"As pessoas precisam aprender a respeitar a crença alheia", clama pai de santo
Manifestação acontece dias após denúncia de intolerância religiosa no Jardim Lageado

Dias após o pai de santo Paulo Henrique da Silva denunciar mais um caso de intolerância religiosa em Campo Grande, integrantes de diversas casas de axé foram às ruas do bairro Parque do Lageado, onde o crime aconteceu, para denunciar o preconceito e pedir respeito às religiões de matriz africana.
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Integrantes de casas de axé realizaram manifestação no bairro Parque do Lageado, em Campo Grande, para denunciar intolerância religiosa e pedir respeito às religiões de matriz africana. O ato ocorreu após o pai de santo Paulo Henrique da Silva registrar um novo caso de preconceito. Praticantes relataram interrupções de cultos, discriminação em serviços públicos e constrangimentos no cotidiano.
O babalorixá Augusto de Logunedé, presidente do Instituto Yalodê e organizador da manifestação, explica que a situação vivida por Paulo faz parte do dia a dia de praticantes de Candomblé, Umbanda e Quimbanda.

"Muitas vezes há até interrupção de cultos. Em uma ação comunitária, chegou a denúncia de uma moradora que queria incendiar a casa de outra porque ela havia feito um despacho. Nas religiões de matriz africana, é tradição oferecer alimentos como farofa de dendê, mel e água em busca de proteção e bênçãos. Não era um ataque contra ninguém, era apenas a expressão da fé dela", exemplificou.
Segundo ele, a presença deles mostra que eles existem. "As pessoas, sejam evangélicas ou de qualquer outra religião, precisam aprender a respeitar a crença alheia. O povo do Axé não tem nada a ver com o demônio. Nós cultuamos os orixás e as entidades ancestrais brasileiras", finalizou.
A mãe de santo, Iyalorixá Janayna de Obaluaê, conta que a religião sempre fez parte da sua vida e, por isso, tem mais facilidade para enfrentar o preconceito. "Mas vejo que os filhos mais novos, que estão começando agora, sofrem muito. O bullying é constante. As pessoas fazem da gente monstros, dizem que sacrificamos animais, e não é nada disso. Nós apenas cultuamos uma religião de matriz afro-brasileira", relatou.

A intolerância está presente desde a busca por serviços públicos até a ida ao supermercado.
"Quando buscamos um benefício ou atendimento na rede pública de saúde, muitas vezes somos vistos com outros olhares e sentimos que outras pessoas recebem preferência. Somos muito discriminados. Outro dia, meus filhos passaram por uma situação no supermercado: um atendente passou com o carrinho por cima deles, e foi preciso chamar o gerente. Também somos chamados de demônio, de capeta", disse.
Ela aponta que muitas vezes o preconceito já começa pelas roupas típicas usadas. "Vestimos branco porque o branco representa a paz, e é isso que queremos transmitir. Infelizmente, muitas pessoas enxergam isso com discriminação", completou
Denúncia - Na manhã de 3 de junho pai de santo Paulo Henrique da Silva, de 34 anos, denunciou à polícia um caso de intolerância religiosa em Campo Grande. O pastor Sérgio Britto, da igreja Ministério de Jesus Cristo da Última Hora, abordou familiares do pai de santo e teria feito declarações contra a Umbanda, dizendo que “todo macumbeiro, feiticeiro e umbandeiro vai ser julgado e vai parar no inferno”.
O pastor ainda se ajoelhou próximo à residência e passou a recitar trechos bíblicos, perturbando o sossego da família. A vítima registrou boletim de ocorrência e busca assessoria jurídica para ingressar com ação criminal.
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Esse caso foi sugerido por leitor que enviou mensagem pelo canal Direto das Ruas.

