Estudo revela como gravidez na adolescência afeta renda e trabalho
História de jovem que viveu em Campo Grande integra pesquisa nacional sobre impactos da maternidade
Jovem que passou parte da infância e adolescência em Campo Grande viu os planos de seguir carreira na Aeronáutica mudarem após engravidar aos 18 anos. A trajetória da sul-mato-grossense integra um levantamento nacional sobre os impactos da gravidez precoce nos estudos, no trabalho e na vida adulta.
RESUMO
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Pesquisa nacional da Plan International Brasil revela os impactos da gravidez precoce na vida de mulheres brasileiras. O estudo ouviu 1,5 mil mulheres de 19 a 29 anos, sendo 300 que engravidaram na infância ou adolescência. Os efeitos incluem interrupção dos estudos, dificuldades no mercado de trabalho e menor autonomia econômica. O Brasil tem cerca de 3,5 milhões de mulheres que tiveram o primeiro filho até os 19 anos, sendo 68% pardas.
Realizado pela Plan International Brasil, o estudo “Marcas do Tempo – Gravidez na Adolescência e seus Impactos na Vida de Mulheres no Brasil” ouviu 1,5 mil mulheres de 19 a 29 anos de todas as regiões do País. Dessas, 300 tiveram uma gestação antes dos 20 anos, sendo que 9% moravam no Centro-Oeste. O levantamento não informa quantas eram de Mato Grosso do Sul, mas inclui o relato de uma moradora do Estado.
Identificada pelo nome fictício de Mariana, ela tem hoje 26 anos. Viveu até os 8 com o pai e a avó em uma fazenda no interior de Mato Grosso do Sul e depois se mudou para a Capital para morar com a mãe. Ainda criança, ajudava nas tarefas domésticas e cuidava da irmã mais nova enquanto a mãe trabalhava.
Dedicada aos estudos, Mariana concluiu o ensino médio aos 16 anos e passou os dois seguintes se preparando para um concurso da Aeronáutica. Segundo o relato, dormia cerca de duas horas por noite, alimentava-se mal e fazia bicos para conseguir renda enquanto estudava.
Aos 18 anos, após perder 20 quilos e apresentar anemia severa, procurou uma unidade de saúde e descobriu que estava grávida. Na mesma época, passou no concurso da Aeronáutica, mas precisava viajar a São Paulo para fazer exames presenciais. Sem dinheiro para hospedagem e para os procedimentos, acabou não indo. “E aí também eu fiquei grávida. E aí eu não fui, e aí tudo mudou”, contou aos pesquisadores.
Anos depois, Mariana retomou os estudos. Cursou Pedagogia com financiamento da empresa onde trabalha, foi promovida em 2024 e iniciou duas pós-graduações em 2026. Também se casou e se separou. Em 2022, passou por uma perda gestacional e recebeu acompanhamento psicológico custeado pela empresa.
A história da jovem de Mato Grosso do Sul ajuda a ilustrar uma das conclusões do estudo: a gravidez precoce pode aprofundar dificuldades que já faziam parte da vida das adolescentes e mudar os caminhos percorridos nos anos seguintes.
Entre os efeitos apontados no curto prazo estão interrupção ou atraso nos estudos e maior dependência familiar e financeira. No médio prazo, aparecem dificuldades no mercado de trabalho, informalidade, baixa renda e isolamento. No longo prazo, o levantamento aponta menor autonomia econômica e permanência das desigualdades educacionais e profissionais.
Os relatos do Centro-Oeste também mostram obstáculos para continuar na escola durante a gestação. Uma jovem negra de 23 anos contou que foi encaminhada para o período noturno após engravidar. “Foi muito difícil para mim e a escola diurna não estava me aceitando grávida. Então, me mandaram para o noturno”, relatou. Ela conta que teve dificuldade para se adaptar porque era a mais nova da turma e não se identificava com o novo ambiente.
Outras entrevistadas defenderam mais acolhimento dentro das escolas. Para uma jovem do Centro-Oeste, as instituições deveriam incentivar as adolescentes grávidas a permanecerem em sala de aula e oferecer acompanhamento para evitar o abandono dos estudos.
O levantamento também mostra o tamanho da maternidade precoce no Brasil. Com base na PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) de 2024, a pesquisa estima que o País tenha 17,4 milhões de mulheres entre 19 e 29 anos. Cerca de 6,4 milhões já têm filhos e, entre elas, aproximadamente 3,5 milhões tiveram o primeiro até os 19 anos.
Dados do Sinasc (Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos) usados no estudo mostram que adolescentes de até 19 anos responderam por cerca de 12% dos nascimentos no Brasil em 2022. Entre as que engravidaram precocemente, 68% eram pardas, 7% pretas e 2,3% indígenas.
Entre meninas de até 14 anos, foram aproximadamente 14 mil casos em 2022. Elas representaram 4,5% das gestações na infância ou adolescência e, segundo o levantamento, cerca de 16% foram declaradas casadas ou em união estável.
A pesquisa analisou os reflexos da gravidez precoce na educação, trabalho, renda, saúde, relações familiares, autonomia e direitos sexuais e reprodutivos. O estudo também chama atenção para fatores que já fazem parte da vida das jovens antes da gestação, como pobreza, desigualdade social, raça ou etnia, território, acesso à educação e à saúde e exposição à violência.
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