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Capital

"Não gostam de ficar perto de pobre", diz coordenadora de doação de marmitas

Projeto aumentou demanda de doação de marmitas a partir da pandemia e enfrenta resistência de vizinhos dos locais de distribuição

Por Silvia Frias e Ana Paula Chuva | 16/02/2021 16:57
Desde a pandemia, aumentou a demanda por marmitas do projeto em Campo Grande (Foto-Divulgação)
Desde a pandemia, aumentou a demanda por marmitas do projeto em Campo Grande (Foto-Divulgação)

Projeto de distribuição de marmitas a pessoas carentes em Campo Grande teve que praticamente dobrar a produção por conta da pandemia da covid-19. Também encara a resistência de vizinhos dos locais de distribuição. As reclamações são constantes e foi preciso colocar “fiscais” para controlar a entrega e minimizar as críticas.

O projeto Geladeira Solidária foi criado em Campo Grande no dia 16 de setembro de 2017, organizado pela empresária Cida Rosa, com apoio da Paróquia Nossa Senhora da Abadia. As marmitas com almoço e janta são preparadas por voluntários com doações e entregue todos os dias, sem exceção, nas 4 geladeiras instaladas na cidade.

A implantação do projeto veio acompanhada de críticas. “Muita gente só quer reclama,  mas ajudar quem precisa não  quer”, disse Cida. As queixas vem dos vizinhos dos pontos de instalação da geladeira, que reclamam do tumulto ou da sujeira causada pelas pessoas que recebem as marmitas.

"Parece que tem uma parte de preconceito, você não acha? As pessoas não gostam de ficar perto de pobre, dos necessitados, aí reclamam de tudo” disse Cida. Por conta de problemas com a vizinha uma das geladeiras, que ficava no muro da Igreja São Pedro foi retirada.

A situação se evidenciou ainda mais no período da pandemia, em que os voluntários tiveram que dobrar a produção diária de marmitas, que era de 100 e passou a cerca de 200 por dia. Cida diz que além dos moradores de rua, há mães e pais de família desempregados ou com renda abaixo do salário mínimo que buscam a marmita. “Tem gente com dois, três filhos em casa e um salário mínimo, o dinheiro não chega no fim do mês”.

Cida Rosa disse que com aumento da pandemia, também há necessidade de ajuda de mais voluntários e doações.

Dados da FGV (Fundação Getúlio Vargas), a partir das Pnads (Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios) aponta que, em janeiro deste ano, 12,8% dos brasileiros passaram a ver com menos de R$ 246 ao mês (R$ 8,20 ao dia), o que representa linha de pobreza extrema. Isso representa quase 27 milhões de pessoas nessa condição. Esta taxa é a maior que a do início do ano anterior (12,4%) e que a de 2019 (11%).

Fila em um dos pontos de entrega das doações (Foto/Divulgação)
Fila em um dos pontos de entrega das doações (Foto/Divulgação)

Críticas - Ontem, o Campo Grande News mostrou a reclamação de moradores do Condomínio Sevilha, na avenida Marquês de Lavradio, no Jardim São Lourenço, que cobravam um “fiscal” no momento da distribuição das marmitas para evitar a aglomeração de pessoas e a sujeira.

Hoje, a reportagem foi conferir outro ponto de instalação da geladeira, no bairro Monte Castelo, na Rua Rio de Janeiro. A reclamação é que a entrega causa tumulto, sujeira e que os moradores de rua assustam clientes de comércios próximos quando estão agitados. No local, porém, as marmitas estão nos sacos de lixo e não havia moradores de rua no entorno.

A professora Ledislene Barbosa de Castro, 53 anos, mora há 17 anos no bairro e resolveu participar do projeto, consentindo a instalação da Geladeira Solidária no muro da casa, há 6 meses. No local, também há monitoramento eletrônico para evitar algum dano ou furto do eletrodoméstico.

Na geladeira são colocadas de 30 a 40 refeições por turno (7h, 11h e 18h), sendo café da manhã, almoço e domingo. Nas outras geladeiras, o café é distribuído de sexta a domingo.

Ledislene falou que no começo, quando não havia alguém que ficasse na distribuição de marmitas. “No começo a gente deixou solto, viu que não dava certo e decidiu monitorar”, contou. No período em que não havia fiscalização, tinha quem fosse de carro buscar marmita.

Depois que o “fiscal” foi designado para entrega dos alimentos, a situação ficou mais controlada.

Geladeira no bairro Monte Castelo, instalada há 6 meses (Foto: Paulo Francis)
Geladeira no bairro Monte Castelo, instalada há 6 meses (Foto: Paulo Francis)


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