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Economia

Governo prevê alta de 10% na balança comercial de MS com acordo Mercosul–UE

Famasul avalia que tratado amplia mercados para o agronegócio, reduz riscos comerciais e aponta desafios

Por Viviane Monteiro, de Brasília | 15/01/2026 17:13
Governo prevê alta de 10% na balança comercial de MS com acordo Mercosul–UE
Produtos com potencial de ampliar as exportações em curto prazo incluem a celulose sul-mato-grossense (Foto: Semadesc)

O governo de Mato Grosso do Sul prevê crescimento de cerca de 10% na balança comercial estadual em um horizonte de dois anos após a assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE). A assinatura do tratado está prevista para o próximo sábado, 17 de janeiro, em Assunção, no Paraguai.

RESUMO

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O governo de Mato Grosso do Sul projeta um aumento de 10% na balança comercial estadual nos próximos dois anos, após a assinatura do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, prevista para 17 de janeiro em Assunção. A celulose, principal produto de exportação do estado, deve se tornar ainda mais competitiva.O acordo beneficiará diversos setores, incluindo carnes bovina, suína e de frango, além de citrus e etanol. Em 2025, a UE representou 13% das exportações sul-mato-grossenses, totalizando US$ 1,30 bilhão, com superávit de US$ 812 milhões. O estado mantém relações comerciais com 23 países do bloco europeu.

“Não fizemos simulações para ver qual o tamanho desse mercado, mas acreditamos que, em um curto espaço de tempo, conseguiremos aumentar, no mínimo em dois anos, a participação na balança comercial em torno de 10%, com a consolidação de toda a questão do Mercosul”, disse ao Campo Grande News o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Jaime Verruck.

Segundo ele, o tratado beneficia diretamente a pauta exportadora do Estado, que tem um conjunto de produtos sobre os quais as tarifas devem ser reduzidas. "Está muito alinhado com o perfil da economia de Mato Grosso do Sul", diz o secretário.

Nesse contexto, os produtos com potencial de ampliar as exportações em curto prazo incluem a celulose sul-mato-grossense, líder tanto das exportações brasileiras quanto da balança comercial estadual. A tendência é que o produto se torne ainda mais competitivo com o acordo. Outro item com potencial de elevar as vendas externas é a carne bovina dentro do padrão europeu. “Já temos várias propriedades credenciadas para a União Europeia. Também fazemos exportação de couro para a Itália”, afirmou.

Entre outros produtos destacam-se ainda citrus, carne de frango e carne suína. Além disso, o acordo abre janela para exportação de etanol, cuja participação ainda é modesta na comunidade econômica europeia que vem tentando descarbonizar a economia.

“Obviamente, a comunidade econômica europeia também avalia a possibilidade de ampliar suas exportações para o Brasil. Mato Grosso do Sul tem comprado muitos equipamentos para a indústria de celulose, e isso é um ponto importante”, afirma o secretário.

Potencial do mercado bilateral

A União Europeia respondeu em 2025 por cerca de 13% da matriz de exportação de Mato Grosso do Sul. Do total de US$ 1,30 bilhão exportado, cerca de 95% tiveram origem no agronegócio, evidenciando a relevância estratégica desse setor. No total, foram 3,76 milhões de toneladas de produtos enviados aos países europeus.

Ao mesmo tempo, as importações estaduais do bloco europeu totalizam 77 mil toneladas de produtos, somando US$ 492 milhões. Com isso, a balança comercial sul-mato-grossense fechou o ano passado com superávit de US$ 812 milhões com o bloco europeu – que foi o segundo mercado mais importante para as exportações sul-mato-grossenses, incluindo a Ásia, América do Norte, Oriente Médio, África, Oceania e Mercosul. O estado manteve relações comerciais com 23 países da União Europeia em 2025, sendo 20 como destinos de exportações e 23 como origens de importações, conforme dados da Semadesc.

A celulose ocupou o primeiro lugar no ranking das exportações para UE, com 1 milhão de toneladas e receita de US$ 627 milhões, respondendo por 48,12% do valor total apurado. Em seguida, aparecem os farelos de soja, com 917 mil toneladas e US$ 310 milhões, representando 23,84% do total. Em terceiro lugar está a carne bovina, com 14 mil toneladas exportadas, totalizando US$ 126 milhões e uma fatia de 9,68% das exportações estaduais para o bloco.

Do lado das importações provenientes da Europa, os destaques foram maquinários para uso nas indústrias de papel e celulose (US$ 171 milhões), equipamentos de aquecimento e resfriamento (US$ 146 milhões), caldeiras de geradores de vapor (US$ 108 milhões), além de outros equipamentos e implementos industriais.

Entre os países europeus que mais compraram produtos sul-mato-grossenses estão Holanda (31,7%) e Itália (31,4%) em 2025. Já a Finlândia, que domina a tecnologia de produção de máquinas para a indústria de celulose, forneceu 67% dos produtos comprados da União Europeia por Mato Grosso do Sul.

Segundo o Conselho Europeu, o Brasil é parceiro estratégico da União Europeia desde 2007. Além de ser o segundo maior parceiro comercial do Brasil, o bloco europeu é seu maior investidor estrangeiro, com mais de € 300 bilhões já investidos por empresas e investidores europeus em participações em empresas, fábricas, bancos, infraestrutura, energia, indústria, serviços e agronegócio.

Salvaguarda da China

O secretário da Semadesc analisou ainda a distribuição geográfica das exportações do Estado e avaliou que o acordo “é um bom alento” para fazer frente à salvaguarda da China à carne bovina. Na virada do ano, em 31 de dezembro de 2025, a China, principal parceiro comercial de Mato Grosso do Sul, responsável por cerca de 50% das exportações estaduais, estabeleceu uma cota anual inicial de 1,1 milhão de toneladas para compras de carne bovina do Brasil. As exportações que ultrapassarem esse limite pagarão sobretaxa de 55%. A medida entrou em vigor em 1º de janeiro e tem duração prevista de três anos.

Governo prevê alta de 10% na balança comercial de MS com acordo Mercosul–UE
Economia da Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul), Eliamar Oliveira, (Foto: Divulgação)

Diversificação de mercados

Ao Campo Grande News, a consultora de economia da Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul), Eliamar Oliveira, reforçou ainda o otimismo com o acordo que, segundo avalia, deverá ampliar de forma significativa o acesso dos produtos brasileiros ao mercado europeu, especialmente os do agronegócio. Para ela, o livre comércio entre os dois blocos representa uma oportunidade estratégica para diversificar destinos de exportação e reduzir a dependência da China, principal parceiro de Mato Grosso do Sul, diante das incertezas do comércio internacional.

Na prática, o acordo do Mercosul com o mercado europeu, que reúne 27 países e possui um PIB estimado em cerca de US$ 22 trilhões, com alto poder aquisitivo, representa uma janela de oportunidade para absorver boa parte da produção de carne bovina sul-mato-grossense. A relação comercial entre os dois blocos envolve mais de 700 milhões de consumidores na América do Sul e na Europa, com alto poder aquisitivo, configurando um mercado estratégico não apenas em volume, mas também em valor agregado.

“Ampliar o acesso a mercados desenvolvidos contribui para reduzir riscos comerciais, diluir impactos de tensões geopolíticas e aumentar a resiliência do setor agropecuário brasileiro, especialmente em um contexto de incertezas no comércio internacional e maior volatilidade nas relações com grandes compradores globais, como a China”, avalia.

Segundo ela, o acordo aumenta a previsibilidade comercial e contribui para o planejamento dos exportadores estaduais, além da livre circulação prevista para o comércio entre os países dos dois blocos.

“Com a eliminação imediata de tarifas para alguns produtos, a redução gradual em outros, além do aumento da previsibilidade comercial e da diminuição de barreiras técnicas e regulatórias, o acordo cria condições mais favoráveis ao planejamento produtivo e exportador”, disse. O ambiente positivo tende a estimular investimentos, ganhos de eficiência, melhoria de rentabilidade e maior inserção internacional das cadeias produtivas sul-mato-grossenses.

A economista concorda ainda que o tratado tende a fortalecer cadeias já consolidadas na pauta exportadora do Estado, como celulose, farelo de soja, carne bovina, açúcar de cana e carne de frango, que, juntas, responderam em 2025 por cerca de 90% do valor exportado para a União Europeia. Além disso, outros produtos com participação ainda reduzida, como óleo de milho, soja em grão, fécula de mandioca/tapioca e mel, poderão ampliar espaço no mercado europeu.

Cotas da União Europeia

Mesmo com a permanência de cotas de importação aplicadas pela União Europeia, independentemente do acordo, a economista da Famasul considera o saldo positivo. Ela avalia que o tratado deve ampliar o acesso a um mercado de alto valor agregado e elevado padrão sanitário. As cotas abrangem produtos considerados sensíveis, sobretudo no setor agropecuário, como carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol. O tratado, porém, cria, amplia ou ajusta cotas específicas para países do Mercosul, com condições mais favoráveis do que as vigentes hoje.

Segundo Eliamar Oliveira, no caso da pecuária, a maior previsibilidade comercial e o aumento dos volumes negociados dentro das cotas preferenciais podem elevar a competitividade da carne bovina, contribuindo para melhor formação de preços, margens mais estáveis para a indústria e melhores condições de remuneração ao produtor rural.

Capacidade logística

Sobre a infraestrutura logística para eventual ampliação do escoamento da produção ao mercado europeu, a economista afirma que a capacidade do Estado de colher benefícios estará diretamente relacionada à eficiência logística e à qualidade da infraestrutura de transporte. Nesse sentido, defende investimentos contínuos diante da necessidade de melhorias nas rodovias, ampliação de ferrovias, aumento da capacidade de armazenagem e maior integração logística, para reduzir custos, elevar a competitividade e garantir regularidade no fornecimento.

Os embarques do Estado para o bloco europeu ainda dependem de portos, cenário que não deve se alterar de forma significativa em médio e longo prazos, mesmo com a proximidade da inauguração da Rota Bioceânica.

Selo verde

Para fazer frente às restrições ambientais mantidas no acordo entre o bloco europeu e o Mercosul – exigindo que os produtos não sejam provenientes de desmatamento ilegal –, o governo estadual assinou um acordo com a comunidade econômica europeia, alinhavado durante a COP30, realizada em novembro de 2025, em Belém, para a criação do selo verde.

A certificação, que definirá quais propriedades e produtos poderão ser destinados ao bloco europeu, será implementada ao longo de 2026. Segundo o secretário da Semadesc, o selo passa a vigorar a partir do próximo ano.

Em meados de 2025, a União Europeia classificou oficialmente o Brasil como país de risco padrão (médio) no âmbito do Regulamento de Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), publicado em 2023. Com isso, algumas commodities – como soja, carne bovina, café, cacau, óleo de palma, couro, madeira, borracha e seus derivados – estão sujeitas a rigorosos requisitos de devida diligência, rastreabilidade e comprovação de conformidade legal como condição para acesso ao mercado europeu.

Somente produtos cuja produção não tenha provocado desmatamento após 31 de dezembro de 2020 poderão ingressar na União Europeia, inclusive nos casos de desmatamento considerado legal no Brasil.

Para a economista da Famasul, grande parte dos produtores e agroindústrias do Estado já opera sob elevados padrões sanitários, ambientais e de sustentabilidade. Acrescentou que o Estado possui histórico de avanços em sanidade animal, sistemas de rastreabilidade, conformidade ambiental e adoção de boas práticas agropecuárias.

“Os principais desafios estão relacionados à adaptação contínua às novas exigências regulatórias europeias, especialmente no que se refere à rastreabilidade individual e à burocracia associada às certificações.”

Nesse contexto, defendeu apoio técnico, segurança jurídica, investimentos em capacitação e a implementação de políticas públicas que auxiliem o produtor rural – especialmente médios e pequenos – a atender a esses requisitos sem perda de competitividade.