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Ensinar Juntos

Como educar com limites e valores na era digital

Por Carlos Alberto Rezende (*) | 11/06/2026 12:00

O mundo mudou de forma irreversível. Hoje, um jovem com acesso à internet tem o conhecimento do mundo na palma da mão. A formação técnica e acadêmica tornou-se altamente acessível e, sem dúvida, abre portas cruciais no mercado de trabalho. No entanto, estamos diante de um paradoxo moderno: nunca foi tão fácil aprender uma profissão, e nunca foi tão difícil aprender a conviver.

Em meio a curtidas, algoritmos e interações mediadas por telas, o grande desafio dos pais e educadores mudou de eixo. A questão central não é mais apenas "o que" os jovens sabem, mas "quem" eles são quando ninguém está olhando. É aqui que entra o papel insubstituível da educação familiar, baseada em limites claros e valores humanos fundamentais.

O valor real que escolas não ensinam. A verdade nua e crua é que a excelência técnica pode conseguir uma entrevista de emprego, mas são os valores de convivência como empatia, respeito, resiliência, honestidade e responsabilidade, que garantem a permanência e a ascensão de um jovem na vida adulta.

Quando a família se omite na construção desses pilares, delegando a educação aos influenciadores digitais ou ao fluxo aleatório da internet, o jovem cresce em uma bolha de gratificação instantânea. No mundo digital, se algo incomoda, basta dar unfollow ou bloquear. Na vida real, porém, as frustrações não têm botão de mudo, e os conflitos profissionais e afetivos exigem inteligência emocional e capacidade de negociação.

Os valores familiares funcionam como uma bússola interna. O jovem que aprende a respeitar o espaço do outro, a ouvir feedbacks sem desmoronar e a agir com integridade sobressai-se naturalmente. Em um mercado saturado de competências técnicas, a civilidade e a ética viraram artigos de luxo.

Como estabelecer limites no mundo digital?

Dizer que é preciso "dar limites" é fácil; o desafio é o como. A internet foi desenhada para ser viciante, e disputar a atenção dos filhos com o algoritmo exige estratégia, consistência e, acima de tudo, afeto. Não se trata de proibir a tecnologia o que seria irreal e contraproducente, mas de governá-la.

Existem caminhos fundamentais para equilibrar a balança:


O cérebro de um adolescente ainda está em desenvolvimento, especificamente na área responsável pelo controle de impulsos e avaliação de riscos. Quando os pais determinam horários para desligar as telas ou restringem o acesso a certos aplicativos, não estão sendo chatos, estão atuando como o córtex pré-frontal (a área do julgamento) que o jovem ainda não tem totalmente formado. Limite é demonstração de cuidado.


Os valores básicos de convivência são aprendidos no "olho no olho". É urgente resgatar zonas livres de tecnologia dentro de casa. As refeições (café, almoço ou jantar) e os momentos que antecedem o sono devem ser sagrados e sem telas. É nesses espaços vazios de notificações que os filhos aprendem a conversar, a contar como foi o dia, a piada interna da família e, consequentemente, a arte da conexão real.


De nada adianta exigir que o jovem saia do celular se os pais respondem às suas perguntas sem tirar os olhos da tela. A presença autêntica dos adultos é o maior referencial. Os filhos absorvem a forma como os pais lidam com a própria frustração, como tratam o prestador de serviços e como gerenciam o próprio tempo online.


Substituir o tempo de tela por conexões reais, o tédio digital é combatido com vida real. Estimular o jovem a praticar esportes, aprender um instrumento musical, realizar trabalho voluntário ou assumir responsabilidades domésticas ajuda a aterrá-lo na realidade. Essas atividades geram a chamada "dopamina de esforço" (a satisfação que vem do processo e da superação), combatendo a dopamina barata e rápida das redes sociais.


Educar na era digital dá trabalho. Exige conversas longas, firmeza para sustentar o "não" diante do choro ou da cara feia, e uma vigilância constante. Mas esse é o investimento mais seguro que uma família pode fazer.

A formação acadêmica e as habilidades técnicas são ferramentas fantásticas, e representantam a carcaça de um navio. Os valores humanos e a capacidade de conviver em sociedade, moldados pelo limite e pelo afeto familiar, são o motor e o leme. Quando equipamos nossos jovens com essa estrutura, garantimos que eles não apenas sobrevivam ao mundo digital, mas que se tornem adultos maduros, capazes de abrir portas, construir pontes e transformar a realidade ao seu redor.

(*)André Borges, advogado e professor de direito constitucional.