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Artes

Há mais de 50 anos, Elpídio faz ranchinhos dentro de gamela rústica

Artesão já serviu café para diretores do metrô de São Paulo, mas encontrou na madeira a felicidade

Por Natália Olliver | 10/01/2026 07:06
Há mais de 50 anos, Elpídio faz ranchinhos dentro de gamela rústica
Elpídio Alves de Freitas é artesão há mais de 50 anos (Foto: Henrique Kawaminami)

Elpídio Alves de Freitas, de 84 anos, já serviu café para diretoras japonesas em reuniões do metrô de São Paulo e há mais de 50 anos usa as mãos para transformar gamela rústica em ranchinhos, fazer fazendinha e tudo o que a imaginação permitir, usando madeira. O que não falta para o artesão é vontade de seguir fazendo o que mais ama. Aliás, ele se recusa a se aposentar e já adianta: enquanto tiver saúde vai continuar entalhando peças no estilo barroco.

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Elpídio Alves de Freitas, 84 anos, dedica-se há cinco décadas à arte em madeira, transformando materiais rústicos em peças decorativas detalhadas, como casarios antigos e fazendinhas em estilo barroco. O artesão, que começou sua jornada em São Paulo, recusa-se a se aposentar e mantém sua oficina ativa em Campo Grande. Em seu ateliê no Bairro Universitário, Elpídio cria peças únicas com minuciosos detalhes, desde poços artesanais até mobiliários em miniatura. Foi um dos primeiros artistas registrados na Casa do Artesão local e já teve suas obras presenteadas a personalidades como o apresentador Ratinho. Apesar do reconhecimento, mantém-se humilde e prioriza a satisfação de criar ao retorno financeiro.

A grande paixão de Elpídio são os casarios antigos e fazendinhas que inventou. Nas peças, ele faz cada detalhe de um jeito único, desde poços artesanais de tijolos, camas, baús, panelas, fogões a lenha, celas até riachinhos.

Há mais de 50 anos, Elpídio faz ranchinhos dentro de gamela rústica
Há mais de 50 anos, Elpídio faz ranchinhos dentro de gamela rústica
Artesão transforma gamela em "fazendinha" rústica (Foto: Henrique Kawaminami)

“Quando eu comecei a fazer casario antigo isso demorava, meu forte é isso, depois fui para carranca. Cheguei em Campo Grande sem saber fazer outra coisa e aqui fui criando cada vez mais, fazendo uma coisinha aqui e outra ali, porta entalhada. A fazendinha foi criação minha, coloquei um monjolo que é um mecanismo, um pilão, movido a água. O pessoal gosta e dá de presente pros avós, eles curtem a roda de água e o monjolo, lembram do passado.”

Nos fundos da casa, no Bairro Universitário, ele conta que tudo começou na capital paulista, quando um artesão acreditou que ele poderia fazer arte na madeira e ensinou algumas técnicas.

Em 15 dias, Elpídio já tinha conquistado o homem com a rapidez que aprendeu as peças. O futuro não poderia ser outro senão seguir esse caminho, trilha que até então era desconhecida para ele. Mesmo não tendo experiência, o futuro artista viu que a coisa poderia ser boa e embarcou na aventura.

“Eu era ajudante de um artesão que o povo chamava de Baiano, ele falou que iria me pagar mais para fazer as peças do que eu recebia. Em 1971 deixei o metrô para ser garçom no banco, queria fazer curso de desenho, mas não pude pela situação financeira. Quatro anos depois, voltei para Campo Grande e recebi convite da Casa do Artesão para expor minhas peças lá.”

Há mais de 50 anos, Elpídio faz ranchinhos dentro de gamela rústica
Há mais de 50 anos, Elpídio faz ranchinhos dentro de gamela rústica
Elpídio fez do quintal um galpão para oficina no bairro Universitário (Foto: Henrique Kawaminami)

Elpídio foi um dos primeiros artistas a serem registrados por lá. Ele conta que nunca começa uma arte sem pedir proteção e que usa madeiras que as pessoas jogam fora para criar no galpão de casa.

“Eu não saio do meu artesanato, isso é minha vida. Cada vez mais estou criando e acho que não sei muito. Ainda acho que estou aprendendo mais novidade. Estou com 84 anos, já era pra estar aposentado, mas não vou aposentar, vou continuar trabalhando, enquanto eu tiver forças vou continuar aqui e viajando. Porque muitas vezes pego minhas ferramentas e vou pra Bonito, trabalho lá e estou feliz.”

Ele conta que às vezes faz consertos de móveis também e que, ainda no início, as pessoas descobriram que ele tinha a manha de consertar, o que rendeu a Elpídio o apelido de “restaurador”.

O artesão abre as portas da oficina que montou em casa para apresentar as invenções que fez ao longo do tempo. O local é cheio de madeira, peças avulsas e farelo de portas que já não existem. No fundo, ele fala que é o recanto das coisas. “Inventei uma ferramenta para fazer telhado das peças, outra para segurar elas enquanto estão secando.”

Há mais de 50 anos, Elpídio faz ranchinhos dentro de gamela rústica
Há mais de 50 anos, Elpídio faz ranchinhos dentro de gamela rústica
Algumas peças de Elpídio são vendidas na Casa do Artesão, em Campo Grande (Foto: Henrique Kawaminami)

O trabalho é feito sozinho porque ele já não tem paciência para explicar os processos. Ao invés disso, prefere fazer ele mesmo tudo. “Pra trabalhar comigo tem que saber fazer porque são muitas coisas que eu inventei e teria que ensinar a pessoa. Não compensa. Eu já dei aula de artesanato há muitos anos em Bataguassu, no posto 15 e em fazendas no Pantanal.”

Elpídio explica que não tem muitas peças em casa porque todas que faz saem rapidamente, mas que quem se interessar pode ver algumas na Casa do Artesão, inclusive uma das fazendinhas com pilão.

“Eu fico muito feliz porque é muito gostoso trabalhar nisso, não fico um dia sem vir na oficina. Às vezes não tem encomenda, eu pego uma madeira qualquer e vou fazendo casa de passarinho, ranchinho. Tendo matéria-prima, invento alguma coisa.”

Sem falar o preço das peças, Elpídio conta que não se importa muito com isso, que o foco da vida dele é sobreviver bem e, acima de tudo, fazer as artes em madeira.

Confira a galeria de imagens:

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“O que eu quero vender, não importa se está barato. Não tenho interesse em ficar rico, não tenho loja. Já tive uma na Feirona, mas vendi lá e trouxe para minha casa. Quero saber de fazer minhas peças. Sou muito feliz, sinceramente.”

Ele relembra que, na infância, fazia escultura na ponta dos lápis, porém sem pretensão. Até então tudo era amador e intuitivo, brincadeira. Entre as coisas legais que aconteceram na vida, ele cita a vez que vendeu uma peça para alguém dar de presente para o apresentador Ratinho.

“Tem artistas que têm peça minha. O Ratinho tem, só que ele não me conhece, só pela foto que coloquei junto da obra. Ele veio fazer leilão e eu estava na loja quando uma moça queria uma obra pra dar de presente pra ele. Ela viu a fazendinha e pediu um porta-retrato. O homem ficou maravilhado. Ele nem sabe, às vezes tenho vontade de escrever uma carta falando que sou eu.”