A luta para a medicina abdicar o diagnóstico de estresse nas úlceras
Até há pouco tempo uma pessoa diagnosticada com úlcera estomacal tinha de se submeter a um tratamento que envolvia desestressar e uma dieta de quase fome. Quem tinha essa doença era visto pela sociedade como alguém próximo da loucura. Eles estavam errados. A úlcera estomacal é causada por uma bactéria com o formato de uma hélice, daí o nome “Helicobacter pylori”, uma “hélice no piloro”.
Os japoneses e o porquinho-da-Índia.
No início do século passado, pesquisadores japoneses chegaram a provocar úlceras estomacais em porquinhos-da-Índia usando algumas bactérias suspeitas que tinham a forma de uma hélice que haviam retirado de gatos. No entanto, a pesquisa nipônica nunca se consolidou. A medicina fez troça dos japoneses.
O grego multado e condenado.
Se os japoneses se converteram em motivo de chacota, pior foi o destino de um médico grego. Ele tratou sua própria úlcera estomacal com antibióticos e utilizou com sucesso o mesmo método em seus pacientes. No entanto, nenhuma revista cientifica quis publicar suas descobertas. Nenhuma empresa farmacêutica se interessou pelo tratamento. Como “agradecimento”, as autoridades gregas multaram o médico e o levaram ao tribunal.
A ousadia dos australianos.
Dois australianos, Warren e Marshall conseguiram convencer alguns microbiologistas que eram as bactérias as causadoras da úlcera estomacal. Mas, fora isso, a teoria bacteriana foi soterrada por publicações e mais publicações afirmando que era o estresse o causador da doença. Tal como os japoneses, conseguiram comprovar a teoria em porquinhos-da-Índia e em camundongos. E nada de reconhecimento. Com o tempo, Warren e Mashall ficaram desesperados. Eles sabiam que estavam no caminho certo, mas as autoridades médicas não aceitavam. Com pura audácia, Marshall decidiu virar cobaia de seu experimento.
Prêmio Nobel.
Engoliu uma cepa de bactérias retiradas de um paciente com úlcera e dez dias depois, começou a tomar antibióticos. Tudo devidamente documentado. O jogo virou. Muitos começaram a acreditar na teoria bacteriana, abandonando a do estresse. Mas ainda foram necessários dez longos anos para as autoridades aceitarem. Em 2005, os dois receberam a maior honraria da ciência pela “descoberta”: o Prêmio Nobel
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