Chuva passa, mas água pode permanecer por até 30 dias em favela da Capital
Na Comunidade Vitória, famílias perderam alimentos e eletrodomésticos após temporal; local segue alagado

A água que invadiu barracos e caminhos da Comunidade Vitória, em Campo Grande, pode levar até 30 dias ou mais para baixar, segundo a estimativa de morador que já enfrentou outros alagamentos no local. Após o temporal de quinta-feira (15), famílias perderam alimentos e eletrodomésticos, encaminharam crianças para casas de parentes e passaram a procurar terrenos mais altos para proteger o que restou.
RESUMO
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Na manhã desta sexta-feira (16), a reportagem do Campo Grande News esteve na comunidade, localizada ao final da área conhecida como Marajoara, na região do bairro Paulo Coelho Machado. Entre os barracos de lona, a água acumulada formava pequenos lagos, e a lama dificultava a circulação. Equipes da Emha (Agência Municipal de Habitação de Campo Grande) distribuíram lonas durante a manhã.
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Morador desde o início da ocupação, Paulo da Silva Santos, de 40 anos, conta que os efeitos das chuvas permanecem por semanas. Segundo ele, em um episódio anterior, foram necessários cerca de 20 dias sem chuva para o terreno secar. “Isso aqui leva de 15 a 20 dias, se não houver mais chuva. Se houver, vai um mês”, afirmou.

Segundo Paulo, a preocupação agora é com a possibilidade de novos temporais antes de a água baixar. “Aqui, como você pode ver, é como se fosse um tanque. A água não tem para onde escoar. Não vai para frente, não vai para trás, não vai para os lados. Simplesmente fica aqui”, descreveu.
A previsão de demora é baseada na experiência do morador com outros alagamentos. “Se continuar chovendo, essa água não vai embora tão cedo. São de 20 a 30 dias ou mais. Não vai secar assim”.
Paulo tem filhos e um enteado, que não estavam no local por causa da inundação. Ele, porém, permanece na comunidade. “Não temos para onde ir, o nosso paradeiro é aqui. Com sol, com chuva, com alagamento, com tudo que tem direito, a gente está aqui”.
Outra pessoa que encontrou o barraco inundado quando voltou do trabalho foi Ronaldo Júnior, de 28 anos. Morador da comunidade há aproximadamente quatro meses, ele relata que a água chegou à altura dos joelhos, cerca de 40 centímetros, e estragou a geladeira e parte dos mantimentos.
“Quando a gente chegou do trabalho, a água já estava dentro de casa”, contou Ronaldo. Segundo ele, os filhos foram para a casa da avó, enquanto ele passou a noite no local alagado.
Nesta manhã, Ronaldo tentava se organizar para ir a um terreno mais alto dentro da comunidade. Sem uma saída para a água acumulada, ele acredita que terá de esperar para recuperar o espaço onde estava. “Agora a gente vai ter que esperar baixar, né? Porque não tem para onde a água correr”, disse. “Está parecendo uma piscina. Não dá, não tem jeito”.
Uma lona recebida deve ajudar a proteger os móveis que restaram até que consiga construir e cobrir o novo abrigo. Para ele, porém, o material é uma solução temporária. “Vai amenizar por um tempo, né? Porque, queira ou não, sol e chuva, sol e chuva, ela resseca, mas ajuda”, afirmou Ronaldo.

Também houve moradores que perderam alimentos, como Mayara de Souza, de 30 anos. A reportagem a encontrou enquanto seguia a pé, descalça, para buscar uma lona após receber o aviso sobre a entrega. “Lá em casa, molhou tudo. A comida mesmo, perdeu tudo”, relatou.
Segundo ela, a água havia baixado um pouco perto de sua moradia, mas a situação na quinta-feira era pior. “A rua parecia até um lago”, explicou Mayara.
Também afetado pela tempestade, o ajudante de capa de asfalto Odair Oliveira Brandão, de 51 anos, afirma que o alagamento avançou até uma parte do terreno que costumava ficar mais seca. “Aí virou praticamente um Pantanal aqui”, comparou.

Para passar de um lado a outro da comunidade, os moradores precisam atravessar a água ou fazer desvios. Odair relata que, em períodos de alagamento, crianças também cruzam os trechos inundados na volta da escola para encurtar o caminho. “Na água, para poder chegar mais cedo em casa, para não dar aquela volta. Ou você volta por lá, ou faz a volta por baixo, pela Rua da Feira. A nossa realidade é essa aí”, disse.
O morador teme que a inundação aumente se as chuvas continuarem. “Como o terreno é de baixada, a água não tem para onde ir. Vai continuar desse jeito. Pode até subir mais do que a senhora está vendo aí”, afirmou Odair.
Odair conta que conseguiu um emprego, mas ainda não tem outro lugar para morar. Se precisar sair, a alternativa seria tentar alugar uma casa e retirar os pertences às pressas. “E aí tem aquele problema de tirar as coisas na chuva, correndo. Por enquanto, nós não temos para onde ir. Essa é a realidade de todos que estão aqui”.
Na Comunidade Cidade dos Anjos, localizada na região do Parque do Lageado, os estragos foram menores, mas os moradores também enfrentaram goteiras nos barracos de lona.
O morador Jorge Barreto, de 56 anos, que completará quatro anos no local em fevereiro, afirmou que não recebeu atendimento nesta sexta-feira. “Se veio, foi em outro rancho ou por aí, mas aqui no meu rancho não teve ninguém, não. Eu nem vi eles”, disse, ao ser questionado sobre a presença de equipes da Emha.
Confira a galeria de imagens:
Temporal — A chuva de quinta-feira provocou alagamentos, enxurradas e quedas de árvores em diferentes regiões de Campo Grande. Conforme balanço divulgado pela prefeitura, com dados do Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul), o acumulado médio chegou a 82 milímetros em 24 horas. Também houve granizo e rajadas de vento.
Em entrevista ao Campo Grande News nesta sexta-feira, a prefeita Adriane Lopes (PP) afirmou que equipes percorrem os locais atingidos para dimensionar os danos e organizar os serviços. “Estamos levantando todos os pontos afetados para definir quais as ações”, disse. Segundo ela, a programação inclui visitas às áreas atingidas e uma reunião com secretários no Paço Municipal.
Cerca de 20 equipes da Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos) foram mobilizadas para retirar árvores e terra, desobstruir bocas de lobo e realizar reparos nas vias da cidade.
Adriane atribuiu a intensidade dos estragos ao fenômeno que chamou de “Super El Niño”. A prefeita também afirmou que o município ainda aguarda recursos federais solicitados após outra tempestade, em setembro.
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