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Economia

Reforma tributária e investimentos sem renúncia fiscal desafiam governo Riedel 2

Para especialistas, Estado terá de fortalecer mão de obra, logística e negócios para compensar perda de ICMS

Por Viviane Monteiro, de Brasília | 08/10/2026 16:19
Reforma tributária e investimentos sem renúncia fiscal desafiam governo Riedel 2
Eduardo Riedel durante entrevista ao Campo Grande News, após eleito no 1º turno (Foto: Paulo Francis)

O segundo mandato do governador Eduardo Riedel terá o desafio de preparar o ambiente econômico de Mato Grosso do Sul, fortalecendo instrumentos de competitividade, como a capacitação de mão de obra para atender à demanda industrial e a eficiência da infraestrutura logística, para que o Estado continue atraindo investimentos produtivos diante da perspectiva de redução gradual da política de incentivos fiscais de ICMS. Essa é a análise de especialistas da área econômica ouvidos pelo Campo Grande News.

RESUMO

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O segundo mandato do governador Eduardo Riedel terá o desafio de preparar o ambiente econômico de Mato Grosso do Sul para a redução gradual dos incentivos fiscais de ICMS, que começa em 2029 e termina em 2032, com a reforma tributária. A LDO de 2026 prevê R$ 37,95 bilhões em benefícios entre 2026 e 2028. Especialistas apontam a necessidade de investir em qualificação profissional e logística, em um cenário de pouca margem fiscal e dívida de 72% da receita corrente líquida.

Com a reforma tributária, a partir de 2029, os incentivos fiscais, que hoje são um dos principais instrumentos de atração de investimentos privados para o Estado, começam a ser reduzidos progressivamente até serem extintos em 2032. Até lá, o Estado deve fortalecer a competitividade interna e reduzir progressivamente a dependência dos benefícios tributários bilionários para atrair capital privado.

A projeção de concessão de incentivos fiscais para os próximos três anos, de 2026 a 2028, no Estado é de R$ 37,95 bilhões, conforme a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 2026, publicada no Diário Oficial de Mato Grosso do Sul em 16 de julho de 2025. Mato Grosso do Sul é o terceiro Estado em concessão de incentivos bilionários à economia privada, segundo a FGV (Fundação Getúlio Vargas).

O pesquisador Eduardo Luís Casarotto, professor de Administração da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), avalia que o maior desafio do Estado é desenvolver um ambiente favorável para continuar atraindo novos investimentos privados mesmo sem a concessão de incentivos fiscais.

“Um dos problemas que vejo para o próximo governo é como continuar atraindo investimentos para o Estado e quais serão os pontos fortes para a atração de indústrias para o Estado, principalmente considerando todo o contexto de integração da Rota Bioceânica, cujo início de operação vem sendo postergado”, destaca. “Está se concretizando o que venho dizendo há algum tempo: ponte pronta não significava ponte funcionando.”

Para Casarotto, o Estado terá de fortalecer instrumentos como a capacitação profissional e a infraestrutura logística, por exemplo, para continuar competitivo e disputar investimentos com mais propriedade com estados onde o consumo é grande, como São Paulo, que tendem a se tornar mais atrativos para os investimentos privados diante da reforma tributária.

A reforma muda gradualmente a cobrança de impostos sobre o consumo, que passará a considerar o destino, onde ocorre o consumo. Com isso, incentivos fiscais estaduais tendem a perder parte da força como diferencial competitivo, aumentando o peso de fatores como mão de obra qualificada, logística, energia e ambiente de negócios.

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Diretor da FACE (Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Economia) da UFGD, Enrique Duarte Romero (Foto: Divulgação)


Para o diretor da FACE (Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Economia) da UFGD, Enrique Duarte Romero, a atração de empresas por meio de renúncias fiscais precisa ter critérios e prazo para avaliar seu retorno, especialmente na geração de empregos, no aumento do consumo e das receitas. Se não houver compensação, o benefício deve ser revisto. Além dos incentivos, as empresas só investem quando encontram perspectivas econômicas favoráveis.

Investimentos

Até 2030, os investimentos da indústria previstos para o Estado superam R$ 115 bilhões, principalmente nas áreas de mineração, fertilizantes, fármacos, celulose e agroindústria, segundo a programação consolidada da Fiems (Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul) para 2023 a 2030. Desse montante, R$ 27 bilhões foram concluídos, enquanto R$ 60 bilhões estão em execução. Outra parcela de R$ 29 bilhões está programada para até 2030.

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Responsável por 22,4% do PIB (Produto Interno Bruto) estadual, a indústria de transformação deve receber incentivos fiscais de R$ 19 bilhões entre 2026 e 2028, uma média de pouco mais de R$ 6 bilhões ao ano, conforme a programação da LDO de 2026, publicada no Diário Oficial de Mato Grosso do Sul em 16 de julho de 2025.

O montante de benefícios para reduzir o custo tributário do setor produtivo local previsto para os três anos representa praticamente 50% do total de R$ 37,95 bilhões até 2028. Para 2026, a previsão é de R$ 11,950 bilhões; para 2027, R$ 12,667 bilhões; e, para 2028, R$ 13,401 bilhões.

Reforma tributária e investimentos sem renúncia fiscal desafiam governo Riedel 2

O novo plano de governo de Riedel reconhece que o próximo ciclo será marcado pela implementação da reforma tributária, representando um desafio para o governador, que vem executando uma das mais agressivas políticas de incentivo fiscal do país. O entendimento é de que 2026, 2027 e 2028 “serão os últimos anos possíveis de utilização desse instrumento para atrair investimento e promover a tão ansiada industrialização da economia sul-mato-grossense”, destaca a proposta do novo mandato de Riedel.

A proposta do novo plano é preparar o ambiente econômico e “consolidar o Estado como uma das economias mais competitivas, inovadoras e sustentáveis do Brasil, capaz de transformar suas vocações naturais, sua capacidade empreendedora e seu ambiente institucional em desenvolvimento econômico”.

O plano de governo propõe medidas para fortalecer a indústria, estimular inovação e tecnologia, ampliar a qualificação profissional e incentivar novos investimentos. Mas reconhece a necessidade de garantir que “a expansão da economia seja acompanhada pela formação de mão de obra qualificada, além do aumento da renda e maior inclusão produtiva em todas as regiões do Estado”.

O secretário da Semadesc (Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), Artur Falcette, falou sobre os desafios do Estado no próximo ciclo e disse que o governo vai adaptar os instrumentos de incentivo às mudanças da reforma tributária e reforçar as condições que tornam o Estado atrativo para os investimentos.

“Nossa atuação já combina responsabilidade fiscal, segurança jurídica, infraestrutura, qualificação profissional e melhoria do ambiente de negócios. O equilíbrio das contas públicas sustenta a capacidade do Estado de investir em infraestrutura e dar continuidade às políticas de desenvolvimento”, analisou.

Conforme acrescentou o titular da Semadesc, a articulação com empresas e municípios e a simplificação dos serviços também contribuem para oferecer confiança e previsibilidade a quem investe no Estado.

“Na qualificação profissional, seguiremos trabalhando com o setor produtivo e as instituições de ensino para preparar os trabalhadores conforme as demandas dos empreendimentos”, exemplificou. Ele reforça que o objetivo é preservar a competitividade do Estado e ampliar a participação da população local nas oportunidades de emprego e renda.

Falcette confirmou a perspectiva de investimentos da Fiems e disse que o volume de investimentos bilionários previstos até 2030 é compatível com o movimento de expansão e diversificação produtiva que “acompanhamos” no Estado.

“Nossa perspectiva é transformar esses investimentos em desenvolvimento regional, agregando valor à produção estadual, fortalecendo fornecedores locais e ampliando as oportunidades de emprego e renda. Os efeitos alcançam as unidades industriais e também outras atividades, como transporte, manutenção, comércio e serviços. A diversificação da estrutura produtiva contribui para sustentar o crescimento econômico nos próximos anos.”

No entendimento de Enrique Duarte Romero, também professor de Economia da FACE, a prioridade dada a áreas como infraestrutura logística, saúde e educação tem extrema relevância e poderá contribuir para aumentar a qualidade da mão de obra e, como consequência, repercutir positivamente na produtividade local. Ele sustenta também que “tendo uma educação adequada também diminuem os gastos em saúde”.

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Margem apertada

Romero avalia, porém, que o Estado tem pouca margem de investimento e destaca a necessidade de ajuste fiscal nas contas públicas. Nesse contexto, comparou a situação de Mato Grosso do Sul com a do país e disse que Estados e União têm pouca margem para ampliar investimentos diante do peso das dívidas e da previdência.

Romero destacou ainda que Mato Grosso do Sul tem uma dívida equivalente a 72% da Receita Corrente Líquida (RCL). Em comparação com Estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, o índice não é muito elevado. Porém, entre os Estados do Centro-Oeste, o endividamento de MS é alto, superando Mato Grosso, com 59% da RCL, e Goiás, com 56%.

No caso de Mato Grosso do Sul, as contas públicas poderiam passar pelo que chamou de engenharia financeira, com a renegociação e o alongamento dos prazos das dívidas do Estado com a União. Como há pouco espaço para cortar gastos, essa seria uma alternativa para ampliar a capacidade de investimento. No entanto, isso dependeria de um acordo com os credores e de poder de barganha.

Diante da baixa capacidade de investimento público, o Estado também depende da iniciativa privada, que só investe quando há perspectiva de retorno. Nesse cenário, os incentivos fiscais continuam sendo uma das poucas ferramentas disponíveis, mas comprometem o espaço para ampliar os investimentos públicos, o que reflete o cobertor curto do orçamento comprometido com incentivos fiscais bilionários e pagamento de juros da dívida, principalmente.