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Campo Grande, Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017

20/02/2016 08:18

Planta que atrai libélulas é 'arma' contra inseto, mas divide especialistas

Crotalária tem sido entregue até a autoridades que visitam MS, mas é preciso ter alguns cuidados

Flávia Lima
Eficácia da Crotalária no combate à dengue ainda é alvo de estudos, mas sementes vem sendo distribuídas na Capital em vários eventos. (Foto:Divulgação)Eficácia da Crotalária no combate à dengue ainda é alvo de estudos, mas sementes vem sendo distribuídas na Capital em vários eventos. (Foto:Divulgação)
Saquinhos com sementes da planta trazem orientação sobre o plantio. (Foto:Allan Nantes)Saquinhos com sementes da planta trazem orientação sobre o plantio. (Foto:Allan Nantes)

A epidemia de dengue e o avanço do zika vírus, doenças causadas pelo Aedes aegypti, que também transmite a chikungunya, tem levado os governos e a população a buscarem medidas alternativas de combate ao mosquito que possam fortalecer as ações já adotadas nos municípios. Entre elas, vem ganhando força o plantio de uma leguminosa conhecida como Crotalária Juncea.

O motivo é que ela atrai a libélula, um predador natural do Aedes. Devido a essa qualidade, nos últimos meses tem sido comum a distribuição de sementes da planta, que na verdade, é uma flor de coloração amarela, por órgãos públicos, empresas e até escolas.

Saquinhos com as sementes foram entregues até durante as visitas dos ministros do Esporte, George Hilton, que esteve na Capital semana passada para participar de ações de combate à dengue, e do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, que participou na sexta-feira (19) de atividades do setor de educação contra o Aedes na cidade. Além disso, virou verdadeira febre na cidade, tanto que em uma das empresas da Capital que comercializa o produto o quilo está sendo vendido a R$ 30,00 e chegou a ficar duas semanas em falta.

"Não sei dizer quantos quilos vendemos por dia, mas duplicou a venda depois da epidemia", diz uma funcionária, que preferiu não se identificar.

A planta tem várias espécies e, segundo o professor da Uniderp (Universidade Para o Desenvolvimento da Região e do Pantanal), Marcos Barbosa Ferreira, doutor em Ciências com especialização em Toxicologia, ela é utilizada na agricultura do Estado há muitos anos, na chamada adubação verde, que consiste na correção e fertilização do solo. 

"Ela pode ser empregada em qualquer tipo de lavoura. É comum o produtor plantar a Crotalária antes de uma cultura para fertilizar o terreno, já que ela fixa o nitrogênio na terra", explica o professor.

Por causa da sua capacidade de adaptação a qualquer região, a planta pode ser facilmente encontrada em qualquer jardim. Após o plantio, a Crotalária Juncea cresce após 100 dias em média e é considerada um repelente natural do Aedes porque em sua fase adulta, atrai a libélula, inseto que se alimenta das larvas do mosquito transmissor da dengue.

O inseto também deposita seus ovos na água parada, assim como o Aedes e quando os ovos da libélula eclodem, as larvas se alimentam das larvas do Aedes. Além disso, há estudos que indicam que a própria libélula quando adulta se alimenta do mosquito Aedes.

Dois lados - No entanto, a "epidemia" de distribuição de sementes divide a opinião de especialistas. Para o coordenador estadual de Controle de Vetores, Mauro Lúcio Rosa, o plantio da flor não pode ser feito de forma indiscriminada.

"É preciso tomar cuidado para não causar um desequilíbrio no meio-ambiente, pois, se atrairmos uma grande população de libélulas, corremos o risco de ter que conviver com uma praga", adverte.

Mauro Lúcio apoia a utilização de armas naturais de combate, como a já popular citronela, mas ressalta que a eficiência desses métodos ainda é discutida pela comunidade científica e, por isso, o combate mecânico e os cuidados para garantir a limpeza das residência e eliminação dos focos deve ser permanentes.

"O carro-chefe da eliminação de focos se chama controle mecânico. Tudo pode ser ferramenta, mas jamais devemos dispensar o manejo ambiental e os cuidados dentro de casa", afirma.

O coordenador também explica que a libélula nem sempre vai eliminar o Aedes, até porque ela vai se alimentar apenas dentro de sua necessidade.

Mas, para quem quiser aposta no método alternativo, Mauro aconselha o plantio em calçadas e jardins, já que ela tem o porte médio e não compromete a estrutura de concreto.

Tóxica – O professor Marcos Barbosa concorda com os locais sugeridos por Mauro, principalmente porque, de acordo com ele, a Crotalária é tóxica e pode causar graves infecções no fígado. O maior risco está na ingestão das sementes que, se forem absorvidas pelo organismo em grande quantidade, pode provocar morte súbita.

Já a ingestão a longo prazo, pode ocasionar cirrose e até câncer. "A planta toda é tóxica. Quem tem crianças em casa deve ficar atento porque até a folha pode fazer mal", alerta.

Por isso, ele diz que é fundamental orientar a população durante a distribuição das sementes em ações de combate à dengue ou mutirões.

"A Crotalária é uma planta ornamental e é tão nociva quanto o Confrei e a Mamona, mas também não podemos colocar medo nas pessoas. Basta tomar cuidado, principalmente com as crianças", destaca.

Na opinião do professor, o alerta deve ser feito apenas quanto a sua toxidade e não ao seu plantio, mesmo que ele ocorra sem controle. Segundo Marcos Barbosa, a Capital sofre com a falta de libélulas, por isso não vê problemas em atrair essa população.

"Levaria muitos anos para sentirmos alguma interferência no meio ambiente. No passado, Campo Grande já teve muito esse inseto e hoje virou raridade. É bom até para repovoar a população que existia", enfatiza.

Quanto a eficácia da planta no combate ao Aedes, o professor explica que atrair a libélula é apenas parte de um processo, já que o ciclo de vida do Aedes é mais curto do quer o da libélula. "O bom é que ela pode depositar os ovos em locais de difícil acesso, assim como o Aedes faz, eliminando as larvas do mosquito", diz.

O ponto comum entre os dois profissionais é a necessidade da população não deixar de fazer sua parte. "As pessoas não podem deixar de lado a conscientização e parar de limpar seus terrenos", conclui.

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