Cine Câmara transforma plenários em cinemas e atrai 10 mil pessoas
Rede instalada em MS soma mais de 4 mil assentos e cerca de 200 sessões; iniciativa leva filmes a espaços leg
Toda cidade tem uma Câmara Municipal. Em Mato Grosso do Sul, plenários e auditórios destinados às atividades legislativas ganharam uma função a mais: viraram salas de cinema. Entre abril e setembro, o Cine Câmara realizou em um universo de 40 municípios sul-mato grossenses cerca de 200 sessões e alcançou aproximadamente 10 mil espectadores, principalmente em localidades onde não existem salas comerciais de exibição.
A estrutura montada pelo projeto já reúne mais de 4 mil assentos nas Câmaras participantes, em espaços que variam de aproximadamente 30 a mais de 300 lugares. Cada município recebe um kit com projetor Full HD, tela de 120 polegadas, sistema de som e notebook. Os equipamentos permanecem sob responsabilidade do Legislativo local, permitindo que as sessões continuem e que novos públicos sejam alcançados.
É justamente aí que está um dos principais resultados do Cine Câmara. Mais do que promover exibições durante alguns meses, a iniciativa aproveita uma estrutura pública presente nos municípios para formar uma rede permanente e descentralizada de acesso ao audiovisual. E essa rede já começou a ultrapassar os próprios plenários, chegando a escolas, distritos, projetos sociais e aldeias.
“O Instituto Curumins se orgulha de contribuir na criação dessa rede de salas em 40 cidades, ampliando o acesso à nossa produção. Ver filmes daqui e de fora é um direito de todos”, afirma Belchior Cabral, coordenador-geral do Rota Cine MS.
Projeto atrai espectadores em todas as regiões do Estado
Os números ajudam a dimensionar o alcance do projeto. Japorã, no extremo sul do Estado e na faixa de fronteira com o Paraguai, registrou o maior público do circuito: 1.111 espectadores em dez sessões. Apenas na exibição de 3 de julho foram 462 pessoas. Alcinópolis reuniu 860 espectadores em oito sessões; Santa Rita do Pardo chegou a 651; e Bataguassu e Rio Brilhante registraram 600 espectadores cada.
Essas cinco cidades possuem, juntas, apenas 719 assentos, mas receberam 3.822 pessoas — aproximadamente 38% do público total alcançado pelo Cine Câmara no período. A distribuição geográfica dessas plateias também revela a dimensão da circulação: Japorã está no extremo sul; Alcinópolis, no norte; Santa Rita do Pardo e Bataguassu, no leste; e Rio Brilhante, na região da Grande Dourados.
Outros municípios também tiveram adesão significativa. São Gabriel do Oeste registrou 510 espectadores; Eldorado, 432; Pedro Gomes, 400; Dois Irmãos do Buriti, 375; Figueirão, 341; e Fátima do Sul, 310. O circuito também contabilizou público em Rio Verde de Mato Grosso, Anastácio, Vicentina, Paraíso das Águas, Corguinho, Itaporã, Antônio João e outras cidades.
Somados, os espaços das Câmaras participantes oferecem mais de 4 mil assentos, em auditórios que vão de aproximadamente 30 a mais de 300 lugares. A estrutura permanece nos municípios e permite a continuidade das exibições e de ações de formação de público.
“O Cine Câmara comprovou na prática que o cinema tem público no interior do Estado e que é preciso uma política cultural para fazer circular o audiovisual produzido em MS”, destaca Pedro Ortale, produtor do Rota Cine MS.
Produções de MS encontram público no interior
Um dos eixos do circuito é abrir espaço para o audiovisual produzido em Mato Grosso do Sul. A programação incluiu “Curupira – O Herói da Mata”, de Gustavo Santana; “As Marias”, de Dannon Lacerda; “Interiores”, de Dudu Azevedo; “Les Garçons”, de Breno Moroni; “Poty”, de Daniele Jorge João e Michele Perito Concianza; “Sem Paralelo”, de Andréa Freire; e “Meu Mundo em Cores Iguais”, de Milena Victória, com tradução em Libras.
"Curupira - O Herói da Mata da Mata" e o premiado curta "As Marias" estiveram entre os títulos de maior circulação. A animação foi exibida em Fátima do Sul, cidade onde vive o diretor Gustavo Santana, para crianças e adolescentes.
“Produzir é fundamental, mas a obra somente completa sua função quando chega ao público. Sem circulação, muitos filmes acabam restritos a festivais e mostras específicas. É muito importante o fato de o projeto valorizar produções realizadas no Estado”, afirma o cineasta Gustavo Santana.
O diretor de "As Marias", Dannon Lacerda, destaca a conquista de novos espectadores que o projeto possibilita para o cinema sul-mato-grossense.
"O Cine Câmara é um projeto muito importante para a formação de público e também para difusão dos filmes produzidos em nosso Estado. Meu curta 'As Marias' foi exibido em muitas cidades e os retornos foram incríveis, demonstrando o poder que o cinema tem de comunicar e proporcionar reflexões, dar visibilidade às histórias locais e também gerar emprego e renda."
Em Antônio João, fronteira com o Paraguai, foram realizadas sessões para estudantes do 1º ao 8º ano e também para alunos da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE).
“O projeto é excelente, gera uma interação com as crianças muito forte e envolve toda a população”, afirma Luís Pistão, presidente da Câmara de vereadores de Antônio João.
Em Pedro Gomes, no norte de MS, divisa com Mato Grosso e a 305 km da Capital, o projeto atraiu cerca de 400 espectadores em 10 sessões realizadas entre abril e agosto.
“O Cine Câmara trouxe a cultura e o cinema para mais perto da nossa população, principalmente das nossas crianças e jovens, que muitas vezes nunca tiveram a oportunidade de estar em uma sala de cinema. É uma iniciativa que proporciona cultura, lazer e novas experiências, que demonstra o nosso compromisso em levar ações que façam a diferença na vida das pessoas. A nossa intenção é dar continuidade, ampliar esse projeto e levar o cinema para um número ainda maior de pessoas”, garante Reges Nunes de Paula, presidente da Câmara Municipal de Pedro Gomes.
Da Câmara para escolas, distritos e aldeias
Em algumas cidades, o cinema ultrapassou as portas do Legislativo. Os equipamentos passaram a ser utilizados em escolas, distritos e comunidades mais distantes das sedes municipais. Em Fátima do Sul, a programação chegou ao distrito de Culturama, na Escola Municipal O Pioneiro. Em Aquidauana, ocorreu o movimento inverso: estudantes da Escola Municipal Franklin Cassiano, localizada no distrito de Camisão, foram levados até a Câmara Municipal para assistir à animação “Curupira – O Herói da Mata”. São experiências diferentes produzidas a partir do mesmo princípio: utilizar a estrutura instalada em cada município para aproximar novos públicos do cinema.

Em Japorã, o projeto alcançou o distrito de Jacareí, percorrendo as aldeias da região. O encerramento do Cine Câmara no município deve acontecer no estádio de futebol em uma sessão ao ar livre com uma imensa tela de LED.
“O Cine Câmara é uma das melhores e mais importantes ações. O projeto permite que a população tenha contato com o audiovisual, com assuntos antigos e do momento. Em Japorã não temos cinema e poucos têm acesso a televisão aberta. Faz toda a diferença proporcionar que as pessoas do interior tenham a oportunidade de experimentar o que é um cinema de verdade”, frisa Walter J. Silva, coordenador do projeto na Câmara de Japorã.
Do público escolar ao Cine Câmara +60
Cada município também passou a construir sua própria relação com a programação. Em Pedro Gomes, alunos da Escola Municipal Santo Antônio participaram, durante três dias, de sessões que aproximaram audiovisual e educação. Foram exibidos “O Menino que Descobriu o Vento” e episódios de “O Show da Luna” relacionados à sustentabilidade. Em Anastácio, as sessões deram origem a debates com estudantes sobre preservação do Pantanal, protagonismo feminino e questões sociais. A atividade reuniu alunos dos 2º e 3º anos da Escola Municipal Cívico-Militar Teodoro Rondon, no Plenário Sales de Arruda Braga.

No município de Figueirão, o foco foram os estudantes das escolas públicas da cidade. O projeto atraiu cerca de 340 espectadores em sete sessões de abril a setembro.
“O Cine Câmara foi muito positivo para a nossa cidade, que é pequena e tem poucas opções de divertimento. Então o projeto trouxe cultura e conhecimento para a população, especialmente para as crianças”, frisa Luciene Teodora, presidente da Câmara Municipal de Figueirão.
Em Corguinho, outra experiência mostrou a possibilidade de alcançar diferentes gerações. Em parceria com o CRAS, o Cine Câmara +60 reuniu idosos para uma manhã de cinema, convivência e integração. Os exemplos mostram que, após instalada a estrutura, cada município pode desenvolver ações próprias, envolvendo escolas, projetos sociais, diferentes faixas etárias, distritos e comunidades fora da sede.

Uma rede de cinema a partir das Câmaras
Ao utilizar uma estrutura pública já existente e instalar equipamentos que permanecem nos municípios, o Cine Câmara deixa uma capacidade local de exibição que pode continuar sendo utilizada após cada sessão.
É justamente essa descentralização que caracteriza a experiência: em vez de depender exclusivamente da existência de uma sala convencional de cinema, o projeto transforma espaços disponíveis nas cidades em pontos de acesso ao audiovisual.
O Cine Câmara integra o Rota Cine MS e é realizado pelo Instituto Curumins, por meio do Termo de Fomento nº 5499/2025, em parceria com a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) e a Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura (Setesc), com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), do Ministério da Cultura.
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