Às seis, a operação. Às oito, a empresa.
Rodrigo Gonçalves Pimentel
São seis horas da manhã.
A campainha toca. Policiais chegam com um mandado judicial. Documentos são recolhidos, computadores apreendidos e o empresário passa a responder a uma investigação.
Em poucas horas, sua rotina muda completamente.
Mas existe uma parte dessa história que quase nunca aparece nas manchetes.
Às oito da manhã, a empresa precisa abrir.
Os funcionários chegam. Os caminhões precisam sair. Os fornecedores aguardam pagamentos. Os bancos querem informações. Clientes começam a ligar.
E alguém precisa tomar decisões.
É nesse momento que surge uma pergunta que costuma ficar em segundo plano:
Quem cuida da empresa enquanto o empresário cuida da própria defesa?
Uma investigação criminal pode envolver fatos graves, que precisam ser apurados com rigor. O direito de defesa deve ser respeitado, assim como o trabalho das instituições responsáveis pela investigação.
Mas uma coisa não elimina a outra.
A apuração de uma eventual responsabilidade individual não suspende automaticamente as obrigações de uma empresa com seus empregados, clientes, fornecedores e credores.
E, dependendo da situação, os efeitos econômicos de uma investigação podem atingir muito mais pessoas do que aquelas diretamente envolvidas.
Existe, porém, uma consequência menos evidente.
Uma investigação pode desencadear uma segunda crise, que não se resolve necessariamente com as mesmas medidas utilizadas na defesa criminal.
É a crise da empresa que precisa continuar funcionando enquanto os fatos são esclarecidos.
O problema que não está no mandado
Imagine um grupo empresarial que, de uma hora para outra, vê um de seus principais administradores envolvido numa investigação.
Talvez exista uma medida judicial que limite sua atuação. Talvez determinados documentos ou equipamentos tenham sido apreendidos. Talvez a notícia, por si só, já provoque insegurança entre pessoas que mantêm relações comerciais com a empresa.
O banco solicita esclarecimentos. Um fornecedor começa a rever o limite de crédito. Um cliente importante quer saber se o contrato continuará sendo cumprido.
Nenhuma dessas reações significa, necessariamente, que a empresa tenha cometido alguma irregularidade.
Mas cada uma delas pode produzir consequências econômicas.
E aqui existe uma diferença que considero fundamental.
Uma investigação busca esclarecer fatos e eventuais responsabilidades.
A administração de uma empresa, por sua vez, precisa continuar tomando decisões sobre o que ainda vai acontecer.
Enquanto uma olha para acontecimentos que precisam ser apurados, a outra não pode deixar de olhar para o futuro.
São preocupações diferentes, mas que passam a existir ao mesmo tempo.
Quando a incerteza começa a custar dinheiro
Quem administra uma empresa sabe que confiança não aparece necessariamente no balanço, mas interfere diretamente nos resultados.
Um fornecedor pode continuar vendendo, mas reduzir o prazo de pagamento.
Um banco pode manter a relação comercial, mas exigir garantias adicionais.
Um cliente pode não cancelar o contrato, mas suspender temporariamente novos pedidos.
E o empresário pode descobrir que, mesmo antes de qualquer conclusão sobre a investigação, a empresa já está enfrentando dificuldades que não existiam na semana anterior.
É importante compreender que essas consequências não são automáticas. Dependem da natureza dos fatos, das medidas adotadas e das particularidades de cada negócio.
Mas, quando aparecem, precisam ser administradas.
Não se trata de impedir o trabalho das autoridades, esconder informações ou tentar contornar determinações judiciais.
Trata-se de preservar, dentro da legalidade, uma atividade econômica da qual dependem muitas pessoas.
Porque, em determinadas situações, a maior dificuldade não estará apenas em responder aos questionamentos sobre o passado.
Estará em impedir que a incerteza comprometa decisões necessárias para o futuro.
Defender o empresário não é a mesma coisa que preservar a empresa
Existe uma razão para a defesa criminal ocupar naturalmente o centro das atenções quando uma investigação atinge um empresário.
Sua liberdade, seus direitos e sua reputação podem estar em jogo.
Mas o negócio possui uma realidade própria.
Há contratos em execução, operações financeiras, relações com empregados, compromissos comerciais e decisões que não podem simplesmente aguardar a conclusão de um processo.
E essas questões exigem uma leitura que ultrapassa o aspecto exclusivamente criminal.
É preciso compreender como a empresa funciona.
Quem possui poderes para representá-la? Quais decisões dependem do administrador investigado? Que obrigações podem ser afetadas por eventuais restrições judiciais? Quais relações comerciais precisam ser preservadas? Que providências são possíveis sem interferir na investigação?
Às vezes, o problema exige reorganizar responsabilidades internas.
Em outras situações, será necessário rever contratos, administrar contingências financeiras, estabelecer uma comunicação adequada com parceiros comerciais ou preparar medidas para assegurar a continuidade operacional.
Tudo isso deve acontecer de forma coordenada com a defesa jurídica e com absoluto respeito às determinações das autoridades.
Afinal, uma empresa pode precisar demonstrar a legitimidade de suas operações e, simultaneamente, encontrar meios lícitos de continuar funcionando.
Uma preocupação não substitui a outra.
A vulnerabilidade que ninguém percebeu
Há ainda uma dimensão anterior a qualquer investigação.
Hoje, uma empresa pode ter fornecedores em diferentes países, participar de estruturas societárias complexas, contratar intermediários, movimentar recursos por diferentes instituições e desenvolver negócios que seriam impensáveis poucos anos atrás.
As relações empresariais ficaram mais rápidas, integradas e sofisticadas.
Mas será que a organização interna dessas empresas acompanhou a mesma velocidade?
O empresário conhece suficientemente seus parceiros comerciais?
Consegue demonstrar a origem, o propósito e a documentação das operações mais relevantes?
Sabe quais riscos podem surgir das relações mantidas com terceiros?
E, principalmente, existe uma estrutura capaz de responder adequadamente quando alguma dessas relações passa a ser questionada?
Essas perguntas não pressupõem a existência de irregularidades.
Pelo contrário.
Uma operação perfeitamente legítima também pode exigir esclarecimentos, especialmente quando envolve diferentes empresas, países, contratos e fluxos financeiros.
É justamente por isso que governança, controles internos e documentação adequada não deveriam ser vistos apenas como obrigações burocráticas.
Eles ajudam a empresa a compreender melhor suas próprias operações e a responder com mais segurança diante de situações inesperadas.
Nenhuma estrutura elimina todos os riscos.
Mas existe uma diferença importante entre enfrentar um problema conhecendo a própria operação e descobrir, no momento da crise, que ninguém consegue explicar integralmente como ela funciona.
A empresa também precisa de uma defesa
Talvez tenhamos nos acostumado a olhar para as grandes investigações apenas pela dimensão criminal.
Quem foi investigado? Quais foram as acusações? Que medidas foram determinadas? Como será conduzida a defesa?
São perguntas necessárias.
Mas existe outra que merece atenção:
O que acontecerá com a atividade empresarial enquanto tudo isso estiver sendo esclarecido?
Uma investigação pode durar meses ou anos. Durante esse período, decisões continuam sendo tomadas, contratos continuam produzindo efeitos e pessoas continuam dependendo daquela atividade econômica.
A defesa de direitos individuais e a preservação da empresa não são objetivos incompatíveis.
Ao contrário, quando conduzidas de maneira responsável e coordenada, podem contribuir para que a apuração dos fatos aconteça sem que os impactos econômicos se ampliem desnecessariamente.
Não significa colocar a atividade empresarial acima da investigação ou das responsabilidades eventualmente existentes.
Significa compreender que uma empresa é mais do que a pessoa de seu controlador ou administrador.
Existe uma organização econômica, com empregados, contratos, clientes, fornecedores e uma história que não desaparece quando alguém passa a ser investigado.
Porque uma investigação pode começar às seis da manhã.
Às oito, a empresa já estará diante de decisões que não podem esperar.
E talvez o maior desafio não seja apenas defender o que aconteceu até aquele momento.
Seja também preservar aquilo que ainda precisa continuar existindo.
(*) Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado (OAB/SP 421.329 | OAB/DF 68.003 | OAB/MS 16.250), empresário e corretor de imóveis (CRECI/MS 11.939). Sócio do Pimentel & Mochi Advogados e gestor da Todeschini MS e RP Imóveis. Foi Secretário de Governo e Presidente da Fundação de Cultura de Campo Grande.
Siga no Instagram: @rodrigogpimentell

