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Cidades

Minuto a minuto, os passos de advogado suspeito de vazar operação para delegado

Acusado de obstrução de Justiça, Amilton Ferreira de Almeida chegou a ficar preso, mas o STJ o libertou

Por Marta Ferreira de Jesus | 22/10/2026 09:17
Minuto a minuto, os passos de advogado suspeito de vazar operação para delegado
Montagem ilustra ligações entre Amilton e Hoffman na Operação Infiltrados (Arte com IA sobre fotos do Campo Grande News)

Às 4h38 da madrugada de 24 de setembro deste ano, a caminhonete Toyota Hilux do advogado Amilton Ferreira de Almeida já circulava pelas ruas de Campo Grande. Nos 20 minutos seguintes, o veículo passou por diferentes pontos da Capital, entre eles o Jardim Veraneio, onde fica a sede do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado), unidade do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) responsável pela Operação Infiltrados. A ofensiva trouxe à luz um esquema envolvendo traficantes e agentes de segurança pública, acusados de desviar cargas de drogas apreendidas e receber dinheiro para isso.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

A Operação Infiltrados investiga um esquema de desvio de drogas envolvendo policiais civis em Campo Grande. O advogado Amilton Ferreira de Almeida foi denunciado por obstrução de justiça, acusado de alertar antecipadamente o delegado Hoffman D’Ávila sobre a operação, permitindo que ele fugisse antes da prisão e ocultasse provas. Registros de chamadas e deslocamentos embasam a acusação, enquanto a defesa alega coincidência e relação profissional regular entre os envolvidos.

Pelas descobertas da investigação jornalística, às 5h, o advogado começou a telefonar para o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, um dos principais alvos da investigação, então chefe da Denar (Delegacia Especializada de Narcóticos), principal estrutura da Polícia Civil de ataque ao tráfico. Meia hora depois, quando os policiais e agentes do Gaeco chegaram à residência do delegado para prendê-lo, não o acharam. Também não tiveram sucesso na apreensão do celular do policial, elemento importante para a coleta de provas.

A sequência de deslocamentos e telefonemas, reconstruída pela investigação jornalística do Campo Grande News, faz parte dos argumentos da denúncia de obstrução de Justiça contra o advogado. Protocolada na Justiça em 14 de outubro, a peça sustenta que Amilton alertou Hoffman sobre a operação, levando-o a deixar a residência antes do cumprimento dos mandados.

O primeiro registro de deslocamento da Hilux ocorreu às 4h38, na Avenida Olavo Vilela de Andrade, na Vila Albuquerque. Às 4h52, o veículo estava na Avenida Ministro João Arinos, onde novas imagens o identificaram dois minutos depois.

Às 4h57, a Hilux passou pela Avenida do Poeta, no Jardim Veraneio. O deslocamento chamou a atenção por ter ocorrido nas proximidades da sede responsável pela operação, apenas três minutos antes da primeira tentativa de contato com Hoffman.

Minuto a minuto, os passos de advogado suspeito de vazar operação para delegado

Naquele momento, as equipes policiais já estavam reunidas para organizar o cumprimento de 24 mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária e 38 de busca e apreensão. Os deslocamentos para os endereços dos investigados começaram às 5h.

Exatamente às 5h00min32s, Amilton tentou ligar, de forma insistente, para Hoffman pelo WhatsApp. A chamada de áudio foi rejeitada às 5h01min05s. O advogado insistiu e, 25 segundos depois, iniciou uma videochamada, atendida pelo delegado às 5h01min36s.

A conversa durou um minuto e 12 segundos e terminou às 5h02min48s. Segundo apurou o Campo Grande News, a acusação tem convicção de ter sido nesse contato que Hoffman recebeu o aviso sobre a operação. Os registros de ligações via app permitem identificar os participantes e os horários das ligações, mas não revelam o conteúdo do diálogo, estratégia comumente usada para não deixar rastros.

Às 5h04, a caminhonete de Amilton foi novamente identificada, desta vez na Avenida Afonso Pena, na altura do número 6134.

No mesmo horário, Hoffman começou a trocar mensagens com outro interlocutor, ainda não identificado. Entre 5h04 e 5h05, foram registradas quatro mensagens de texto, duas recebidas e duas enviadas pelo delegado.

Às 5h07min59s, esse outro interlocutor iniciou uma videochamada com Hoffman. A conversa começou às 5h08min06s, durou quatro minutos e 27 segundos e terminou às 5h12min33s. Pouco depois, às 5h13min17s, o delegado recebeu outra mensagem desse mesmo número. Não foi possível obter o teor desses diálogos.

Suspeitas - A acusação considera que os contatos realizados logo depois da conversa com Amilton podem estar relacionados à tentativa de ocultar provas. Mais uma vez, os registros apresentados não permitem identificar o conteúdo das mensagens ou das videochamadas.

Por volta das 5h18, câmeras de segurança de um imóvel vizinho registraram Hoffman saindo de casa em um Honda HR-V. A saída ocorreu aproximadamente 15 minutos depois da conversa com o advogado e 12 minutos antes do horário previsto para o cumprimento dos mandados.

Quando as equipes chegaram às imediações da residência, às 5h24, o delegado já não estava no local. A autorização para a entrada dos policiais nas casas dos investigados foi dada às 5h30.

Um minuto depois da chegada das equipes às proximidades da residência, Hoffman voltou a procurar Amilton. Às 5h25min43s, o delegado iniciou uma videochamada para o advogado, atendida cinco segundos depois. Os dois conversaram por 1 minuto e 55 segundos, até as 5h27min43s.

A proximidade entre a chegada dos policiais e o novo contato telefônico levantou a suspeita de que Hoffman acompanhava a movimentação na própria residência, possivelmente por meio de câmeras de segurança. A hipótese integra a acusação, mas não pode ser comprovada apenas pelos registros das chamadas.

Às 5h30, quando os mandados começaram a ser cumpridos, o veículo do delegado foi identificado em deslocamento pela Rua Ceará.

Dois minutos depois, às 5h32min53s, Hoffman voltou a telefonar por vídeo para o terceiro interlocutor, cuja identidade ainda não havia sido esclarecida. A conversa durou três minutos e 16 segundos.

Nova ligação – Às 5h38min18s, Amilton fez outra videochamada para Hoffman. O contato durou 23 segundos e foi encerrado às 5h38min41s.

Foi a terceira conversa efetivamente estabelecida entre advogado e delegado naquela madrugada. Por volta das 5h45, Amilton chegou à residência de Hoffman, no Bairro Carandá Bosque, onde os policiais já cumpriam o mandado de busca e apreensão.

Minuto a minuto, os passos de advogado suspeito de vazar operação para delegado
O advogado Amilton Ferreira de Almeida na porta da casa do delegado no dia da operação. (Foto: Osmar Veiga)


Imagens de câmeras de segurança registraram a chegada do advogado, que apareceu de terno e gravata e se apresentou como defensor do delegado.

Chama atenção a rapidez com que Amilton chegou ao endereço. Sua residência, na Vila Albuquerque, fica a aproximadamente 11 quilômetros da casa de Hoffman.

Os deslocamentos anteriores ao início da operação, as ligações realizadas durante o cumprimento das ordens judiciais e a chegada à residência do delegado formam a sequência usada para sustentar a suspeita de que o advogado teve conhecimento antecipado da ação policial e avisou o delegado.

Para o Gaeco, conforme levantou a reportagem, configurou-se tentativa de embaraçar as investigações. Para a defesa de Amilton, foi apenas uma tratativa natural entre representado e representante diante da Justiça.

Prisão frustrada – Hoffman era alvo de prisão preventiva e busca e apreensão. Como deixou a residência antes da chegada dos policiais, a ordem judicial não foi cumprida naquele momento. Ele se apresentou à Corregedoria da Polícia Civil no fim da tarde de 24 de setembro, mas estava sem o aparelho celular. Escapou, ainda, do desconforto de ser filmado sendo levado como criminoso.

A acusação sustenta que o telefone teria sido ocultado para impedir o acesso a informações relevantes à investigação. Há suspeita de ocultação de outros elementos de prova, como documentos, anotações, equipamentos eletrônicos e dinheiro em espécie.

A Operação Infiltrados investiga um suposto esquema de desvio de drogas apreendidas por policiais civis, que seriam posteriormente recolocadas no mercado ilegal. Hoffman, que comandou a Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) por sete anos, está entre os 23 envolvidos, já denunciados ao Judiciário. O delegado segue preso desde a deflagração da ofensiva do Gaeco.

O que diz a defesa –  Amilton é representado por uma banca de três advogadas, Damares Machado, Herika Ratto e Larissa Almeida. O contato com a imprensa tem sido travado por Damares Machado e, segundo ela, Hoffman e Amilton já mantinham relação profissional, com procuração assinada antes dos fatos.

De acordo com ela, o delegado e o defensor tinham o hábito de tomar café e caminhar juntos nas primeiras horas da manhã, inclusive no dia da operação. A saída de Hoffman antes da chegada dos policiais teria sido uma coincidência.

Prisão e soltura – A suspeita de vazamento motivou a segunda fase da Operação Infiltrados, chamada Obstructio. Amilton foi preso temporariamente em 29 de setembro, mas o STJ (Superior Tribunal de Justiça) acatou a tese defensiva de constrangimento ilegal e determinou sua soltura na segunda-feira (19).

O ministro Reynaldo Soares da Fonseca concluiu que o crime investigado não está entre aqueles autorizativos da prisão preventiva. Na terça-feira (20), a Justiça determinou a retirada da tornozeleira eletrônica usada pelo investigado e a devolução da fiança de pouco mais de R$ 48 mil.

A advogada Damares Machado disse que pretende ingressar com pedido para trancamento da ação por falta de provas.  A ação penal contra Amilton Ferreira, que também tem o delegado como denunciado, corre na 2ª Vara Criminal de Campo Grande.

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