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Entre Risco e Decisão

Quando tudo virou narrativa, onde ficou a verdade?

Por Rodrigo Gonçalves Pimentel (*) | 17/09/2026 08:00

Tenho pensado bastante sobre uma palavra que passou a fazer parte de quase tudo: narrativa.

Hoje, uma discussão entre amigos tem duas narrativas. Uma briga de família tem duas narrativas. Um conflito entre sócios tem duas narrativas. Um processo judicial tem narrativas concorrentes. Uma investigação criminal rapidamente ganha uma narrativa pública. Na política, então, às vezes parece que já nem estamos discutindo os mesmos fatos.

Cada lado organiza acontecimentos, escolhe palavras, destaca determinadas informações, omite outras e constrói uma história capaz de explicar o que aconteceu.

E eu tenho me feito uma pergunta cada vez mais incômoda: no meio de tantas narrativas, onde ficou a verdade?

Veja um exemplo recente.

Entre junho de 2025 e junho de 2026, o Bradesco fechou 324 agências no Brasil.

Isoladamente, o número permite uma manchete bastante convincente: um dos maiores bancos brasileiros está fechando centenas de agências, reduzindo sua estrutura física e cortando postos de trabalho.

Crise. Encolhimento. Um modelo que deixou de funcionar.

Os fatos estão errados? Não.

Agora acrescente outra informação.

No primeiro semestre de 2026, o mesmo Bradesco registrou R$ 13,861 bilhões de lucro líquido recorrente. E, segundo o próprio banco, 98% das operações dos clientes já eram realizadas pelos canais digitais.

As agências deixaram de ter sido fechadas? Não.

O lucro deixou de existir? Também não.

Os dois fatos são verdadeiros.

Quem mostrar apenas o primeiro pode construir uma história de crise e encolhimento. Quem mostrar apenas o segundo pode construir uma história de eficiência e transformação digital.

E talvez nenhum dos dois, sozinho, tenha contado toda a história.

É exatamente isso que me preocupa.

Porque uma narrativa não precisa ser construída com uma mentira. Ela pode ser construída inteiramente com fatos verdadeiros e, ainda assim, produzir uma compreensão falsa da realidade.

Uma fotografia pode ser verdadeira e produzir uma conclusão falsa. Um número pode estar correto e esconder o contexto. Um trecho de uma conversa pode ter sido reproduzido exatamente como aconteceu e contar uma história completamente diferente quando retirado do que veio antes e depois.

Uma decisão judicial de centenas de páginas pode chegar às redes sociais resumida a três frases. Uma investigação que reúne documentos, depoimentos, versões e provas pode chegar à opinião pública por uma manchete.

Não foi necessário inventar nada. Foi necessário apenas escolher.

Escolher o trecho. Escolher a fotografia. Escolher o número. Escolher a manchete. Escolher o momento em que a história começa — e o momento em que ela termina.

Talvez uma das maneiras mais eficientes de distorcer a realidade hoje não seja inventar um fato. É escolher apenas os fatos necessários para produzir a conclusão desejada.

E nunca tivemos tantas ferramentas para fazer isso.

Imprensa, redes sociais, vídeos curtos, cortes, influenciadores, assessorias, grupos de mensagens e, agora, inteligência artificial disputam nossa atenção o tempo inteiro.

Mas não disputam apenas os fatos. Disputam o significado dos fatos.

E quem consegue contar a história mais simples, mais emocional ou mais compatível com aquilo em que determinado público já acredita começa com enorme vantagem.

Talvez seja por isso que algumas discussões atuais pareçam impossíveis.

Veja o ambiente político.

Um mesmo acontecimento pode ser apresentado por um lado como prova de defesa das instituições e, pelo outro, como prova de abuso delas.

No próprio Supremo Tribunal Federal, ministros podem partir da mesma Constituição, analisar uma mesma controvérsia e chegar a interpretações jurídicas profundamente diferentes.

Isso faz parte do Direito.

A Constituição está ali. Os votos estão ali. Os fatos do processo estão ali. A divergência jurídica é legítima.

O que me preocupa começa quando essa divergência deixa as páginas do processo e entra na guerra das narrativas.

Um voto vira prova definitiva de autoritarismo para uns e de defesa da democracia para outros. O voto divergente pode imediatamente receber os significados opostos.

E nós, do lado de fora, somos convocados a escolher.

Um lado. Uma manchete. Uma interpretação. Uma verdade.

Talvez o problema seja justamente essa pressa.

Porque entre aquilo que aconteceu e aquilo que nós acreditamos que aconteceu existe uma enorme quantidade de gente tentando nos convencer do que aquilo significa.

Isso se torna ainda mais grave numa investigação criminal.

Uma acusação é divulgada. Aparecem documentos, trechos de depoimentos, fotografias, mensagens, buscas, prisões.

Uma narrativa começa a se formar.

Antes que a defesa tenha acesso a todo o material, antes do contraditório, antes da produção completa da prova e, muitas vezes, antes mesmo de existir processo, a sociedade já conhece a história.

E frequentemente já escolheu o culpado.

Depois, se aparecer uma informação diferente, existe um problema adicional: a primeira narrativa já ocupou o espaço.

Reconstruir uma reputação exige muito mais do que destruí-la.

E isso não acontece apenas na política ou na Justiça.

Acontece dentro das empresas.

Em uma disputa societária, cada sócio reorganiza vinte anos de história de maneira que suas decisões pareçam razoáveis e as decisões do outro pareçam inexplicáveis.

Acontece nas famílias.

Depois de uma ruptura, cada pessoa reconstrói anos de convivência a partir daquilo que aconteceu no final.

Acontece entre amigos. Acontece nos negócios. E acontece conosco.

Talvez por isso, diante de uma narrativa muito convincente, uma das primeiras perguntas devesse ser justamente aquela que quase nunca fazemos: o que ficou de fora?

Qual é o fato e qual é a interpretação sobre o fato? Qual é a fonte original? O que aconteceu antes? O que aconteceu depois? Quem está me contando essa história? Existe alguma informação relevante que, se incluída, mudaria minha percepção?

E existe uma pergunta ainda mais desconfortável: se os personagens dessa história fossem outros, eu chegaria à mesma conclusão?

Se aquilo que considero inadmissível quando praticado por alguém de quem discordo se torna justificável quando praticado por alguém de quem gosto, talvez eu já não esteja analisando fatos.

Estou defendendo um lado.

E existe um teste ainda mais difícil: o que precisaria acontecer para eu mudar de opinião?

Essa pergunta me incomoda porque ela nos obriga a enfrentar a nós mesmos.

Se a resposta for “nada”, talvez eu já não esteja procurando a verdade. Estou apenas procurando argumentos para defender aquilo em que decidi acreditar.

Não sei se existe uma solução simples para isso. Talvez não exista.

Mas acredito que existe uma disciplina possível: resistir à necessidade de formar opinião imediatamente.

Aceitar que às vezes não temos informação suficiente. Ler além da manchete. Procurar a fonte original. Ouvir a versão que nos incomoda. Separar fato de interpretação. E desconfiar um pouco mais justamente da informação que confirma perfeitamente tudo aquilo em que já acreditávamos.

Mudar de opinião diante de um fato novo não deveria ser motivo de constrangimento. Talvez seja uma das maiores demonstrações de independência intelectual que ainda nos restam.

Porque o maior risco dessa guerra talvez não seja acreditarmos numa mentira.

É algo muito mais difícil de perceber.

É passarmos a escolher primeiro em quem queremos acreditar e, só depois, procurar os fatos que confirmem nossa escolha.

Nesse momento, já não importa quem tem razão. Importa quem conta melhor a história.

E quando isso acontece, talvez a pergunta mais importante já não seja qual narrativa venceu.

É onde, no meio de todas elas, nós deixamos a verdade.

(*) Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado (OAB/SP 421.329 | OAB/DF 68.003 | OAB/MS 16.250), empresário e corretor de imóveis (CRECI/MS 11.939). Sócio do Pimentel & Mochi Advogados e gestor da Todeschini MS e RP Imóveis. Foi Secretário de Governo e Presidente da Fundação de Cultura de Campo Grande.

Siga no Instagram: @rodrigogpimentell