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Ensinar Juntos

Geração superficial: tecnologia e conhecimento raso

Por Carlos Alberto Rezende (*) | 04/05/2026 07:17

Vivemos na era da informação ilimitada. Nunca foi tão fácil acessar dados, tutoriais, cursos e conteúdos diversos com apenas um toque na tela. No entanto, um paradoxo preocupante emerge: quanto mais tecnologia à disposição, menos profundidade parece haver no aprendizado dos jovens. O uso excessivo de telas, redes sociais e mecanismos de busca instantâneos está produzindo uma geração que sabe de tudo um pouco – mas quase nada com consistência. E, mais grave: jovens cada vez menos preparados para os desafios reais da vida, com a ilusão do conhecimento fácil.

Quando um estudante tem a resposta de qualquer pergunta em segundos, ele confunde acesso à informação com aprendizado real. Saber pesquisar no Google não é o mesmo que compreender, reter e aplicar o conhecimento. O cérebro humano precisa de repetição, reflexão e esforço para consolidar saberes. A tecnologia, ao oferecer atalhos constantes, enfraquece a memória de longo prazo e a capacidade de raciocínio crítico.

O resultado: jovens que leem um parágrafo, acham que dominam o assunto, mas são incapazes de manter uma conversa aprofundada ou escrever um texto coerente sem copiar e colar, com a morte da atenção e o reinado do raso.

Notificações, rolagem infinita e vídeos de poucos segundos treinaram uma geração para a impaciência cognitiva. Manter o foco por mais de 10 minutos em um livro ou em uma tarefa complexa tornou-se um desafio. O cérebro acostumado com estímulos rápidos e recompensas imediatas (curtidas, comentários, novos conteúdos) perde a capacidade de mergulhar em temas complexos. O conhecimento raso é exatamente isso: fragmentos soltos, sem conexão, que não formam uma base sólida para resolver problemas da vida real. O jovem até decora alguns conceitos, mas não sabe aplicá-los e com menos preparo para a vida real. Saber pedir um Ifood não é o mesmo que cozinhar. Mandar mensagem de áudio não treina oratória. Resolver problemas no celular não ensina a lidar com conflitos presenciais, frustrações ou tarefas manuais. Os empregadores já relatam dificuldades: jovens que não sabem redigir um e-mail formal, não cumprem horários, desistem diante da primeira dificuldade e esperam instruções passo a passo o tempo todo, como se a vida fosse um tutorial de YouTube. Além disso, a falta de conhecimento profundo em áreas como matemática básica, interpretação textual, história ou ciências naturais compromete a autonomia para tomar decisões importantes: desde gerenciar finanças até avaliar informações políticas ou de saúde. O que fazer? Não é proibir, mas equilibrar. A tecnologia não é vilã, mas o uso excessivo e sem mediação sim. Para reverter esse quadro, é preciso:

1. Incentivar leituras longas e debates presenciais – sem celular por perto.

2. Cobrar o esforço da produção pessoal – resumos feitos à mão, pesquisas aprofundadas, cálculos sem calculadora.

3. Ensinar pausas digitais – momentos do dia sem telas, incluindo refeições em família e brincadeiras ao ar livre.

4. Valorizar o erro como parte do aprendizado – hoje muitos jovens desistem porque a tecnologia ensinou que dá para reiniciar o vídeo ou a fase do jogo sem consequências. Preparar um jovem para a vida vai muito além de ensinar a operar dispositivos. Exige desenvolver paciência, disciplina, capacidade de aprofundamento e resiliência. O conhecimento raso pode impressionar num quiz de redes sociais, mas não constrói carreiras, relacionamentos duradouros ou cidadania plena.

A pergunta que fica é: estamos dispostos a desacelerar para que a próxima geração realmente aprenda ou continuaremos trocando sabedoria por distração?

(*) Carlos Alberto Rezende é conhecido como Professor Carlão. Siga no Instagram: @oprofcarlao.