúde usassem, ou pessoas contaminadas. Agora, até máscara de pano é recomendada.

Com as luvas não é diferente. Até o prefeito Marquinhos Trad tem aparecido em público com luvas. Mas a infectologista Mariana Croda vê com preocupação a popularização do uso. Apesar de proteger, ela teme que a procura contribua para diminuir a oferta para quem de fato precisa, que são os profissionais da saúde, como o que ocorreu com as máscara. Mas também teme pela utilização de forma errada.

Em relação à segurança, comenta que as pessoas podem ter a falsa impressão de que estão protegidas, entretanto, elas não tiveram treinamento para o uso seguro, a forma correta de colocada e retirada. “... pode dar uma falsa sensação de proteção e ao tocar uma superfície contaminada pode tocar outras partes do corpo sem perceber o potencial de contaminação”.

Além disso, a médica alerta que a superfície de látex ou plástico pode abrigar o vírus por período superior à pele. Ela sugere que as pessoas só utilizem luvas quando não houver meios para a higienização das mãos. “As luvas podem ser usadas para curtos períodos e tomando todas as precauções. O ideal continua sendo a lavagem frequente das mãos e o uso de álcool gel quando não possível a lavagem.” E quem usar as luvas, alerta Mariana, deve lembrar-se da limpeza após o procedimento de retirada.

Questionada sobre o gesto de vestir a mão em uma sacola plástica, como ao escolher frutas e verduras no mercado, ela adverte que esse uso só funciona ser o objeto for descartado na sequência.

Caixa de luvas na farmácia já começa a ser item raro. (Foto: Marcos Maluf
Caixa de luvas na farmácia já começa a ser item raro. (Foto: Marcos Maluf

Trocas seguidas - Leonice Rosa, de 49 anos, funcionária de um restaurante, teve que ir ao centro da cidade resolver pendências. Sua preparação para a saída de casa incluiu a máscara, um par de luvas para uso imediato e outros para reposição. No fim da manhã, ao conversar com a reportagem, ela contou que já estava no terceiro par.

Ela afirmou que está muito temerosa com o risco de contágio pelo coronavírus. “Tenho que cuidar de mim, sou a principal responsável pela minha saúde”, resumiu, contando que só deixou o isolamento domiciliar porque tinha urgências para resolver e logo retornaria para casa.

Nas ruas do centro, é mais frequente que trabalhadores de lojas estejam com luvas; entre clientes, poucos passam utilizando. E a reportagem verificou tanto pessoas com luvas de látex como aquelas de plástico, que é comum ser utilizada por quem prepara alimentos.