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Capital

Entenda os riscos por trás da apreensão de 2,2 toneladas de carne no Rita Vieira

Produto fora das normas sanitárias pode levar bactéria de fezes à mesa do consumidor

Por Dayene Paz | 15/01/2026 11:07
Entenda os riscos por trás da apreensão de 2,2 toneladas de carne no Rita Vieira
Local onde carne era armazenada em mercado fiscalizado nesta quarta-feira. (Foto: Divulgação)

A apreensão de 2,2 toneladas de carne imprópria para o consumo em um supermercado de Campo Grande serve de alerta sobre os riscos à saúde causados pelo consumo de produtos sem procedência e fora das normas sanitárias. Entre as principais preocupações está a possível contaminação por bactérias de origem fecal, como a Escherichia coli (E. coli), que pode provocar diarreia, vômitos e febre, especialmente quando há falhas na higiene, no armazenamento e na manipulação da carne.

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A apreensão de 2,2 toneladas de carne imprópria para consumo em um supermercado de Campo Grande expõe riscos à saúde pública. O estabelecimento, localizado na Avenida Rita Vieira, armazenava produtos sem rótulo, validade ou inspeção sanitária, além de realizar procedimentos irregulares de congelamento. O caso levanta preocupações sobre contaminação por bactérias, especialmente a E. coli, de origem fecal. Segundo o Serviço de Inspeção Municipal, estabelecimentos que manipulam alimentos de origem animal devem seguir normas rigorosas de higiene, temperatura e rotulagem, além de manter registro junto aos órgãos fiscalizadores.

A E. coli compreende um grupo de bactérias Gram-negativas que vivem normalmente no intestino de pessoas saudáveis. Na maioria das vezes, conseguem sobreviver sem causar danos, mas algumas cepas podem provocar infecções no trato digestivo, urinário e em outras partes do corpo. A bactéria é considerada um indicador clássico de contaminação fecal, podendo ser transmitida pela água ou por falhas graves nas práticas de higiene durante a manipulação dos alimentos.

O alerta ganhou força depois que, na manhã desta quarta-feira (14), um açougue de supermercado localizado na Avenida Rita Vieira foi fechado. No local, a polícia encontrou 2,2 toneladas de carnes armazenadas em embalagens não lacradas, sem rótulo e sem data de validade. Segundo o registro da ocorrência, o estabelecimento realizava desossa de carne sem registro de inspeção.

O médico-veterinário responsável pelo açougue foi preso. Já o proprietário do supermercado não se apresentou. Ainda conforme apurado, havia a prática irregular de descongelar os produtos e congelá-los novamente, procedimento que compromete a qualidade da carne. Esse processo faz com que o alimento se deteriore e se torne impróprio para a comercialização.

Após o caso, a reportagem entrou em contato com o SIM (Serviço de Inspeção Municipal) para esclarecer dúvidas sobre os riscos desse tipo de prática. A médica-veterinária do órgão, Luana Basaglia, explicou que todo comércio que manipula alimentos de origem animal precisa estar previamente registrado junto ao órgão fiscalizatório. “Existe um procedimento padrão que envolve a questão estrutural do local, a higienização, o manual de boas práticas. Tudo isso é exigido para que os procedimentos ocorram de forma que o alimento não seja contaminado”, afirmou.

Segundo ela, qualquer produção de alimentos de origem animal passa por inspeção prévia. “Se um empresário quer produzir linguiça, por exemplo, toda a formulação do alimento precisa ser avaliada. A gente analisa os componentes, porque existe legislação específica. Se a linguiça tiver mostarda, isso precisa constar no rótulo, assim como todos os ingredientes e os alergênicos. A rotulagem evita uma série de riscos”, explicou.

A veterinária destacou que a exigência vale para todos os produtos manipulados e embalados. No caso de carnes in natura, muito comuns embaladas a vácuo em grandes redes de supermercados, é obrigatório constar rótulo e prazo de validade. “Quando o estabelecimento tem açougue e embala a carne, o produto resfriado tem, no máximo, sete dias de aproveitamento, e isso precisa estar indicado na embalagem”, disse.

Luana também alertou para o controle rigoroso de temperatura. Produtos congelados a menos de 18°C não podem sofrer variação térmica. “Se a temperatura excede, o produto perde a validade e a qualidade. Você começa a criar um meio favorável para o crescimento de micro-organismos”, afirmou.

No caso da carne moída, a regra é ainda mais rígida. “Ela tem que ser moída na frente do consumidor”, ressaltou. Segundo a veterinária, já foram encontradas situações em que havia miúdos, como coração, próximos ao moedor, sem refrigeração, o que levanta dúvidas sobre a possibilidade de mistura com outras carnes.

Produtos refrigerados, conforme o SIM, devem ser consumidos em até 24 horas ou, no máximo, três dias. Além disso, a fiscalização avalia a temperatura da sala de manutenção, que deve ser de 16°C, a dos freezers e até a temperatura da superfície da carne.

Outro ponto crítico é a origem do produto. “Você não sabe de onde veio a carne que está consumindo. Não é comprar a vaca do tio e vender no açougue. Essa carne precisa ter sido abatida em frigorífico registrado, chegar ao estabelecimento na temperatura correta e ser armazenada adequadamente, seja refrigerada, congelada, embalada ou temperada. Tudo isso precisa estar bem registrado justamente por causa do risco de contaminação”.

De acordo com o SIM, os estabelecimentos registrados mantêm planilhas de autocontrole. No caso do supermercado fiscalizado nesta semana, não havia registro junto ao serviço de inspeção. O órgão também faz avaliação diária da água utilizada na produção e análises periódicas, trimestrais ou semestrais, para identificar possíveis fontes de contaminação.

Além disso, dentro das áreas de produção, existem barreiras sanitárias. Funcionários não podem transitar entre o meio externo e o interno sem cumprir os protocolos. “O trabalhador precisa ser treinado. Um sapato que anda por todo o ambiente externo não pode entrar na produção sem os procedimentos corretos, justamente para evitar a contaminação”, explicou Luana.

Entre as contaminações mais comuns está justamente a bactéria de origem fecal. A E. coli é um dos principais indicadores de falhas de higiene, seja pela água, seja pelo manuseio inadequado dos alimentos.

Entenda os riscos por trás da apreensão de 2,2 toneladas de carne no Rita Vieira
Peças de carne encontradas pela fiscalização (Foto: Divulgação)

A veterinária também alertou para adulterações. Por ter contato com o ar e ser manipulada, a carne pode sofrer alterações. Há casos de adição de água, nitratos e fosfatos, que modificam cor, odor e durabilidade. “Carnes expostas em açougues, como cortes embalados, não podem conter aditivos. São produtos naturais, destinados ao consumo imediato”, reforçou.

Apesar de todos esses procedimentos de prevenção, a fiscalização enfrenta desafios, como o grande número de estabelecimentos e a necessidade de responsabilidade técnica. “A presença do responsável técnico é essencial. Ele precisa orientar o proprietário. Em Campo Grande, ainda observamos falhas, muitas vezes por falta de informação. Há comerciantes que desconhecem a obrigatoriedade do responsável técnico, do registro e do acompanhamento da empresa”, disse.

Recentemente, mudanças na atuação da Vigilância Sanitária e do Serviço de Inspeção - que antes atuavam em conjunto e agora estão separados - também estão sendo implementadas de forma gradual no comércio. Enquanto isso, casos como o da apreensão desta semana reforçam o alerta: consumir carne sem procedência e fora das normas sanitárias pode representar um risco direto à saúde.

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