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Cidades

Policial há 17 anos, delegado "caçou" traficantes e acabou preso entre eles

Denúncia narra como ex-chefe da Denar autorizava desvios de drogas e lucrava com esquema criminoso

Por Marta Ferreira de Jesus | 20/10/2026 11:21
Policial há 17 anos, delegado "caçou" traficantes e acabou preso entre eles
Delegado Hoffman no dia em que divulgou apreensão de droga em ação combinada com traficantes, segundo o Gaeco (Foto: Arquivo)

Policial há 17 anos, primeiro como escrivão em Goiás e depois como delegado da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul desde 2014, Hoffmann D’Ávila Cândido e Sousa, que comandava a Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) até fevereiro deste ano, usava o cargo público para servir como um dos chefes de uma organização criminosa formada por agentes de segurança pública e traficantes, responsável por desviar drogas apreendidas e revendê-las no mercado ilegal.

RESUMO

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Denúncia do Gaeco na Operação Infiltrados acusa Hoffmann D’Ávila Cândido e Sousa, ex-chefe da Denar, de liderar esquema com policiais e traficantes para desviar drogas apreendidas e revendê-las. A investigação aponta participação em desvios de cocaína e maconha, obstrução de apurações e movimentações financeiras suspeitas. Ao todo, 23 pessoas foram denunciadas; o Ministério Público pede a perda do cargo do delegado e R$ 10 milhões por danos coletivos. A denúncia aguarda análise judicial.

É o que consta da denúncia apresentada à Justiça pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), como resultado da Operação Infiltrados, que coloca Hoffman no centro do esquema e aponta que sua autoridade permitia aos subordinados transformar operações policiais em fonte de abastecimento do tráfico.

A posição atribuída a Hoffmann pela investigação vai além de fazer vistas grossas às irregularidades. Segundo o Ministério Público, ele exercia papel decisivo na estrutura criminosa, autorizava desvios de entorpecentes e estava entre os principais beneficiários financeiros da organização.

Segundo foi possível identificar com o trabalho investigativo, Hoffman passou de autoridade a criminoso pouco tempo depois de assumir o comando da Denar, em 2019. A Operação Infiltrados aponta que o grupo atuou entre 2021 e 2026 e aproveitava a estrutura da Polícia Civil, o acesso a informações sigilosas e a custódia de entorpecentes para abastecer máfias do tráfico.

A denúncia apresentada em outubro inclui 23 pessoas, entre policiais, traficantes e outros envolvidos.

Já no início da peça, os promotores de Justiça destacam a relevância do delegado para o funcionamento do grupo:

“Em síntese, as provas produzidas demonstram que HOFFMAN D’ÁVILA CÂNDIDO E SOUSA, na condição de Delegado de polícia, ocupava posição de comando e chancela institucional do esquema, sendo responsável por viabilizar a atuação da organização criminosa, da qual é um dos principais beneficiários.”

O Gaeco reputa a Hoffman participação direta nos desvios de drogas tiradas de circulação pela própria unidade especializada. Conforme outro trecho da denúncia, os policiais civis envolvidos, com auxílio de Lucas da Silva dos Santos, traficante conhecido como LK, “desviaram, em proveito próprio, substâncias entorpecentes de que tinham a posse em razão do cargo”.

Agente duplo - A contradição entre a atuação pública de Hoffmann e o papel atribuído a ele pelo Gaeco se evidencia em operação realizada em maio de 2024, quando divulgou aos jornalistas uma apreensão recorde de cocaína.

Em 22 de maio daquele ano, Hoffmann concedeu entrevista coletiva para falar da apreensão de 650 quilos de cocaína, avaliados em R$15 milhões. A carga havia sido encontrada no dia anterior, em Bela Vista, durante uma operação da Denar, e iria para o mercado externo, na Europa.

Na ocasião, o delegado explicou ao Campo Grande News que a investigação havia durado dois meses e identificado oficina utilizada para preparar veículos que transportavam entorpecentes do Paraguai.

“Descobrimos que em Bela Vista funcionava uma oficina como entreposto. Lá, o dono preparava o veículo, ocultando a droga que saía do Paraguai”, declarou Hoffmann na reportagem publicada em 22 de maio de 2024.

Na conversa com a imprensa, ele também disse que parte da cocaína permaneceria em Campo Grande, enquanto outra seguia para portos de São Paulo, de onde seria traficada para países europeus. A apreensão foi classificada, então, como a maior da história da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul.

Policial há 17 anos, delegado "caçou" traficantes e acabou preso entre eles
A cocaína exibida à imprensa no dia 22 de maio de 2024: mais de 400 quilos foram desviados, segundo a denúncia do Gaeco (Foto: Arquivo)

Nos bastidores, longe da opinião pública, perante a qual se passava como combatente do crime, a apuração do Gaeco revelou um papel clandestino bem diferente para o delegado e seus parceiros de trabalho: a operação teria sido articulada a partir de informações fornecidas pelo traficante “LK”, apontado como o principal elo entre os policiais e os compradores de drogas desviadas.

Conforme a acusação do Gaeco, “LK” informou sobre um depósito que armazenava aproximadamente 1 tonelada de cocaína. Entretanto, apenas 643 quilos foram oficialmente apreendidos. Os investigadores suspeitam que cerca de 400 quilos tenham sido desviados antes da formalização da ocorrência.

A investigação encontrou conversas nas quais LK demonstrava acompanhar o trabalho da delegacia e a apresentação pública da apreensão. Em 22 de maio de 2024, dia da entrevista coletiva, o traficante comentou com comparsas que o delegado deveria estar falando com a imprensa naquele momento e que, posteriormente, seria definido o andamento do desvio de entorpecentes.

Para o Gaeco, o diálogo demonstra a coincidência temporal entre a apresentação da operação à imprensa  e as articulações da organização criminosa. A ação anunciada como resultado histórico do combate ao tráfico seria, segundo a suspeita dos investigadores, parte de uma operação na qual policiais também teriam se beneficiado da droga não registrada oficialmente.

Celulares ficaram meses sem perícia - Segundo o Gaeco reafirma na peça de acusação, o delegado também dificultou o aprofundamento das investigações relacionadas à apreensão.

Quatro telefones celulares recolhidos com os dois homens presos durante a operação permaneceram meses sem análise pericial, indica o documento protocolado na 2ª Vara Criminal de Campo Grande. Os aparelhos poderiam revelar conversas, pagamentos e a identidade de outras pessoas implicadas no transporte e na comercialização do carregamento.

Conforme o MPMS, os telefones sequer foram incluídos inicialmente no boletim de ocorrência. O registro só foi complementado em 8 de outubro de 2024, quase cinco meses depois da apreensão.

Em 10 de janeiro de 2025, sete meses depois do flagrante, Hoffmann determinou que os aparelhos fossem encaminhados à Promotoria de Justiça de Bela Vista, sem que tivessem sido submetidos à perícia do Instituto de Criminalística, como deveria ter ocorrido.

O Gaeco afasta a ideia de um erro administrativo. Na avaliação dos investigadores, a experiência do delegado e sua posição de comando indicam tentativa deliberada de impedir que os dados dos celulares revelassem a participação de outros integrantes da organização.

Traficantes cobravam percentual das apreensões - Outro episódio relatado na denúncia é de 3 de maio de 2024, quando policiais da Denar apreenderam 793 quilos de maconha em Campo Grande. Parte da droga, segundo o Gaeco, também foi entregue ao traficante “LK” pelo policial civil Douglas Tobias, com autorização de Hoffmann.

Três dias depois, conversas encontradas no celular do traficante revelaram insatisfação com a quantidade recebida. O traficante tratou com um interlocutor da possibilidade de conseguir mais maconha dos policiais. Dizia já ter  compradores interessados.

Em um dos áudios, LK disse que tentaria convencer os investigadores a liberar outros 30 quilos.

“Mas é isso que eu ia fazer, mano, ia tentar convencer os caras pra trazer mais umas trinta, né, mano”, diz no diálogo captado.

O interlocutor, não identificado, demonstrou que a droga já tinha compradores. “Chegou, viado, chegou, solta pra mim ganhar o dinheiro, viado”, disse.

“LK” também relatou ter encontrado alguém disposto a comprar uma quantidade maior e lamentou o volume recebido dos policiais.

“Se tivesse trazido uma pancada, nós tava feito”, declarou.

A cobrança continuou. O interlocutor pediu a “LK” para pressionar os policiais a conseguir pelo menos mais 30 quilos de maconha. Conforme os resultados da operação, parte do carregamento seria destinada a um homem que fornecia informações sobre depósitos de entorpecentes.

Em outra conversa, “LK” afirmou que já havia procurado Douglas Tobias para negociar uma nova entrega. O traficante mencionou um suposto acordo pelo qual o grupo receberia 20% das drogas recolhidas nas operações policiais.

“O certo é os caras pagarem 20%, mané”, afirmou, segundo consta da denúncia.

Ao fazer o cálculo, LK explicou que 20% de uma apreensão de 800 quilos representariam 160 quilos de maconha, quantidade superior à que havia sido repassada.

O traficante ainda orientou seu interlocutor a consultar a publicação oficial da operação no Instagram da Denar.

“Aí, você viu a reportagem? Entra aí no Denar aí e olha lá no Instagram a reportagem”, disse.

Para os investigadores, a referência à quantidade apreendida, ao percentual de 20% e à publicação oficial revela que os traficantes negociavam drogas retiradas de operações policiais verdadeiras.

A investigação também encontrou fotografias de tabletes de maconha no celular do traficante, com características semelhantes às dos entorpecentes divulgados pela delegacia.

O vínculo de Hoffmann com esse episódio está na acusação de que a retirada da maconha ocorreu sob sua chancela. A denúncia destaca que, como titular da Denar, o delegado exercia autoridade sobre os investigadores e tinha acesso ao depósito de drogas.

Durante interrogatório, Hoffmann declarou ter as chaves do local. Conforme seu relato, a cocaína normalmente ficava armazenada nesse espaço, enquanto a maconha ficava do lado de fora, à espera de autorização para incineração.

Os diálogos reproduzidos são de LK e outros interlocutores, sem apresentar uma ordem direta do delegado nessas conversas. O Ministério Público atribui a autorização a Hoffmann com base no conjunto dos elementos da investigação.

Transferências ligam delegado a policial acusado - Além dos episódios envolvendo apreensões, a denúncia do Gaeco à Justiça elenca movimentações financeiras entre o delegado Hoffmann e policiais apontados como integrantes da organização.

O MPMS identificou as 3 transferências feitas pelo investigador Neverson Vieira de Araújo para a conta bancária do delegado, nos dias 23 e 24 de setembro de 2021. Os pagamentos, realizados por Pix, totalizaram R$ 5,9 mil.

Neverson é apontado como um dos policiais responsáveis pela aproximação entre “LK” e o grupo criminoso. Segundo a denúncia, ele participou de operações nas quais drogas teriam sido desviadas.

Para o Gaeco, as transferências integram o conjunto de elementos demonstrativos da ligação entre o chefe da delegacia e seus subordinados metidos com o tráfico.

Hoffmann e Neverson também aparecem juntos em uma fotografia de dezembro de 2022, durante um encontro nacional sobre enfrentamento ao tráfico de drogas realizado em Brasília (DF). Na época, os dois representavam a Denar, unidade que, segundo a investigação, já tinha integrantes envolvidos na comercialização clandestina de entorpecentes.

Patrimônio milionário entrou na investigação - A suspeita de que Hoffmann se beneficiava financeiramente do esquema levou o Gaeco a examinar seus extratos bancários e a evolução patrimonial.

A investigação identificou R$ 436,7 mil em créditos com origem desconhecida ou identificação insuficiente dos depositantes. Desse montante, R$ 328,5 mil correspondem a 32 depósitos em dinheiro realizados entre outubro de 2021 e junho de 2025.

Em 11 de março de 2024, um depósito de R$ 276 mil em espécie chamou a atenção dos investigadores. No mesmo dia, ocorreu um débito de R$ 265,6 mil, registrado como operação de saque com cartão para pagamentos.

A análise patrimonial também incluiu investimentos superiores a R$ 1,2 milhão em pouco mais de um ano. Entre os bens examinados está uma residência no condomínio Alphaville 1, em Campo Grande, cujo investimento total informado nos documentos chega a aproximadamente R$1,6 milhão.

Outro ponto questionado pelos promotores foi um suposto empréstimo de R$ 750 mil declarado pelo delegado no Imposto de Renda. A empresa apontada como responsável pelo fornecimento do dinheiro tinha capital social de apenas R$ 20 mil.

Consta da denúncia que Hoffmann afirmou em interrogatório ter recebido o valor em espécie, em outro estado. Os investigadores, porém, não localizaram nos extratos bancários um crédito correspondente ao empréstimo e consideraram insuficientes as explicações apresentadas para comprovar a origem dos recursos.

Na análise do Gaeco, a partir dos elementos coletados, a movimentação de dinheiro vivo e a aquisição de bens de alto valor são indícios de lavagem de dinheiro vindo do tráfico das drogas apreendidas.

Ação pede perda do cargo - A denúncia da Operação Infiltrados foi apresentada contra 23 pessoas, entre policiais, traficantes e outros acusados de participar da estrutura, pelos crimes de organização criminosa, tráfico de drogas, associação para o tráfico, peculato-desvio, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, obstrução de Justiça e violação de sigilo funcional. As acusações variam conforme a participação de cada investigado.

Hoffmann D’Ávila Cândido e Sousa foi enquadrado em seis tipos de crimes, incluindo dois episódios de tráfico de drogas, peculato-desvio, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e obstrução de Justiça, além da participação na organização criminosa.

Além da responsabilização penal, os promotores pedem a perda do cargo público, caso haja condenação e estejam presentes os requisitos legais. Também solicitam o confisco de bens considerados relacionados às atividades criminosas.

O Gaeco requer ainda o pagamento de R$10 milhões por danos morais coletivos, em razão dos prejuízos provocados pela organização à sociedade e à administração pública.

Carreira iniciada em Goiás -  Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa tem 56  anos, 17 deles de experiência na atividade policial. Antes de ingressar na Polícia Civil de Mato Grosso do Sul como delegado, em 2014, trabalhou por cerca de cinco anos como escrivão de polícia em Goiânia (GO).

Em Mato Grosso do Sul, passou por delegacias de Costa Rica e Campo Grande, começando pela Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) da Vila Piratininga. Em 2019, assumiu o comando da Denar, onde permaneceu por quase sete anos, até fevereiro de 2026.

Hoffman deixou a Denar para assumir o comando da Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco e Resgate a Assaltos e Sequestros), unidade considerada de elite na Polícia Civil. Ficou apenas 113 dias na unidade, até ser transferido, em junho, para a 6ª Delegacia de Polícia Civil, na região do Jardim Tijuca, em Campo Grande.


Policial há 17 anos, delegado "caçou" traficantes e acabou preso entre eles
Hoffman com o uniforme do Garras, unidade onde ficou pouco mais de cem dias. (Foto: Bruna Marques)

Quando a Infiltrados estourou, o delegado estava no comando da Polícia Civil em Terenos, município vizinho a Campo Grande.

Ele está no topo da carreira, como delegado de classe especial, com salário bruto próximo de R$ 40 mil. Embora afastado, segue recebendo normalmente. Cumpre prisão preventiva na carceragem do Garras, unidade em que já teve o poder de chefe.

A denúncia do Gaeco sobre a Operação Infiltrados foi protocolada na Justiça em 9 de outubro e ainda não foi recebida pelo juiz responsável. Quando isso ocorrer, começa a ação penal, cujo primeiro passo será a chamada dos réus a apresentar defesa prévia.