O brasileiro paga para comprar o carro, manter e andar com ele
É hora de rever IPVA, abrir planilha do licenciamento e cobrar das concessões as obras que justificam pedágio

A primeira cobrança vem embutida no preço do carro. Depois chegam o IPVA e o licenciamento. A cada abastecimento, há tributos no preço do combustível. Quando o motorista entra numa rodovia concedida, vem o pedágio. Cada cobrança tem uma justificativa. Para quem paga, todas saem do mesmo bolso.
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Em Mato Grosso do Sul, um carro de passeio usado com valor venal de R$ 80 mil, sujeito à alíquota de 3%, gera R$ 2,4 mil de IPVA em 2026, antes do desconto à vista. São R$ 200 por mês, se a família dividir a despesa ao longo do ano. Nessa conta ainda entram licenciamento, combustível, manutenção e, para quem pega a estrada, pedágio.
O IPVA compõe o orçamento público e pode financiar serviços em diferentes áreas. Pela Constituição, metade do que se arrecada sobre os carros cabe aos municípios onde eles são licenciados. Isso dá peso à discussão sobre extinguir o imposto. Uma proposta séria precisa mostrar quanto o Estado e cada prefeitura perderiam e como preservariam os serviços que dependem dessa receita. Também cabe aos governos demonstrar, com números, por que a cobrança deve continuar no patamar atual.
Mato Grosso do Sul pode começar por aí. O governo deveria apresentar à Assembleia Legislativa simulações de redução da alíquota, de isenção para veículos de menor valor e de eliminação gradual do imposto. Em cada cenário, o contribuinte precisa saber quanto economizaria e quanto deixaria de entrar nos cofres públicos. Se a revisão terminar com a criação de outra cobrança sobre o mesmo motorista, o alívio terá sido apenas no nome do boleto.
O licenciamento também merece uma revisão. Quanto custa ao Detran manter o cadastro, processar a renovação e disponibilizar o documento digital? Quanto a taxa arrecada? A publicação dessa planilha permitiria avaliar se o valor cobrado ainda corresponde ao custo do serviço. Já a multa tem função de punir infrações e proteger vidas. Sua fiscalização deve ser avaliada pela segurança que entrega, com dados públicos sobre os pontos fiscalizados e os acidentes registrados.
Na BR-163, em Mato Grosso do Sul, a concessão põe outra conta diante do motorista. O pedágio remunera a operação da rodovia e os investimentos previstos em contrato. A ANTT deve mostrar, em linguagem que qualquer usuário entenda, quanto foi arrecadado, quais obras já foram entregues, quais estão atrasadas e que providências foram tomadas. A cobrança tem data e valor definidos. As obras precisam de prazos igualmente claros.
Para quem depende do carro para trabalhar, levar os filhos à escola ou buscar atendimento em outra cidade, dirigir é uma despesa que pesa o ano inteiro. O debate sobre o IPVA deveria sair da discussão anual sobre desconto e parcelamento. A pergunta é quanto dessa conta pode ser reduzido, quais cobranças ainda se justificam e o que o poder público entrega pelo dinheiro que recebe.

